Música

Cantos da Revolução: ouçam Paulo Tó!

28 de abril 2026 - 16:05

Mudado o país de quem agora as canta, mudada a conjuntura em que foram criadas, estas canções retornam. Renascem com o Paulo Tó e com a fusão que ele constrói, e talvez sobretudo com os inusitados ouvintes que, por causa dele, elas vão encontrar.

porJosé Soeiro

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capa do disco

Este novo disco de Paulo Tó é uma emoção e um acontecimento!

Para quem, deste lado do oceano, conhece uma boa parte destas canções, desengane-se: nunca as ouviu. Nunca assim, reemergindo cinquenta anos depois (nalguns casos mais), fundidas com a cultura musical brasileira - e com força nova, arranjo mudado, outra musicalidade. Para alguns, será virgem descoberta. Mas mesmo quem, em Portugal, se habituou a saber do Fausto, do Zé Mário, do Sérgio Godinho ou do Zeca Afonso, não conseguirá escapar à maravilha quando escutar algumas das pérolas que o Paulo Tó arrancou, vigorosamente, ao nosso esquecimento coletivo. É um espanto ouvi-las brotar, meio século depois, como se a voz do Paulo Tó tivesse chegado para sacudir o esmorecimento e fazer a turba romper outra vez.

O novo disco do Paulo Tó parece ter vindo contrariar a profecia da epígrafe do Brecht: “Nos tempos sombrios/ Haverá também canções?/ Sim, haverá também canções./ Sobre os tempos sombrios.” Em tempos sombrios, como os nossos, estas canções nem são apenas do seu tempo nem são prisioneiras do nosso. Transcendem o tempo em que nasceram porque ao ouvi-las as suas aspirações são também nossas, de agora. Estes “Cantos da Revolução” são e não são deste tempo que vivemos, porque o quebram. Mudado o país de quem agora as canta, mudada a conjuntura em que foram criadas, estas canções retornam. Renascem com o Paulo Tó e com a fusão que ele constrói, e talvez sobretudo com os inusitados ouvintes que, por causa dele, elas vão encontrar.

E não são umas quaisquer canções, as que foram escolhidas para compor este disco. São as nossas canções de resistência e de revolução.

Poderíamos dizer, sem dúvida, que elas dão a ouvir um certo tempo histórico. Desde logo, o da ditadura em que algumas nasceram e que denunciaram com as metáforas possíveis para fugir à censura. Como “Os Vampiros”, de 1963, “verdadeiro meteoro caído com estrondo nas águas chocas” (a expressão é do Sérgio Godinho) do regime fascista e da sua paisagem musical.

Mas muitas destas músicas são “Cantos da Revolução” porque a sua existência é revolucionária, antes mesmo da revolução política do 25 de abril. De facto, mais do que “dar a ouvir” o seu tempo histórico, algumas destas canções interromperam-no, mudando para sempre a música portuguesa. Em 1971, três anos antes do fim da ditadura, três discos inesquecíveis, do Sérgio Godinho, do Zé Mário e do Zeca, foram gravados em Paris. É deles que vêm algumas algumas das mais belas canções que Paulo Tó escolheu para este álbum: “Maio, maduro Maio” (do Zeca), “Que Força É Essa” (do Sérgio), “Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades” (do Zé Mário, que junta aos versos de Camões a sua própria estrofe de apelo à ação). Três músicas compostas e editadas durante o fascismo, mas que são já de um outro tempo, de um tempo por vir, como se estivessem a antecipá-lo. Quer pelas suas palavras, que parecem adivinhar o que virá, quer pela sua forma musical, pelas suas “encenações sonoras” que inauguram já uma outra época sensível, distante da balada e do fado. Nesse ano de 1971, conta Luís Freitas Branco, na apresentação em Lisboa dos álbuns de Zé Mário Branco e de Sérgio Godinho – “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” e “Os Sobreviventes”, que abre com “Que Força é Essa” – havia duas cadeiras vazias no palco, representando simbolicamente o exílio dos dois cantores. É possível imaginar presença mais ruidosa que essa?

Noutros casos, as canções escolhidas por Paulo Tó para este disco só poderiam ser filhas do PREC, o Processo Revolucionário Em Curso, cujos cinquenta anos agora se celebram. São músicas nascidas no meio dessa alucinante aceleração do tempo, que participam do processo, são testemunho e parte, são “alimento e companhia” de um momento em que tudo era possível porque tudo tinha de ser inventado perante a estrondosa queda do velho mundo. São empolgantes “Cantos da Revolução”, claro, as músicas do Fausto ou do Sérgio Godinho, que falam de mais-valia, das contas a ajustar com a exploração, da raiva e da força do trabalho, da urgência de varrer o capital. Como ouvir essas músicas agora que a história é outra? Grande comoção escutá-las assim, no modo como o Paulo Tó as traz para o nosso tempo e, dando-lhes outro ritmo, faz com que a sua vibração ressoe nas nossas aflições e esperanças, descolonizando até o nosso imaginário, ampliando-o perante a estranheza de um projeto que dizia então o seu nome com palavras certeiras. Nós já fomos capazes de sonhar e de fazer isto tudo, não já?

“Cantos da Revolução”, ainda? - perguntamo-nos talvez quando o álbum chega ao fim. Sê-lo-ão, mesmo quando o furacão amainou (“As Horas Extraordinárias é de 1983) e quando o tempo é de torpor? “Cantos da Revolução”, ainda, sim, porque há quem não tenha fugido nem fique à espera (a música do Zé Mário que encerra este disco é de 1990). Afinal, ao final, parece que todas estas músicas, da primeira à última, são ao mesmo tempo intempestivas e urgentes num tempo como o nosso. Obrigado, Paulo Tó, por este pequeno tesouro. Agora é connosco: ouvir, partilhar e “espalhar a notícia”!

José Soeiro
Sobre o/a autor(a)

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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