O sociólogo marxista Alain Bihr apresenta uma análise muito abrangente da catástrofe ecológica planetária numa nova obra cujo título resume perfeitamente o conteúdo: L’écocide capitaliste (Page 2 / Syllepse, 2026).
A obra é composta por três volumes, cujas cerca de 1200 páginas representam um trabalho notável de documentação, síntese e análise.
O primeiro volume faz um retrato da situação. Examina numerosas facetas da catástrofe: alterações climáticas, múltiplos danos aos meios naturais globais (oceanos, zonas húmidas, florestas), degradação dos elementos (terra, água, ar, energia), empobrecimento da biodiversidade, ameaças à saúde humana. Esta análise põe simultaneamente em evidência o fracasso das políticas capitalistas de “desenvolvimento sustentável” baseadas em soluções de mercado, bem como nos mecanismos de compensação que “na melhor das hipóteses não estão à altura dos problemas, quando não os agravam pura e simplesmente”.
O segundo volume, subtitulado “A natureza à mercê do capital”, demonstra que a catástrofe é, de facto, o produto das relações de produção capitalistas baseadas na expropriação dos produtores. Esta expropriação (“o grande dilaceramento”, segundo uma expressão pouco conhecida de Marx!) está, de facto, na base da alienação da natureza e da perda de consciência da pertença à natureza, que caracterizam a sociedade contemporânea. O autor insiste no facto de que o modo capitalista de apropriação da natureza opera por intermédio dos seus modos de apropriação do trabalho, sendo as duas dimensões, por isso, indissociáveis. Tal como outros autores ecomarxistas ou ecossocialistas, ele empenha-se em demonstrar que a busca absurda do crescimento ilimitado num planeta finito decorre imperativamente da necessidade de o capital se reproduzir numa escala cada vez mais ampla, de modo que a corrida ao lucro implica inevitavelmente a exploração tanto do trabalho como da natureza.
O terceiro volume “coloca o ecocídio capitalista numa perspetiva histórica”. Bihr concorda com os trabalhos que defendem que a dinâmica ecocida do capital se manifestou desde o período protocapitalista, no final da Idade Média. Ele traça a sua extensão e aceleração ao longo da primeira “revolução industrial” e das que se seguiram, mostrando as implicações de cada um desses momentos históricos do capital nos sistemas agrários e nos ecossistemas. Esta visão histórica inclui uma apresentação da evolução do pensamento económico em confronto com a ecologia — desde Malthus até Daly, passando pelos neoclássicos, Jevons, Lauderdale, a economia ecológica, os teóricos do valor-energia, sem esquecer Georgescu-Roegen e a sua abordagem através da entropia.
Este volume culmina em quatro capítulos que examinam a ligação entre a catástrofe ecológica e a crise de reprodução do capital, no final dos quais o autor recorre à teoria das “ondas longas” para confirmar que a crise é, de facto, de natureza sistémica: “Ao contrário das (crises ecológicas) anteriores, esta crise não pode ser superada pelo capital; na melhor das hipóteses (ao “tornar-se mais verde”), ele apenas pode abrandar o ritmo de desenvolvimento, sem, no entanto, pôr fim à degradação contínua e cumulativa das condições de vida humana na Terra, que está, de certa forma, inscrita na sua lógica intrínseca”.
A conclusão geral da obra intitula-se “O comunismo ou a morte”. O autor rejeita a ideia de que a catástrofe ecológica possa provocar o colapso do capitalismo. Em vez de um colapso, ele prevê “uma espécie de apocalipse” cujos “quatro cavaleiros seriam o caos ecológico, a pauperização generalizada, a doença, a guerra, tudo conduzindo a formas bárbaras de dominação e de regulação sociopolítica”. Para Alain Bihr, “a crise multifacetada do capitalismo coloca-nos, em última análise, não apenas perante a famosa alternativa colocada por Rosa Luxemburgoentre o socialismo ou a barbárie, mas, de forma mais radical, perante a alternativa entre o comunismo ou a morte. Simplesmente porque a catástrofe ecológica que a acompanha não se limita a degradar as condições de vida, mas ameaça, de forma mais fundamental, a própria possibilidade de vida na Terra. ”
É evidentemente impossível, no âmbito de uma recensão como esta, examinar em pormenor todos os desenvolvimentos de uma obra teórica tão volumosa, que abrange inúmeros temas com rigor, de forma tão aprofundada e rica (embora, por vezes, na minha opinião, com um excesso de pormenores).
O resumo acima não faz justiça a essa riqueza. As pessoas já convencidas do caráter capitalista da catástrofe ecológica poderiam concluir erroneamente que O ecocídio capitalista não lhes ensinará nada de novo. Ora, a obra, além da massa de factos e dados que relata, contém elementos de análise preciosos suscetíveis de enriquecer o pensamento ecossocialista ou ecomarxista. A título pessoal, apreciei assim os desenvolvimentos do Tomo III sobre a evolução das contradições do pensamento económico face ao desafio ecológico.
Estando fundamentalmente de acordo com a análise de Alain Bihr da catástrofe ecológica como produto inevitável do modo de produção capitalista, bem como com a sua conclusão estratégica ecossocialista/ecocomunista revolucionária, limitar-me-ei a três reflexões, de importância muito desigual, precisando que elas não atenuam de forma alguma a apreciação global sobre o interesse e a utilidade da obra.
Primeira reflexão: a crítica marxista nem sempre é suficiente para “marcar pontos” em debates que mobilizam as ciências exatas (o autor destas linhas já passou por essa experiência). Alain Bihr tem razão ao afirmar que Georgescu-Roegen e os seus partidários “desconhecem as relações capitalistas de produção”, mas é melhor, além disso, manter-se à distância da sua análise da crise ecológica vista sob a perspetiva do aumento da entropia. Que os recursos minerais sejam esgotáveis é uma evidência, mas não se esclarece nada ao introduzir a entropia nesta discussão, pois o seu aumento não é uma característica intrínseca da matéria, ao contrário do que afirma Georgescu-Roegen, cuja visão escatológica se acomoda bem a proposições concretas bastante insignificantes e moralizantes.
Segunda reflexão: a ideia de que o capitalismo implicaria a passagem de uma apropriação formal da natureza para uma apropriação real merece discussão. Para Alain Bihr, a apropriação real consiste no facto de o capital forçar a natureza a produzir o que ela não produz espontaneamente, a não produzir o que ela produz espontaneamente e a produzir simulacros de si mesma mais diretamente apropriáveis. Ora, se é disso que se trata, há que concluir que a transição para a apropriação real coincidiu com as primeiras seleções de espécies vegetais e animais, o que significa que é muito mais antiga do que o capitalismo. Poder-se-ia dizer que o fenómeno foi amplificado pelo capitalismo (sobretudo no período recente, com as biotecnologias), mas não constitui um marcador da passagem para a dinâmica ecocida do capital.
Aqui, Alain Bihr procede por analogia com o raciocínio que leva Marx a afirmar que a mecanização permitiu ao capital passar de uma subsunção formal do trabalho para uma subsunção real, na qual o trabalhador já não tem domínio nem compreensão do processo de produção, de modo que não passa de portador de uma força de trabalho abstrata, um acessório da máquina submetido à ciência que se ergue diante dele como uma força hostil nas mãos do capitalista. Bihr concorda, assim, com Jason Moore na ideia de que o capitalismo produziu não só um trabalho abstrato, mas também uma “natureza abstrata” — uma natureza à sua imagem, “vampirizada”. A analogia parece-me enganadora. A subsunção é a submissão em que o que é submetido é integrado ao que submete. Ora, a natureza não está integrada nem é integrável ao capital. Só o está nas fantasias dos economistas, mas segue obstinadamente as suas próprias leis. Como dizia Engels: “não nos vangloriamos demasiado das nossas vitórias sobre a natureza, ela vinga-se de cada uma delas”. A catástrofe ecológica encarna precisamente essa vingança temível.
A terceira reflexão é um espanto. A ultrapassagem dos limites ecológicos, climáticos em particular, implica necessariamente que o questionamento do produtivismo/consumismo capitalista se faça no respeito por um “decrescimento justo” do consumo final de energia, portanto da transformação e do transporte de matéria. O ecocídio capitalista, nas suas conclusões, não aborda a questão, nem mesmo em termos gerais. É, no entanto, sob esta condição objetiva que se deve conceber um projeto ecossocialista emancipador.
Daniel Tanuro é engenheiro agrónomo e nasceu na Bélgica. Fundou a associação “Clima e Justiça Social”. Tem artigos escritos sobre questões ambientais em várias revistas e jornais. É também autor de vários livros, nomeadamente “O impossível capitalismo verde” que se encontra traduzido em português pelas Edições Combate. Artigo publicado em A l'encontre