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“Yol”: 35 anos depois, a censura continua

Filme turco histórico que mostra a aniquilação do povo curdo é projetado este sábado no DocLisboa, na sua versão completa e restaurada. Embaixada da Turquia tentou pressionar o festival para alterar a sinopse do filme e obrigou a que uma versão censurada fosse projetada em Cannes.
"Yol" foi o primeiro filme turco distribuído em mais de 50 países.

“Yol”, é um filme turco que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1982 (ex-aequo com o filme “Missing”, de Costa-Gravas), e que o DocLisboa projeta, na sua versão longa, que foi completada mais de trinta anos depois. O filme, proibido na Turquia por 35 anos e uma das razões pela qual a Embaixada do país tentou pressionar a organização do Festival DocLisboa (a outra é o filme “Armenia, Cradle of Humanity”), mostra a Turquia nos anos imediatamente seguintes ao golpe fascista militar de 12 de setembro de 1980, através das histórias de 5 prisioneiros a quem é dada a autorização de irem a casa, por uma semana. 

O filme, com planos lindíssimos, sobretudo as caminhadas na neve, representa a violência da sociedade e do regime turcos através das várias relações das personagens, em família, em sociedade, com as mulheres, e, principalmente, mostra a aniquilação do povo curdo pela Turquia. Apesar de tal ser proibido, no filme os atores falam em curdo, tocam músicas e a cultura curda é representada, e comete até a ousadia de descrever a localização de algumas aldeias como sendo no Curdistão, e não na Turquia.

A história por trás da estória

Atrás da tela, própria história do filme também é um espelho do seu país. Yilmaz Güney, realizador, guionista, escritor e ator curdo esteve preso, por razões políticas, de 1960 a 1962 e de 1972 a 1974. No ano seguinte é acusado de assassinar, depois de uma luta quando estava bêbado, um Procurador Público, e é condenado a 19 anos de trabalhos forçados na prisão. Durante os anos que passou preso, continuou a trabalhar, escrevendo guiões e, em conjunto com assistentes próximos, até a realizar. 

Foi assim que surgiu “Yol” (que significa “O Caminho”, em turco, mas que na versão francesa foi traduzido por “La Permission”, “A Autorização”), Güney tinha um guião com anotações muito precisas e detalhadas, que transmitia ao seu assistente de longa data, Şerif Gören, que fez as filmagens todas. Reza a lenda que Güney ia acompanhando as filmagens vendo os negativos na prisão, e até que chegaram a projetar partes do filme na parede da cela. 

Quando a rodagem estava terminada, em 1981, Güney recebeu, por ironia, uma autorização para passar uma semana em casa. Fugiu do país, levando consigo todo o material filmado. Foi na Suíça e, depois, na França, onde, com Şerif Gören, editou o filme num muito curto espaço de tempo, para o poder candidatar ao Festival de Cannes. O júri aceitou o filme, mas obrigou a que o encurtassem. Os dois não tiveram tempo para fazer uma remontagem total do filme, pelo que optaram por retirar uma das cinco personagens da história, e entregaram a versão para concurso na véspera da sua projeção. Uma versão inacabada, em que a personagem excluída por vezes aparecia, qual fantasma do filme que não tinha chegado a ser, porque não tiveram tempo de trabalhar o filme na sua solução de quarteto. 

Apesar disso, Güney vence a Palma de Ouro e o filme foi um sucesso, sendo o primeiro filme turco a ser distribuído em mais de 50 países. No entanto, o seu realizador considerava que tinha ficado interminado, e promete acabá-lo, mas em 1984 morre, vítima de um cancro, sem chegar a cumprir a promessa. 

2017: “Yol” regressa a Cannes sob polémica

Mais de trinta anos depois de ter vencido a Palma de Ouro, “Yol” voltou ao festival, na sua versão completa (e não é por acaso que recebe o título “The Full Version” e não “Director’s Cut”). Com a ajuda do produtor original do filme, com base no guião anotado de Güney e usando material que estava na Cinemateca de Lausanne, o filme é remontado para a versão internacional, que é mostrada no Doc. 

No entanto, em Cannes, causando bastante controvérsia, o filme é projetado no stand da Turquia e é feita uma nova versão censurada, contra os desejos do seu realizador, sem os diálogos politicamente controversos e sem a referência ao Curdistão nas legendas das aldeias, que foi distribuída comercialmente na Turquia. Diz Yilmaz Güney no trailer de “Yol”: “As pessoas neste filme são turcas, mas podem ser encontradas onde quer que haja uma luta contra a opressão. São todos prisioneiros. Alguns estão presos atrás de grades, muitos são prisioneiros das suas mentes, mas todos são prisioneiros do Estado”. 35 anos depois, "Yol" continua a ser perseguido e merece ser vista na sua integridade.

O filme é projetado novamente a 27 de Outubro, às 14h, no Cinema São Jorge.

Joana Campos e Tiago Ivo Cruz acompanham a 16ª edição do DocLisboa.

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