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Uma leitura política dos resultados olímpicos: a evolução da participação portuguesa (2)

Após a Revolução, as profundas transformações sociais verificadas traduziram-se numa maior democratização da prática desportiva. Contudo, o atraso era muito e, por isso, a evolução foi gradual, até porque alguns atavismos herdados do antigamente não eram fáceis de ultrapassar.
Rosa Mota, campeã olímpica. Foto: Wikimedia Commons.
Rosa Mota, campeã olímpica. Foto: Wikimedia Commons.

Após a Revolução, as profundas transformações sociais verificadas traduziram-se numa maior democratização da prática desportiva. Contudo, o atraso era muito e, por isso, a evolução foi gradual, até porque alguns atavismos herdados do antigamente não eram fáceis de ultrapassar.

As duas pratas de Montréal

Os Jogos Olímpicos de 1976 tiveram lugar na cidade canadiana de Montréal. Em finais de 1973, a quarta guerra israelo-árabe leva os países árabes produtores de petróleo a reduzir a produção, com o consequente aumento exponencial do preço daquele. Com isto, as economias do Ocidente enfrentam uma forte recessão, conhecida por “choque petrolífero”, que pôs fim ao crescimento económico contínuo e à prosperidade vivida desde o pós-guerra.

Entretanto, o confronto global da “guerra fria” evoluíra, formalmente, para um período de desanuviamento. Contudo, os conflitos regionais continuavam e, nesse ano de 1975, os soviéticos marcavam pontos, em especial após a retirada das tropas estadunidenses do Vietname, a mais humilhante derrota militar da história dos EUA, que permitiu à URSS controlar a Indochina, e a subida ao poder de movimentos de libertação de cariz marxista nas ex-colónias portuguesas, com destaque para Angola.

Os Jogos de Montréal ficam marcados pelo boicote da maioria dos países africanos, em protesto contra a digressão da equipa nacional de rugby da Nova Zelândia à África do Sul, violando as sanções desportivas ao regime do “apartheid”. Contudo, não sendo, então, o rugby modalidade olímpica, entendeu o COI não haver motivo para suspender os neozelandeses, pelo que o boicote se manteve. No balanço final, há a realçar a vantagem da URSS sobre os EUA, os grandes resultados da RDA e o facto inédito de o Canadá, país organizador, não ter conquistado um único título olímpico (apenas cinco pratas e seis bronzes).

A Revolução ocorreu a meio do ciclo olímpico. Após esta, seguiu-se um período revolucionário, onde ocorreu um importante número de transformações nas anquilosadas estruturas económicas, sociais e culturais da sociedade portuguesa. O desporto não foi exceção, tendo havendo o embrião de uma política de massificação desportiva a nível estatal, a par com iniciativas populares a nível local, que levaram ao aparecimento de novas coletividades dedicadas à promoção de uma dada modalidade em cidades, vilas e aldeias do país. Simultaneamente, é criado, ainda em 1974, o Desporto Escolar. Em 25 de novembro, um golpe militar pôs fim ao processo revolucionário, mas o regime democrático sobreviveu e, em abril de 1976, foi aprovada uma nova Constituição de caráter progressista.

Os resultados do novo Portugal democrático nos Jogos acabaram por ser bem melhores que anteriormente, com a obtenção de duas medalhas de prata (Carlos Lopes, no atletismo, 10.000 metros, e Armando Maques no tiro, fosso olímpico). Para além disso, no atletismo, alguns atletas evidenciaram-se, atingindo algumas finais e meias-finais, dando início aquela que seria a escola portuguesa de meio-fundo e fundo, da qual foi grande mentor o professor Moniz Pereira. Contudo, noutras modalidades, como a natação, o nosso atraso continuava a ser bem visível.

A participação envergonhada em Moscovo

Ao nível mundial, a morte de Mao Zedong, fundador e líder do partido comunista chinês (PCC) e da República Popular da China, no final de 1976, desencadeou uma luta pelo poder no seio da cúpula do partido, que termina com o triunfo da linha moderada, liderada por Deng Xiaoping, que iniciará uma modernização capitalista do país, conduzida pelo PCC. No Médio Oriente, destaque para a histórica visita de Anwar Al Sadat, então presidente do Egito, a Jerusalém, em 1977, que abriu caminho para o tratado de paz israelo-egípcio, assinado ano e meio depois. Em 1979, no Irão, uma revolução popular de raiz islamita depõe o xá, substituindo a monarquia por um regime teocrático islâmico, controlado pelo clero xiita. Na “guerra fria”, os soviéticos continuam a marcar pontos, com a vitória da ala pró-soviética entre os militares etíopes e o derrube dos tristemente célebres “khmers vermelhos”, pró-Pequim, pelos vietnamitas, pró-Moscovo.

Inebriados por esses êxitos, os dirigentes soviéticos resolvem intervir no Afeganistão, onde, no ano anterior, um golpe militar levara ao poder o partido comunista. Porém, rapidamente estala a guerra entre as suas duas principais fações. No final de 1979, a URSS invade o país, com as suas tropas a colocarem no poder a fação pró-soviética. Em resposta, o presidente dos EUA, Jimmy Carter, apela a um boicote global aos Jogos Olímpicos de 1980, marcados para Moscovo, pressionando os países seus aliados a fazer o mesmo. Contudo, a sugestão é rejeitada pelo COI e por muitos comités olímpicos nacionais. No final, 69 países aderiram ao boicote, entre os quais EUA, Canadá, Alemanha Federal, Japão e Coreia do Sul, os mais relevantes entre as maiores potências olímpicas, a que se somaram a China, que havia sido readmitida no movimento olímpico no lugar de Taiwan, a então sua aliada Albânia, a esmagadora maioria dos países islâmicos e alguns dos maiores aliados dos EUA em África, Ásia e América Latina. Por seu turno, apesar das fortes pressões de alguns governos, a autonomia dos comités olímpicos nacionais permitiu-lhes estar presentes, casos do Reino Unido, França, Itália, Holanda, Bélgica, Austrália, Nova Zelândia e Brasil. Porém, a maioria dos países ocidentais presentes competiu sob a bandeira do COI ou do respetivo comité nacional e o hino olímpicos e enviou delegações mais reduzidas, tendo havido federações (como o hipismo, a vela e o tiro) que aderiram ao boicote. Este permitiu à URSS uma superioridade esmagadora, com quase o dobro das medalhas da RDA, segunda colocada no quadro. Seguiram-se, a longa distância, Bulgária, Cuba e Itália, a melhor das representações ocidentais presentes.

Em Portugal, os progressos do atletismo no fundo e meio-fundo eram notórios e havia algumas esperanças de obtenção de medalhas nessa área. Porém, em dezembro de 1979, a coligação de direita Aliança Democrática (AD), liderada por Sá Carneiro e integrando PSD, CDS e PPM, vence as eleições legislativas intercalares, levando a que, pela primeira vez desde o 25 de Abril, o país tivesse um governo de direita. Querendo mostrar o seu seguidismo face aos EUA e respetivos aliados ocidentais, o executivo apoia o boicote aos Jogos. Contudo, tal exigência não é aceite pelo COP, que defende a participação, à exceção das três federações acima mencionadas, que decidem boicotar o evento. No final, o país acaba por competir sob a bandeira do COP e o hino olímpico e envia uma delegação muito reduzida, pois alguns atletas amadores não tiveram direito a dispensas do trabalho para treinar e estar presentes em Moscovo. Sem surpresa, regressou sem qualquer medalha ou diploma.

O primeiro título olímpico em LA

Logo após o fim dos Jogos, a Polónia é abalada por uma série de greves operárias, em especial nos estaleiros navais de Gdansk, de que resulta a criação e posterior legalização do Solidariedade, o primeiro sindicato livre nos países do bloco soviético. No ano seguinte, para evitar uma invasão soviética, um golpe militar leva à declaração da lei marcial e à ilegalização daquela associação sindical. Pouco depois, tem início a guerra Irão-Iraque. Entretanto, as eleições presidenciais estadunidenses de 1980 saldam-se pelo triunfo do republicano conservador Ronald Reagan. Juntamente com a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, eleita no ano anterior, dão início ao neoliberalismo, uma forma de capitalismo ultraliberal e desregulado, que irá triunfar e espalhar-se pelo mundo nos anos seguintes. Em 1982, Israel intervém na guerra civil libanesa, invadindo o país e chegando a Beirute. Aí, ocorrerão, então, os massacres de Sabra e Chatila, nos quais milhares de palestinianos desses campos de refugiados são mortos por uma milícia cristã de extrema-direita, com o beneplácito das tropas israelitas. No fim, estas retiram, mas mantém sob ocupação uma faixa do sul do Líbano, junto à fronteira. Até ao final da década, o Líbano transforma-se num campo de batalha, com um quotidiano marcado pelas bombas e pelos raptos. Nesse mesmo ano, a ditadura militar argentina invade as ilhas Malvinas/Falkland, território sob ocupação britânica. O Reino Unido reage e, após uma guerra de dois meses, expulsa os argentinos do arquipélago. Em resultado, a insatisfação popular pela derrota leva à queda da junta militar e à restauração da democracia. Em 1983, os EUA invadem a ilha caribenha de Granada, a pretexto de um golpe sangrento levado a efeito pela fação mais radical do movimento esquerdista que conquistara o poder, após uma revolução popular, ocorrida quatro anos antes. Entretanto, os EUA retomam a iniciativa no confronto da “guerra fria”, com Reagan a anunciar o desenvolvimento de um sistema de defesa antimíssil a ser colocado na órbita terrestre, popularmente designado por “guerra das estrelas”.

Face ao boicote ocidental a Moscovo, era previsível que a URSS retaliasse e devolvesse o boicote aos Jogos de 1984, marcados para Los Angeles. Restava saber qual o pretexto invocado. A invasão de Granada teria sido um motivo coerente, mas a justificação acabou por ser a falta de segurança dos seus atletas, face à campanha antissoviética existente nos EUA, algo que não convenceu a maioria dos países. Assim, apenas 15 aderiram: a URSS e cinco dos seus aliados do Pacto de Varsóvia (a exceção foi a Roménia, onde Ceaucescu aproveitou para mostrar independência face aos soviéticos, de forma a conseguir apoio financeiro do ocidente, e obter um elevado número de medalhas para a sua propaganda interna), seis da Ásia (Coreia do Norte, Mongólia, Vietnam, Laos, Afeganistão e Iémen do Sul) da África (Etiópia e Angola) e Cuba. A esses se juntaram, por oposição às políticas estadunidenses, Irão, Líbia e Albânia. Como sinal dos novos tempos do neoliberalismo, o comité organizador dos Jogos é entregue a um grupo privado. Estes acabam por dar lucro, mas estava aberto o caminho para a crescente mercantilização das competições. Com a URSS e o bloco soviético de fora, não foi difícil aos EUA conquistarem o maior número de medalhas, seguidos pela Roménia (20 de ouro, permitindo a Ceaucescu ganhar a sua aposta), da Alemanha Federal e da China.

Em Portugal, apesar do recuo de algumas conquistas mais radicais da Revolução, os progressos sociais são notórios, em especial com a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) universal e gratuito, a massificação do ensino no quadro da Escola Pública ou o alargamento da Segurança Social ao regime não contributivo. Por seu turno, o novo poder local democrático contribui para a infraestruturação básica de muitos concelhos. Contudo, há alguma instabilidade governativa e, em 1983, o país sofre a segunda intervenção do FMI, desta vez mais dura que a primeira, ocorrida seis anos antes. No desporto, o espírito massificador e algo voluntarista do pós-25 de Abril vai-se perdendo e algumas das novas coletividades defrontam-se com dificuldades financeiras e logísticas, já que o incremento da prática desportiva não foi acompanhado, desde logo, pela melhoria das respetivas infraestruturas na mesma velocidade e proporção. Por outro lado, as condições de treino dos atletas de alta competição mantinham-se bastante precárias.

Entretanto, a nível competitivo, o fundo e meio-fundo português vivia a sua “época dourada”. Em 1982, nos 10.000 metros, Carlos Lopes bate o record europeu e, dois anos depois, Fernando Mamede o record mundial dos 10.000 metros. Em 1982, em Atenas, Rosa Mota sagra-se campeã europeia da maratona, na estreia da edição feminina da prova nos Europeus, sendo 4ª classificada nos primeiros Mundiais de atletismo, realizados em Helsínquia. Por isso, havia fundadas esperanças de pódio nas olimpíadas seguintes. E estas não seriam defraudadas, com Carlos Lopes a vencer a maratona, obtendo, assim, a primeira medalha de ouro de Portugal nos Jogos Olímpicos. Finalmente, o país tinha um campeão olímpico, 72 anos após a sua estreia. Na mesma prova, no setor feminino, Rosa Mota obtém o bronze, tornando-se a primeira mulher medalhada olímpica portuguesa. Por fim, António Leitão consegue, igualmente, um bronze nos 5.000 metros. Um bom resultado, mesmo considerando o boicote do bloco soviético (que não tinha no atletismo de fundo e meio-fundo o seu ponto forte), mas demonstrativo de que a nossa competitividade estava circunscrita aquele setor daquela modalidade.

Rosa salva a honra em Seul

A nível mundial, em 1985, Mikhail Gorbachev é eleito secretário-geral do partido comunista da URSS e coloca como prioridade uma reforma económica e política, expressa nas palavras “perestroika” (reestruturação) e “glasnost” (transparência). Com elas, dá início a uma revolução, que irá agitar todo o bloco soviético. Ao mesmo tempo, negoceia com os EUA um acordo de redução de armas nucleares, que marca o princípio do fim da “guerra fria”. Na América Latina, as transições democráticas iam-se sucedendo, com destaque para o Brasil, que, com a eleição de Tancredo Neves, regressou à democracia. Já no Médio Oriente, o Líbano continuava um “barril de pólvora”, enquanto a guerra Irão-Iraque terminava com um cessar-fogo, assinado pouco antes do início dos Jogos Olímpicos de 1988, marcados para Seul.

A escolha da capital sul-coreana fora objeto de controvérsia, já que o país era, desde há muito, regido por um regime autoritário, desde sempre bastante contestado, que se transformara, no início da década, numa ditadura militar. Em junho de 1987, o então presidente Choi designa Roh-Tae-Woo como seu sucessor, desencadeando uma enorme vaga de protestos populares, duramente reprimidos. Contudo, face à proximidade dos Jogos e à possibilidade de perder a sua organização, o regime aceita negociar com a oposição e organizar eleições presidenciais diretas no final do ano. Num escrutínio a uma volta, Roh candidata-se com promessas de democratização, aproveitando a divisão do campo oposicionista para vencer com maioria relativa. Apesar disso, o novo presidente cumpre a promessa e a democracia instala-se no país, que experimentara, desde os anos 70, um forte crescimento económico.

Com os novos ventos de Moscovo, os países do bloco soviético comprometeram-se com o COI a não boicotar os Jogos e cumpriram. Porém, a Coreia do Norte pôs como condição para participar ser coorganizadora. Nas conversações com os responsáveis do Sul, os norte-coreanos exigiram, para além de uma equipa unificada, dois comités organizadores e duas cerimónias de abertura e de encerramento (uma no Norte, outra no Sul) e a disputa de metade das provas no seu território. Tanto os sul-coreanos como o COI rejeitaram estas últimas exigências, pelo que o Norte boicotou o evento, no que foi seguido por Cuba, Nicarágua, Albânia, Etiópia, Madagáscar e Seychelles. O novo clima de distensão internacional refletiu-se nos Jogos, com os atletas (em especial, do bloco soviético) a mostrar uma maior descontração. Isso não os impediu de conseguir bons resultados, com a URSS a liderar o quadro de medalhas, seguida da RDA, deixando os EUA em terceiro lugar. A Coreia do Sul, para quem os Jogos constituíam um momento de afirmação, investiu a sério no desporto e foi a quarta colocada, obtendo 33 medalhas, 12 das quais de ouro, à frente da RFA. Entretanto, o “doping”, que já vinha assombrado as olimpíadas anteriores, embora apenas afetando atores menores, assume um papel de destaque no atletismo, quando o canadiano Ben Johnson, vencedor dos 100 metros, à frente de Carl Lewis, dos EUA, testa positivo e é desclassificado. O atleta nega, considerando-se vítima de uma conspiração (estadunidense, presume-se). Na verdade, estava dopado; o problema é que não era o único…

Portugal entra na CEE no 1º dia de janeiro de 1986, juntamente com a Espanha, algo que virá mudar, de forma decisiva, a estrutura económica, social e territorial do país, bem como a própria mentalidade da população. Com o grande afluxo de capitais, fruto dos fundos estruturais europeus e do aumento do investimento estrangeiro, Portugal regista um elevado crescimento económico, que aumenta a prosperidade da maioria dos portugueses, alargando as classes médias. Beneficiando dessas circunstâncias, bem como da queda do dólar e dos preços do petróleo, Cavaco Silva, então primeiro-ministro e líder do PSD, vence as eleições com maioria absoluta e inicia o processo de modernização conservadora do país. Contudo, no desporto, o investimento pouco aumenta e as condições de treino de muitas modalidades estão abaixo do desejável para a obtenção de bons resultados.

Para Seul, era, mais uma vez, no fundo e o meio-fundo que se esperava a conquista de algumas medalhas, em especial após os bons resultados obtidos nos Mundiais do ano anterior, em Roma. Rosa Mota, que se “passeara” nesse evento, vencendo a maratona feminina com enorme vantagem, triunfa na mesma prova, conquistando a segunda medalha de ouro portuguesa, a primeira obtida por uma mulher. Nos 5.000 metros, Domingos Castro, que se sagrara vice-campeão do mundo na capital italiana, é ultrapassado, em cima da meta, por dois alemães, quando tudo indicava que tinha a prata assegurada. No final, apenas a medalha de Rosa Mota salvou a nossa prestação, em geral bastante modesta.

O rotundo fracasso de Barcelona

1989 é um ano que fica para a história. Gorbachev afirma que cada país do bloco de leste pode seguir o seu próprio caminho, dando alento às respetivas oposições. Depois do triunfo esmagador do Solidariedade nas primeiras eleições livres na Polónia, são marcadas eleições democráticas na Hungria para o início do ano seguinte. Contudo, o acontecimento marcante ocorre na noite de 9 de novembro, quando, após semanas de manifestações antigovernamentais na RDA, o muro de Berlim cai, marcando o fim simbólico da “guerra fria” e o triunfo do Ocidente na mesma. Seguem-se a “revolução de veludo” na Checoslováquia, a transição pactuada na Bulgária e, na Roménia, uma revolução violenta, que termina com a execução sumária do ditador Ceaucescu e sua mulher. No ano seguinte, em outubro, tem lugar a reunificação da Alemanha, com a ex-RDA a ser integrada na RFA. Entretanto, na Albânia, um conjunto de manifestações antigovernamentais leva ao início de um processo de transição democrática, que se concretizará no ano seguinte. Em 1991, os estados bálticos declaram a restauração da sua independência, separando-se da URSS e adotam o multipartidarismo, apesar da oposição soviética. Após uma tentativa falhada de golpe de estado, levada a cabo pelo setor ortodoxo do partido comunista, Gorbachev fica fragilizado e várias repúblicas soviéticas proclamam a independência. Na Rússia, o PC perde o monopólio do poder. No dia de Natal desse ano, a URSS deixa de existir e os 12 novos estados resultantes da sua dissolução formam a Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Na Jugoslávia, as tensões são grandes e as duas repúblicas mais ocidentais, Eslovénia e Croácia, tornam-se independentes, apesar da reação do exército jugoslavo. Com o apoio alemão, são reconhecidas pela CE. No final do ano, a Macedónia acede, igualmente, à independência, o mesmo sucedendo com a Bósnia, em 1992. Entretanto, no início desse ano, é assinado o Tratado de Maastricht, que transforma as comunidades na União Europeia e estipula a criação de uma união económica e monetária entre os países membros, à exceção do Reino Unido e da Dinamarca.

Mas a vaga democratizadora não se fica pela Europa. No Chile, o ditador Pinochet convoca um referendo para se legitimar, mas é derrotado e obrigado a deixar o poder, dando início à transição democrática chilena. Em breve, à exceção de Cuba, todos os países do continente americano terão governos democraticamente eleitos. Em África, destaque para a independência da Namíbia, até aí sob domínio sul-africano, em 1990. Na própria África do Sul, são dados os primeiros passos para o fim do “apartheid”, com a libertação de Nelson Mandela e a legalização do ANC. Em muitos outros países africanos, ocorrem mesas nacionais entre governo e oposição, levando ao fim dos regimes de partido único e à consagração do multipartidarismo. Em alguns deles, as eleições subsequentes levam as forças oposicionistas ao poder. Na Ásia, depois da Coreia do Sul e do Paquistão, também Mongólia, Taiwan e, de forma mais frágil, Bangladesh e Camboja entram no caminho da democratização. Já o Iémen, até aí dividido entre um Norte conservador e um Sul pró-soviético, se reunifica, sob a égide do primeiro.

Porém, nem tudo foram “rosas”, mostrando que o futuro não seria tão auspicioso como se pensou na época. Na China, uma revolta estudantil é duramente reprimida, em 1989, levando ao chamado “massacre de Tianamen”, após intervenção militar contra os estudantes, consagrando a manutenção no poder do PC chinês, que acelera a modernização capitalista do país. Tailândia e Indonésia são outros países onde os anseios de democratização são ferozmente reprimidos. Por seu turno, na Birmânia e na Argélia, a oposição (democrática, no primeiro caso, e islamista, no seguinte) vence as eleições, mas os seus resultados são revertidos por sangrentos golpes militares. Na ex-Jugoslávia, as minorias sérvias da Croácia e da Bósnia rejeitam a secessão, iniciando-se, então, duas sangrentas guerras civis. Na ex-URSS, na região do Cáucaso, Arménia e Azerbaijão lutam pela posse do território do Alto Karabakh.

Entretanto, após o ditador do Iraque, Saddam Hussein, invadir e anexar o Kuwait, em 1990, ocorre, com mandato da ONU, uma intervenção de uma coligação internacional, liderada pelos EUA, que expulsa os iraquianos e devolve a independência ao pequeno estado, naquela que ficou conhecida como a guerra do Golfo. Este episódio mostrou, de forma clara, que, do ponto de vista internacional, os EUA eram, então, a única superpotência, vivendo o que se convencionou chamar de “momento unipolar”. Com esse domínio, estavam criadas as condições para a extensão a todo o mundo do sistema capitalista, sob a forma do neoliberalismo.

No entanto, o ambiente internacional era de otimismo e, mesmo, de alguma euforia e isso foi visível nos Jogos Olímpicos de 1992, realizados em Barcelona, que constituíram uma verdadeira festa, expressa no hino “Unidos para sempre”. Não houve boicotes e a África do Sul foi readmitida no movimento olímpico. No final da prova de atletismo dos 10.000 metros femininos, a nova campeã olímpica, a etíope Derartu Tulu, e a vice-campeã, a sul-africana branca Elena Mayer, deram a volta de honra de mãos dadas. Antes, o COI havia tomado a decisão histórica de admitir atletas profissionais nas olimpíadas, acabando com o amadorismo que vigorava na Carta Olímpica desde os seus primórdios. Na realidade, pôs termo à hipocrisia vigente, em que alguns países (em especial, do bloco soviético) apresentavam como amadores atletas que eram profissionais encapotados, tendo empregos meramente nominais, quando não fictícios. A partir daí, a ideia foi ter os melhores a competir nos Jogos, algo que apenas o futebol e, por razões diferentes, o boxe e a luta não consagraram. Um dos seus efeitos foi o aparecimento de uma equipa de basquetebol dos EUA constituída pelas principais “estrelas” da NBA, crismada de “dream team”, que ofereceu grandes espetáculos e venceu todos os jogos com vantagens esmagadoras. Com exceção dos estados bálticos, os 12 países da CEI apresentaram-se como equipa unificada, que liderou o quadro de medalhas, à frente dos EUA, da Alemanha e da China. Até aí, a Espanha, que tinha um palmarés bastante pobre (até ao fim do franquismo, em 1977, tinha apenas uma medalha de ouro, conquistada em 1928, ainda durante a monarquia). Depois, conseguira uma em cada um dos últimos três Jogos. Porém, seguindo o exemplo sul-coreano, investiu a sério na alta competição e foi compensada, com 13 títulos olímpicos num total de 22 medalhas conquistadas.

Em Portugal, vivia-se o período cavaquista. Cavaco Silva era um líder provinciano e que recriara, no regime democrático, o mito salazarista do austero professor de finanças, vindo das “berças”, que iria “pôr o país na ordem”, tanto ao nível político como económico e financeiro. Apesar das suas “vistas curtas” e rodeado, salvo raras e honrosas exceções, por uma panóplia de arrivistas, em geral medíocres, teve a sorte de beneficiar do afluxo de capitais decorrentes da adesão à CEE. Infelizmente, o seu aproveitamento não foi o melhor. Embora a modernização da nossa péssima rede viária de então fosse importante, a verdade é que grande parte dos fundos estruturais serviram para encher o país de autoestradas em lugar de apoiar a modernização dos setores mais afetados pela concorrência acrescida dos nossos parceiros europeus, como a agricultura, as pescas e algumas pequenas indústrias. Isto não falando já na qualificação da força de trabalho, para a qual havia dinheiros europeus, muitos dos quais “torrados” em formações de interesse duvidoso, mas que “encheram os bolsos” de muita gente. Ao mesmo tempo, com a cumplicidade do PS de Vítor Constâncio, a revisão constitucional de 1989 abre caminho às privatizações, à saúde privada, ao fim da reforma agrária e à redução dos direitos dos trabalhadores. Contudo, o crescimento económico permitiu a Cavaco oferecer generosos aumentos de salários e pensões em 1991, ano de eleições legislativas, o que lhe permitiu a conquista de nova maioria absoluta.

No desporto, há a adoção de medidas que, sob a capa do “livre associativismo”, tendem a desresponsabilizar o Estado, como se os patrocinadores privados fossem suficientes para sustentar desportos com pouca visibilidade entre o público. E continua a não haver uma aposta consistente no desporto escolar. Acresce, ainda, a subida dos preços de utilização das infraestruturas desportivas estatais, como os pavilhões escolares, que acabam por asfixiar muitas pequenas coletividades. Contudo, a conquista dos títulos mundiais de futebol júnior em 1989 (em Riade) e em 1991 (em Lisboa) causa grande deslumbramento nos governantes de então, chegando um deles a falar, pateticamente, no “novo homem português”.

Assim, Portugal envia a Barcelona aquela que foi, então, a sua maior delegação de sempre, com 102 atletas. O governo sublinha o feito e pensa que os portugueses virão carregados de medalhas e diplomas. Na verdade, desde o início que tudo correu mal, desde a ciclista que foi atropelada quando treinava aos problemas logísticos experimentados por alguns atletas e aos incidentes entre fundistas e velocistas, entre os que iam para competir a sério e aqueles a quem estar nos Jogos já era a sua medalha, tudo foi um nunca acabar de “trapalhadas” e confusões, que degeneraram numa enorme série de frustrações. Até no hóquei em patins, que fez parte do programa como modalidade de exibição, Portugal não foi além do 4º lugar. No final, fomos o único país europeu com mais de um milhão de habitantes que saiu dos Jogos sem uma única medalha. Mau de mais, mas, também, o reflexo de uma realidade que estava escondida pelos êxitos do atletismo de fundo e meio-fundo.

As esperanças de Atlanta

Terminados os Jogos, o otimismo que resultara das transformações dos anos anteriores rapidamente se começa a desvanecer. Na ex-Jugoslávia, as guerras da Croácia, entre o governo de Zabreb e separatistas sérvios, e da Bósnia, entre as várais fações dos nacionalismos étnicos (bósnios muçulmanos, sérvios e croatas) rapidamente escalam. Esta última atinge níveis de barbárie considerados impensáveis, com massacres de parte a parte, com triste destaque para Sbrenica, onde o exército sérvio bósnio assassinou, “a sangue frio”, cerca de 8000 muçulmanos. Estas apenas terminarão em 1995, a primeira com a “limpeza étnica” dos sérvios da Croácia e a segunda com o país transformado, na prática, num protetorado internacional, dividido por linhas étnicas e com frágeis instituições federais. O horror é ainda maior no Ruanda, quando, após o assassínio do presidente eleito, elementos extremistas da etnia hútu, a que pertencia o líder assassinado, desencadeiam uma verdadeira caça à outra etnia do país, a tutsi, num genocídio que provocou cerca de um milhão de mortos e só terminou após a tomada do poder por rebeldes tutsis. Em ambos os casos, foi chocante a impotência dos “capacetes azuis” da ONU para travar os massacres. Apesar do seu “momento unipolar”, os EUA, confrontam-se com os limites do seu poder. Em 1993, iniciam uma intervenção militar pretensamente de caráter humanitário na Somália, entregue aos “senhores da guerra”, após a queda da ditadura, dois anos antes, mas esta salda-se por um completo fracasso, obrigando as tropas estadunidenses a uma retirada humilhante. De positivo, a celebração, nesse ano, dos acordos de Oslo entre israelitas e palestinianos, que levam à criação de uma Autoridade Palestiniana semiautónoma, vista então como o embrião do futuro estado da Palestina, a forma pacífica como decorreu a separação entre a República Checa e a Eslováquia, que pôs fim à federação checoslovaca, e a realização das primeiras eleições livres na África do Sul, com o triunfo do ANC e a eleição de Nelson Mandela como presidente do agora crismado “país do arco-íris”, selando o fim definitivo do regime do “apartheid”.

Entretanto, após vários anos de negociações, dá-se a institucionalização da globalização neoliberal, com a criação do seu órgão regulador multilateral, a Organização Mundial do Comércio (OMC). São liberalizadas as trocas comerciais, bem como os movimentos de capitais a nível internacional, o que dará grande vantagem ao capital sobre o trabalho, que vê a sua situação piorar em praticamente todo o mundo. Com este reforço do capitalismo, não se estranha que os Jogos Olímpicos de 1996, que marcam o centenário das olimpíadas da Era Moderna, tenham sido entregues a Atlanta, cidade onde se localiza a sede da Coca-Cola, em lugar de Atenas, que pretendia ter a edição comemorativa dessa efeméride. Mas, naquele novo contexto, o dinheiro levou a melhor sobre a história.

Para além da sua excessiva mercantilização, a qualidade da organização deixou muito a desejar, sendo vários os problemas logísticos a todos os níveis. Os Jogos foram também alvo de um atentado terrorista, da autoria de um membro de uma milícia da extrema-direita estadunidense, num parque situado junto das instalações olímpicas, que causou dois mortos e mais de uma centena de feridos. No final, os EUA foram a nação mais medalhada, deixando a grande distância Rússia, Alemanha, China e França, por esta ordem.

Em Portugal, o estertor do cavaquismo é penoso, com Cavaco a mostrar o seu lado autoritário e salazarento, no que é contrariado pelo então presidente Mário Soares. Percebendo que o povo estava a ficar cansado do seu estilo de governação e se arriscava a perder as legislativas de 1995 não foi a jogo, deixando a incumbência ao seu nº 2, Fernando Nogueira. Assim, António Guterres, então líder do PS, vence as eleições e, embora sem maioria absoluta, forma um governo minoritário. Pouco antes dos Jogos, é oficialmente criada a CPLP, organização que engloba Portugal, Brasil e países africanos de expressão portuguesa.

No desporto, logo após o rotundo fracasso de Barcelona, que suscitou um invulgar debate nacional sobre a questão, o poder político acordou para a política desportiva. No aumento dos apoios à alta competição, figurava a concessão de verbas às diferentes federações para contratar técnicos estrangeiros de nomeada. Uma medida que muitos criticaram, mas que se revelaria essencial para o progresso de algumas modalidades, de que o judo e a canoagem são os melhores exemplos. É, ainda, criado o estatuto de atleta de alta competição, de forma a que estes possam dedicar mais tempo à prática desportiva de alto rendimento.

A nossa delegação aos Jogos de Atlanta foi bastante numerosa, com os 107 atletas a superar o número dos presentes em Barcelona, em grande parte fruto da qualificação da seleção masculina de futebol. Mais uma vez, era nas corridas de média e longa distância do atletismo que se encontravam as nossas principais esperanças de obter medalhas. Nos mundiais do ano anterior, em Gotemburgo, Portugal havia obtido duas medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze, todas no setor feminino. No final, apenas Fernanda Ribeiro, então campeã europeia e mundial dos 10000 metros e vice-campeã do mundo dos 5000, obteve a medalha de ouro, após uma corrida épica na dupla légua, coroando o terceiro título olímpico do nosso país. No setor masculino, os atletas africanos já dominavam por completo o fundo e grande parte do meio-fundo, tornando muito difícil aos europeus obter aí resultados de relevo. Uma surpresa agradável veio da vela, onde os velejadores Hugo Rocha e Nuno Barreto obtiveram a medalha de bronze na classe 470. A isso, há a juntar mais sete diplomas, mostrando uma melhoria face a participações anteriores, entre os quais os correspondentes aos 4ºs lugares da seleção olímpica de futebol e do par Miguel Maia/João Brenha no voleibol de praia.

A relativa deceção de Sidney

Ainda nesse ano, a guerra civil afegã termina com o triunfo dos talibãs, que entram em Cabul e estabelecem um regime fundamentalista islâmico radical. Entretanto, a Argélia mantem-se “a ferro e fogo”, com atentados quase diários, levados a efeitos pelos islamitas, em guerra contra o poder resultante do golpe militar que levou à anulação dos resultados eleitorais que lhes davam a vitória, o mesmo sucedendo no Sri Lanka, no longo e sangrento conflito entre o governo central e os rebeldes tâmil. No Kosovo, província sérvia habitada por uma maioria albanesa, a repressão do governo de Belgrado origina uma resposta destes últimos, que formam uma guerrilha e iniciam uma luta armada particularmente violenta. Em 1999, uma intervenção militar da NATO em favor dos kosovares, à revelia da ONU, leva à rendição das forças jugoslavas. Estas retiram-se do território, que se torna, então, num protetorado internacional. Nesse mesmo ano, ocorre o início do alargamento da NATO a leste, com a admissão de três países do antigo bloco soviético: Polónia, República Checa e Hungria. Em meados de 2000, Vladimir Putin assume a presidência da Rússia.

Boas notícias vêm da Irlanda do Norte, com a assinatura, em 1998, dos acordos de Sexta-feira Santa entre protestantes e católicos, estipulando a partilha do poder no território, e da Indonésia, onde, no mesmo ano, os protestos populares levam à queda do ditador Suharto, permitindo a transição democrática no país e o processo que levará ao fim da ocupação de Timor-Leste. No ano seguinte, a 30 de agosto, os timorenses votam massivamente a favor da independência. Contudo, os indonésios não aceitam o resultado e as milícias colaboracionistas cometem inúmeros atos de violência e aterrorizam a população. A situação só acalma com a chegada de uma força militar da ONU, não sem que antes os militares indonésios procedam à destruição de inúmeras infraestruturas, numa política literal de terra queimada.

No plano económico, 1997 é o ano da “crise asiática”, que alastrará, posteriormente, à Rússia. Um indício de que o neoliberalismo aceleraria as crises que ciclicamente assolam o sistema capitalista. Entretanto, no primeiro dia de 1999, entra oficialmente em vigor o euro, então a moeda única de 11 países da UE, embora apenas como unidade bancária, ainda sem existência física.

A cidade australiana de Sidney acolheu os últimos Jogos Olímpicos do milénio, no ano 2000. Ao contrário dos anteriores, a organização foi excelente e unanimemente elogiada, contribuindo, igualmente, para o ambiente de festa que se viveu durante a sua realização. Apenas o Afeganistão “talibã” não participou, por ter sido suspenso do movimento olímpico devido à opressão exercida sobre as mulheres, que, obviamente, também as impedia de praticar desporto. Os atletas timorenses competiram individualmente, sob a bandeira olímpica. Realce para o triunfo de Cathy Freeman, atleta australiana aborígene, nos 400 metros, que levou a multidão ao rubro e festejou, simultaneamente, com a bandeira da Austrália e a do seu povo, nativo do continente. Os EUA foram, mais uma vez, os mais medalhados, mas a Rússia ficou bastante próxima. Seguiram-se a China e a anfitriã Austrália, à frente das maiores potências desportivas europeias (Alemanha, França e Itália). Tal como haviam feito os sul-coreanos e os espanhóis, os australianos prepararam bastante bem a sua participação olímpica, algo bastante facilitado pela enorme cultura desportiva do país, já de si um habitual colecionador de medalhas.

Portugal viveu, nesse final do milénio, um período que muitos recordam como os “anos dourados”. Para os que esperavam grandes mudanças, o guterrismo foi uma desilusão, já que aquelas ocorreram, essencialmente, ao nível do estilo de governação, onde o diálogo substituiu o autoritarismo cavaquista. E, embora os seus governos se mostrassem, em geral, mais competentes que os de Cavaco, também Guterres se rodeou de alguns arrivistas e oportunistas, que iriam ter, infelizmente, grande influência, não só à época, mas também no futuro. Do ponto de vista económico, pouco se alterou, com os velhos grupos privados capitalistas a recuperar as posições perdidas durante a Revolução e novos a serem criados e a prosperarem. Isto apesar de ter havido, reconhecidamente, mais preocupações sociais, expressas na criação do rendimento mínimo garantido, e maiores apostas na educação, na ciência e na cultura. E o afluxo de capitais, provenientes dos fundos europeus e do investimento estrangeiro, continuava a garantir um bom crescimento económico e o aumento da prosperidade da maioria da população, gerando uma verdadeira euforia consumista. A organização, em Lisboa, da Expo 98 constituiu um êxito, quer na sua realização, dando ao mundo a ideia de um país moderno, em contraponto à imagem passadista ainda muito expandida no exterior, quer na operação de requalificação urbana, que transformou uma zona industrial deprimida numa aprazível área de lazer, comércio e serviços. Como pontos negativos, o reforço da ideologia colonial dos “descobrimentos” e a especulação imobiliária que gerou naquele espaço. Como “cereja no bolo”, nesse ano, José Saramago vence o Nobel da Literatura. Essa maior autoestima nacional tem o seu ponto alto nas manifestações de solidariedade com Timor-Leste e em protesto contra a orgia de violência levada a efeito pelas tropas indonésias após o referendo em que os timorenses votaram massivamente a favor da independência.

No desporto, as medidas anunciadas pelo anterior governo vão sendo postas em prática, inclusive com algum reforço de verbas e vários técnicos estrangeiros de nomeada são contratados por algumas federações. Contudo, a nossa participação nos Jogos de Sidney fica aquém do esperado. No atletismo, Fernanda Ribeiro consegue, ainda, uma medalha de bronze nos 10.000 metros, mas é a única e será a última do fundo português, num setor que é cada vez mais dominado por africanos/as. Porém, no judo, que contratara um diretor técnico nacional cubano, Nuno Delgado arrebata o outro bronze da comitiva, dando esperança de futuros êxitos na modalidade. Já no voleibol de praia, a dupla Maia e Brenha volta a repetir o 4º lugar, desta vez ainda mais frustrante. Será um dos seis diplomas obtidos, três dos quais na vela, que confirmou o bom desempenho de Atlanta. Ao invés, atletismo, ciclismo e natação têm um desempenho bastante fraco, gerando, no caso desta última, recriminação de alguns atletas face à respetiva federação.

Progressos notórios, mas insuficientes

O último quartel do século XX foi pródigo em mudanças de vária ordem, tanto a nível nacional como internacional. Não sendo o desporto um fenómeno isolado do resto da sociedade, elas refletiram-se, igualmente, a nível desportivo. O assumir do profissionalismo, a alteração da relação de forças provocada pelo fim da “guerra fria”, a crescente atenção ao flagelo do “doping”, bem como a mercantilização do desporto consequente ao triunfo do neoliberalismo são algumas alterações mais significativas ocorridas no movimento olímpico.

Em Portugal, os progressos foram notáveis, tanto a nível económico, social e infraestrutural como das mentalidades. Um exemplo é a queda rapidíssima da taxa de mortalidade infantil, fruto da criação do SNS e do investimento na saúde materno-infantil: da cauda da Europa passámos para o topo nesse particular. Ao mesmo tempo, as novas gerações começam a ter uma visão menos provinciana e mais aberta ao mundo. Claro que muitos problemas persistiam, quer nas grandes desigualdades sociais e nos índices de pobreza, quer nos níveis de literacia, já que os progressos na educação necessitam de maior tempo de consolidação que os da saúde.

Esses avanços refletem-se, igualmente, no desporto. A criação do Desporto Escolar e o aumento da literacia das novas gerações leva a um aumento da prática desportiva. Contudo, este ainda é manifestamente insuficiente, estando o país bastante longe da desejada massificação. Ao mesmo tempo, as pequenas coletividades continuam a defrontar-se com dificuldades de vária ordem. E deu-se uma crescente futebolização da cultura desportiva, em especial após o advento das televisões privadas, que promovem programas em que adeptos dos três ditos “grandes” discutem, até à exaustão, o penalti, o fora-de-jogo ou o cartão. Como aspeto positivo, o aumento da construção de infraestruturas desportivas de qualidade (relvados, pavilhões gimnodesportivos, piscinas e pistas de tartan, entre outras). Apesar de todos esses progressos, os resultados da alta competição ainda estão longe do desejável, com exceção do setor do fundo e meio-fundo do atletismo, onde se criou uma escola e se conseguiram numerosos êxitos. As medidas decididas no rescaldo do fracasso de Barcelona só começarão a produzir efeitos no início do milénio seguinte. Mas esse será o tema do próximo e último artigo.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Aderente do Bloco de Esquerda em Coimbra
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