O facto pode parecer banal mas por toda a cobertura mediática que a prisão a céu aberto de 11 por 52 quilómetros tem, ver chuva a cair em Gaza não deixa de ser estranhamente surpreendente. O efeito da “Samouni Road”, de Stefano Savona, é precisamente esse: devolver o olhar humano à violência que é Gaza.
Amal é uma criança que perdeu o pai e 28 outros familiares num ataque que a deixou com vários fragmentos de bomba no cérebro. Apesar da profundidade, sempre que a mãe lhe escova os cabelos ela grita de dor e pede à mãe que lhe retire os fragmentos que sente à flor da pele. É com ela que a câmara nos apresenta a vila onde a família Samouni vive e trabalha os campos. “Aqui estava o sicómoro grande”, diz desenhando um círculo na terra de uma paisagem devastada onde, um ano antes, existia a rua central, com a árvore grande e a sua própria casa.
Os parentes desaparecidos; as casas de tijolo e cimento por acabar; as mães viúvas com várias crianças de outras mães mortas pelas bombas; todos a viver na única divisão que foi possível reconstruir com os 5 mil dólares de compensação entregues pelas Nações Unidas (um dólar por tijolo, menos as dívidas que o marido deixou, desempregado há anos devido ao bloqueio israelita). A vida, sob ameaça da morte futura e da morte passada que, permanece nas relíquias possíveis de recuperar nos escombros de metal e cimento retorcido pelos bulldozers israelitas que arrasaram a vila em 2009 como parte da operação “Cast Lead” [chumbo fundido].
O “massacre de Zeitoun” é bem conhecido. O bombardeamento de civis e a morte de 29 pessoas de uma única família ganhou atenção dos media internacionais e obrigou à abertura de um inquérito dentro das forças armadas israelitas. Foi tratado como a exceção, apesar de ser a regra.
O documentário está bem sustentado em inquéritos oficiais, incluindo da Cruz Vermelha Internacional. Mas, sobretudo, está organizado em torno da memória de Amal que é desvelada como um mapa humano de episódios de criança – as brincadeiras com os irmãos e primos onde, sendo rapariga, não pode estar ao pé dos chocolates, que estão à guarda dos rapazes –, episódios que giram em torno de analepses sobre a entrada das forças israelitas na vila e a morte traumática do pai e do irmão à frente de Amal, recorrendo à animação de uma beleza ímpar, desenhada por Simone Massi, a preto e branco e textura a carvão.
A obra de Stefano Savona é um marco na forma como Gaza é percebida. Como se é criança em Gaza. Como se é mulher e homem em Gaza. Como se faz política em Gaza. Como funciona uma família em Gaza. Como se cultiva em Gaza. E como se sobrevive.
“Samouni Road” volta ao DocLisboa no dia 28 de outubro, Sala Manoel de Oliveira, Cinema São Jorge.
Joana Campos e Tiago Ivo Cruz acompanham a 16ª edição do DocLisboa.