A 25 de junho de 2025, na cimeira da NATO em Haia, os Estados-membros acordaram em destinar anualmente, até ao ano de 2035, 5% do produto interno bruto (PIB) às áreas da defesa e da segurança. Deste montante, 3,5% deverão ser canalizados para “áreas centrais da defesa”, ou seja, tropas e armamento, enquanto os restantes 1,5% deverão ser aplicados em ”investimentos alargados relevantes para a segurança”, isto é, infraestruturas com utilização militar, cibersegurança e a proteção da rede energética. O governo federal alemão, sob o chefe do governo Merz, pretende já até 2029 investir 3,5% do PIB em despesas de defesa e transformar o Bundeswehr alemão “no exército convencional mais forte da Europa”.
No ano de 2025, na Alemanha, segundo os critérios da NATO, foram gastos 2,4% do PIB em armamento: cerca de 100 mil milhões de euros. Em comparação com o ano de 2015, isto corresponde já a uma duplicação das despesas militares. Até 2029, deverão ser aproveitadas as margens de manobra que excluem as despesas militares das restrições de endividamento constitucionalmente exigidos. Isto conduz a uma alteração significativa do orçamento federal em direção às despesas militares e em detrimento das despesas sociais.
As despesas de armamento em expansão são acompanhadas, por parte das classes dominantes, de uma “mudança de época espiritual”, já anunciada pelo ex-chefe do governo Olaf Scholz e prosseguida sob Merz. O objetivo é tornar a população “apta para a guerra” e prepará-la mentalmente para um conflito militar iminente. Para alcançar este fim, a presença da Bundeswehr no espaço público foi significativamente ampliada: foi instituído um “Dia dos Veteranos”; eventos públicos como cerimónias de homenagem aos mortos ou juramentos militares voltam a ser celebrados; e o Bundeswehr está autorizado a fazer publicidade nas escolas. Exercícios de “cooperação civil-militar” preparam trabalhadores, por exemplo no setor da saúde, para, em caso de guerra, serem obrigados a trabalhar compulsivamente. Exige-se, cada vez mais abertamente, a reintrodução do serviço militar obrigatório. Já foi introduzida uma obrigação de inspeção médica militar, e homens aptos para o serviço militar têm de pedir previamente autorização das forças armadas para estadias no estrangeiro superiores a três meses.
Simultaneamente, a indústria do armamento ganha também crescente influência económica. A Rheinmetall e outras empresas do setor obtêm elevados lucros extraordinários. Cada vez mais empresas de produção civil convertem-se, total ou parcialmente, à produção militar, e as exportações de armas representam, desde o início da guerra na Ucrânia, uma parte crescente das exportações.
Esta orientação para a habilidade de guerra e para o armamento põe em risco a coesão social. As despesas de armamento financiadas por dívida implicam elevados encargos com juros, que têm de ser suportados pelo orçamento. Também os investimentos civis são cada vez mais avaliados em função da sua adequação à guerra, por exemplo na construção de estradas e pontes resistentes a tanques. Em contrapartida, nos domínios da educação e da saúde, bem como sobretudo nos sistemas de proteção social, verificam-se cortes significativos.
Antimilitarismo social
O partido Die Linke saiu reforçado das últimas eleições federais de fevereiro de 2025, com 8,8%, e conseguiu aumentar consideravelmente o número de membros.
Para tal contribuiu um forte enfoque nas questões sociais, bem como a sua afirmação como força antifascista face à ameaça de aliança do conservadorismo com a extrema-direita. Die Linke é o único partido no Bundestag, o parlamento alemão, que se posiciona contra o armamento. Explica de forma consequente a relação existente entre os cortes sociais e a expansão da produção militar. O partido registou ganhos particularmente fortes entre os jovens, para quem a questão da paz volta a adquirir importância.
As atividades de política de paz na Alemanha são atualmente sustentadas por três grupos que se sobrepõem, mas que podem ser distinguidos: 1. O movimento pacifista tradicional, com ativistas maioritariamente mais velhos, por exemplo da Deutsche Friedensgesellschaft (DFG-VK, Associação pela Paz de Alemanha) ou em numerosos fóruns locais pela paz, frequentemente fundados nos anos 1980; 2. Comités contra o serviço militar obrigatório, marcados por estudantes e organizações juvenis, que surgiram do conflito concreto em torno de uma eventual reintrodução desse serviço; 3. Movimentos predominantemente compostos por migrantes contra a cumplicidade alemã com o genocídio em Gaza. 4. Para além disso, existem outros debates sobre a política de paz nos sindicatos, que, contudo, se manifestam atualmente de forma mais reservada.
As diferentes correntes do movimento pela paz cooperam em muitos questões, mas existem grandes diferenças culturais e de hábitos, bem como temas de conflito específicos que produzem repetidamente tensões.
Die Linke procura desempenhar um papel unificador no movimento de paz e estar presente em todas as suas vertentes. Em conjunto com organizações palestinianas, organizou uma das maiores manifestações pela paz da última década, que procurou tornar clara a crítica à atuação do governo alemão no que diz respeito à política de guerra e de ocupação de Israel. É, assim, a única força política relevante que surge como possível parceira de aliança para grupos solidários com a Palestina. No entanto, existem também ativistas que consideram estas atividades demasiado defensivas.
Um destaque do trabalho concreto é atualmente constituído por um serviço de aconselhamento sobre objeção de consciência ao serviço militar, estruturado a nível nacional e criado em cooperação com a DFG-VK. Este aconselhamento baseia-se em estruturas já existentes de Die Linke hilft (Die Linke ajuda), no âmbito das quais o partido procura oferecer serviços de aconselhamento social o mais abrangentes possível. A ligação entre aconselhamento individual e ajuda concreta nos gabinetes do partido, por um lado, e a representação política, por outro, constitui uma estratégia central de Die Linke também em questões de política de paz. Estes serviços de aconselhamento são, além disso, particularmente adequados para aproximar jovens e conselheiros experientes do movimento pacifista tradicional.
Por fim, Die Linke procura também levar para os sindicatos a oposição entre rearmamento e Estado social e tratar o mundo do trabalho como um campo central de conflito da política de paz. A Fundação Rosa Luxemburgo organiza grandes conferências sindicais pela paz, e Die Linke tenta fazer chegar as suas posições antimilitaristas às empresas e aos sindicatos.
Os debates atuais sobre o armamento, o serviço militar obrigatório, exportações de armas e a adesão à NATO apresentam um quadro misto. O armamento é visto por uma parte considerável da população como um mal necessário. Contudo, onde o armamento entra em conflito com conquistas sociais, o apoio diminui rapidamente.
A geração jovem rejeita em grande medida o serviço militar obrigatório. A classe dominante está, assim, ainda longe do seu objetivo de tornar a população alemã “apta para a guerra”. O potencial para um forte movimento de paz existe, mas até agora é apenas visível de forma limitada. Se o protesto contra o armamento conseguirá efetivamente travar a política de guerra do governo alemão nos próximos anos dependerá também de quão bem o partido Die Linke conseguirá desempenhar o seu papel como força organizadora e representação política do movimento de paz.
David Stoop é membro do Die Linke em Hamburgo