O ano é 2022 e estou rodeada de amigas e amigos em um bar na baixa do Porto à espera do jogo entre Brasil e Sérvia na Copa do Mundo. Em meio ao frio de fins de novembro no hemisfério norte – época atípica para a realização do maior evento futebolístico do mundo, temporalmente alterado precisamente por questões climáticas – buscamos adornar-nos com símbolos nacionais de modo a demonstrar apoio à equipa brasileira, mesmo que utilizando 3 camadas de roupa por baixo da camisola oficial da seleção. No entanto, ao observar o meu entorno, o amarelo habitual da famosa “camisa canarinho” não salta aos olhos tão facilmente quanto o esperado.
A última copa do mundo havia sido realizada entre junho e julho de 2018 na Rússia, meses antes da eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, em outubro daquele mesmo ano. Foi precisamente no contexto da grande festa do futebol mundial que a camisola amarela do Brasil fora utilizada transversalmente pela última vez sem estar oficialmente sequestrada por aqueles que se diziam “patriotas”. As tentativas de apreensão da “amarelinha” e a atribuição de sentidos próprios e excludentes pela extrema-direita já vinham ganhando espaço desde as eleições de 2014, quando da disputa entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), mas foi apenas em 2018, na corrida presidencial entre Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), que o fenômeno simbólico foi consolidado concretamente. Foi justamente no segundo turno desta eleição que tirei a amarelinha do armário.
Durante todos estes anos, entre os mais diversos indivíduos no espectro das esquerdas brasileiras, um misto de cautela e frustração pairava no ar quando da escolha de uma vestimenta específica: “Será que vão me confundir com um bolsonarista? ” Ou “queria poder usar minha camisa do Brasil, mas não posso”. Segundo Arjun Appadurai, os objetos não possuem sentidos rígidos, mas sim uma biografia própria que abre precedentes para as oscilações simbólicas. No caso da camisa amarela, insígnia expropriada do ambiente futebolístico e raptada por uma identidade política própria – expropriação esta cujo ápice ocorreu na tentativa de golpe do dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília -, ela passa a conter, ainda mais, o que Pierre Bourdieu chama de capital simbólico, mas reservado apenas à uma parte da sociedade, tornando-se elemento contestado e disputado.
A Copa do Mundo de 2022 teve início no mês seguinte à eleição de Lula da Silva e após um período de grandes tensões, batalhas retóricas, disputas memoriais e violência política que propiciava mais continuidades do que rupturas em uma ofensiva ideológica longe de ver a luz no fim do túnel. Nas longas filas que antecediam o momento ritualístico de votação nas salas eleitorais improvisadas na cidade do Porto naquele ano, o vermelho sobressaía-se entre as cores e a camisa amarela do Brasil concentrava-se em grupos específicos ao longo da rua. Já havia sido decretado implícita e explicitamente quem poderia fazer uso desta peça de roupa e o que ela representaria a nível axiológico. A vitória de Lula trouxe um sopro de esperança ansiosamente aguardado, mas a ferida dos anos de bolsonarismo, da negligência na gestão da COVID-19 e da radicalização da extrema-direita ainda estava aberta e longe de ser sanada.
Nos últimos quatro anos, esforços foram feitos por parte do governo visando a reconciliação nacional em um país marcado por polarização, buscando resgatar tanto a bandeira brasileira quanto a amarelinha e situá-las novamente enquanto símbolos de coesão e pertença. Essa tentativa explícita de quebra do monopólio alegórico pretende reposicionar os objetos simbólicos enquanto bens universais, reformulando-os com números específicos (como é o caso do 13, que representa o Partido dos Trabalhadores) ou associando imagens distintas a eles. Aos poucos, e sobretudo nos últimos dois anos, campanhas de marketing de marcas e empreendimentos privados passaram a atuar no mesmo sentido, recuperando o signo do “patriotismo” da extrema-direita – excludente, seletivo e ideologicamente perigoso – com a ajuda do boom do turismo recente no Brasil.
Um dos destinos turísticos que mais cresce a nível mundial, o maior país da América Latina experimenta, nesta conjuntura, um dos melhores momentos no que diz respeito ao turismo, atingindo recordes próprios e a marca de quase 9.5 milhões de turistas no ano de 2025. Junto disto e da reabertura do país feita por Lula desde 2023, um fenômeno sociocultural pode ter contribuído, ao menos brevemente, para retirar o estigma associado pela esquerda à camisola amarela: a onda da estética Brazilcore. Em outras palavras, virou “moda” desfilar com a camiseta ou com croppeds amarelos do Brasil, assim como usar havaianas e outros acessórios associados à estética brasileira. Não pretendo aqui cair na ingenuidade de pensar na complexidade de fluxos turísticos e as dinâmicas sociais oriundas, muito menos apontar este elemento como central nas mudanças internas que percebo.
Pretendo apenas trazer para a discussão o que acho ter sido uma espécie de despolitização superficial da crise estética interna causada pelo Outro estrangeiro. A banalização do símbolo disputado faz com que o ambiente se torne mais habitável para aqueles que já não se sentiam representados pelas cores da bandeira. A validação global auxilia nos processos de recuperação da autoestima nacional, do sentimento de pertença e da identificação de ideias progressistas com aspectos saudáveis de nacionalismo. A legitimidade patriótica por trás destas tensões retóricas passa, então, a ocupar outros espaços de disputa e apropriação, abrindo margens para releituras possíveis, de dentro ou de fora.
Muito recentemente, duas ocasiões chamaram minha atenção em momentos de interação social: dois amigos espanhóis que, ao verem minha camisola azul da seleção brasileira em casa, trazem à conversa a discussão sobre a disputa cromática e alegórica em torno da bandeira amarela, questionando se havia ocorrido uma reapropriação do símbolo nacional por parte da esquerda. Em outro contexto, em meio a um festival de música majoritariamente brasileira, um amigo português, ao ver o artista e toda sua banda fardados com a amarelinha no palco, comenta com emoção “vocês tomaram de volta a camisa do Brasil! ”. A um dia do início da 23ª edição do torneio, já vejo amigas e conhecidos perambulando com a camisa canarinho sem medo ou pudor, afinal, mesmo que a Copa do Mundo não seja nossa esse ano, a camisola será.
Angélica Vedana é investigadora de doutoramento em antropologia na Universidade NOVA de Lisboa. Integrada ao CRIA/ IN2PAST. O título do artigo é uma referência à canção “A taça do mundo é nossa” de autoria de Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô.
Referências:
Appadurai, A. (2008). A vida social das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva cultural. Tradução de Agatha Bacelar. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense.
Bourdieu, P. (1989). O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.