Agradeço o convite ao Dr. Mário Horta e à Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica. Saúdo os meus companheiros de mesa, bem como todas e todos presentes e participantes
Permitam-me uma breve explicação prévia. Como certamente saberão, não sou versado, muito menos especializado, nas matérias e nas abordagens que vos convocam a este Encontro da Associação Portuguesa de Psicanálise. Sou um historiador da época contemporânea e seguramente um cidadão cívica e politicamente empenhado relativamente aos inquietantes desafios do tempo presente. É a esse título que aqui estou, com a pretensão de emprestar um testemunho algo exterior ao vosso objeto central de estudo, mas que eventualmente o possa completar. Não sei falar sobre aquilo que não se vê na aparência física da mente, mas da realidade que seguramente condiciona e visibiliza a invisibilidade, talvez possa dizer alguma coisa.
Nesse sentido, começarei por dizer que não vale a pena dourar a pílula. Vivemos nos dias de hoje globalmente um tempo sombrio, percorrido por um halo de morte, de guerra, de agressão, carregado de presságios apocalípticos para o futuro da paz justa entre os povos, da democracia e da justiça social. Chamar-lhe-ei o tempo da necropolítica, da política da morte, tempo de ameaça de regressão civilizacional sem precedentes desde o fim da II Guerra Mundial. Vejo nele quatro características dominantes, entre outras.
Em primeiro lugar, o regresso impune da barbárie imperial e genocida; o império da lei do mais forte nas relações internacionais sobre a moral e o direito; a agressão, a chantagem, a ameaça, a arrogância desbragadas e campeando sem limite perante o silêncio cúmplice ou a cobardia política dos demais suseranos do mundo dos impérios.
Em segundo lugar, essa cavalgada pelo mundo fora de uma nova extrema direita fascizante, apoiada na soberba ingerência do trumpismo, cavalgando demagogicamente o desespero, o medo ou a zanga dos que se sentem abandonados pelos impasses, os erros e as impotências da crise profunda e prolongada dos sistemas liberais do ocidente. A ameaça de um novo tipo de regime fascistizado instrumentalizando o descontentamento de largos setores empobrecidos das classes intermédias ou de camadas crescentemente precarizadas do mundo do trabalho, é a outra face da mesma moeda das guerras imperiais e da necropolítica. É o grande desafio da nossa idade. Saber se as opiniões públicas e os povos lhe conseguem fazer face é uma questão, se quiserem, é a questão em aberto dos dias de hoje.
Em terceiro lugar, como elemento novo essencial relativamente à época do fascismo paradigmático do século passado, temos o controlo da revolução tecnológica e informática por uma tecnoligarquia industrial e financeira que reinventou novas formas de domínio e de intoxicação através da manipulação algorítmica das redes sociais. Um novo tipo de totalitarismo tendencial que tanta semeia a abolia e a sujeição, como explora sem escrúpulos os instintos primitivos de tanta gente perdida ou marginalizada nesta crise sem fim do capitalismo tardio.
Finalmente, referirei o fenómeno da produção social da indiferença que acompanha permanentemente tudo o resto, mais, que atapeta o terreno onde todas as formas de violência se podem exercer. Criar a indiferença moral, tentar comparar o incomparável, abafar cultural e ideologicamente a indignação contra a matança ou contra a ilegalidade da nova política das canhoneiras, contra o racismo e todas as formas de descriminação racial ou de género, é normalizar o regresso à barbárie. É mergulhar as sociedades nessa espécie de atordoamento difuso e impotente que subverte comportamentos individuais e coletivos que banaliza ou até justifica o impensável e o inaceitável à luz de uma ética democrática e de respeito pelos direitos fundamentais.
Mas para os muitos que resistem e fazem questão de enfrentar e derrotar esse mundo fantasmático dos infernos de Dante que parece ressuscitar é talvez preciso, penso eu, despertar novos engenhos e arte.
É preciso entender que a salvaguarda da democracia social e política nestes tempos de vésperas e de ameaças só se pode opor com sucesso aos “traficantes da perversão” acho que por dois caminhos. Por um lado, confiando sobretudo na força dos povos e de uma opinião publica disposta a dar tudo por tudo na defesa dos seus direitos contra o obscurantismo e a opressão. Como já acontece com sacrifícios inauditos na Cijordânia, em Gaza ou no Líbano, mas também, como vimos recentemente, em tantas cidades dos Estados Unidos.
Por outro lado, reinventando, aprofundando e transformando a democracia de forma a poder superar a crise sistémica do liberalismo tanto na sua expressão político-institucional, como no tocante à crise económica estrutural do capitalismo tardio. Essa crise existe como pano de fundo, ainda que não caiba aqui abordá-la em detalhe. Deixa atrás de si um rasto de empobrecimento, de degradação das condições de vida, de precarização, de marginalização que a mera gestão governativa do capitalismo neoliberal nessa espécie de reedição tardia do rotativismo oitocentista se tem mostrado incapaz de superar. É precisamente aí que se alimentam os traficantes da demagogia, da manipulação e da mentira. Da perversão ideológica e política, da exploração do medo e da da raiva para perpetuar agravadamente a dominação dos mais pobres.
Quero com isto dizer que, na minha maneira de ver, salvaguardar a democracia há-de ser transformá-la e aprofundá-la democraticamente tanto no domínio político-institucional como na vertente económico-social. E há-de ser, seguramente, a ousadia de não baixar os braços quando tudo parece mais difícil, de remar contra a corrente, de não temer, em certas esquinas da História, estar em minoria, pois é ela que nos mostra que, muitas vezes, as minorias têm razão e quando porfiam transformam-se em maiorias.