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Venezuela: plataforma cidadã propõe diálogo e referendo pela soberania e pela paz

A Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição denuncia que a autoproclamação de Juan Guaidó e o seu reconhecimento por Trump é o “início de um golpe de Estado”, alerta para o risco de uma “guerra civil” e apela ao diálogo entre a Assembleia Nacional e o Governo de Maduro.
Manifestação convocada pela Assembleia Nacional, Caracas, 23 de janeiro
Manifestação convocada pela Assembleia Nacional, Caracas, 23 de janeiro

A Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição (PCDC) propõe também, como “premissa” do diálogo, a realização de um referendo para que o povo venezuelano se pronuncie se quer ou não renovar todos os poderes públicos e sugere como mediadores os governos do México e do Uruguai e o Secretário-Geral da ONU, que propuseram uma “iniciativa de diálogo que foi aceite pelo Presidente Maduro”.

O documento da plataforma1, divulgado neste domingo 27 de janeiro, reafirma que “foi o departamento de Estado dos EUA quem estabeleceu abertamente o guião” que Guaidó seguiu2 ao declarar-se “presidente interino” e realça que esta é a agenda de Trump para intervir na Venezuela, lembrando que ele afirmou “que tem 'todas as opções sobre a mesa', inclusive a da intervenção militar”.

A PCDC salienta que o diálogo que propõe deve contemplar, nomeadamente: fim do “estado paralelo”; garantias que permitam realização de eleições a curto prazo; rejeição da intervenção estrangeira; plano económico de emergência; lei de amnistia; auditoria pública e cidadã à dívida; fim das sanções económicas internacionais.

Extraordinárias e massivas manifestações de 23 de janeiro

A plataforma destaca as grandes manifestações de 23 de janeiro, que foram convocadas pela Assembleia Nacional (AN)3, considerando que elas demonstram a “recusa da maioria do povo venezuelano ao governo autoritário de Nicolás Maduro”.

As manifestações da passada terça-feira ocorreram em todo o país, ao contrário do que era tradicional, em que as grandes manifestações se limitavam sobretudo a Caracas. Além disso, no decurso da ação deram-se outros acontecimentos significativos.

Por exemplo, na cidade Caicara del Orinoco, a Guardia Nacional (GNB), enviada para impedir uma manifestação e reprimir os participantes, desfaz uma barreira e junta-se à marcha (ver abaixo post do instagram4).

A PCDC sublinha também que a Venezuela vive uma profunda crise política, económica e social, nomeadamente a aceleração da hiperinflação e da “profunda depressão económica” e as repercussões nas condições de vida e de trabalho “de mais de 80% da população”, com a “severa e angustiante deterioração dos serviços públicos de saúde, transportes, telecomunicações, abastecimento de eletricidade e de água, assim como “o colapso da indústria petrolífera”, a corrupção e a “violação dos direitos fundamentais e a criminalização dos protestos cívicos”.

A plataforma dirige ainda um apelo à “oposição democrática” para que rejeite a ingerência externa e defenda o direito à autodeterminação dos venezuelanos” e propõe-lhe que participe na constituição de um “movimento nacional que promova o diálogo e a realização de um referendo consultivo vinculante”.

Artigo de Carlos Santos para esquerda.net


Notas:

1 O comunicado é subscrito por Héctor Navarro, ex-ministro da Educação, da Ciência e da Energia entre 2007 e 2011; Gustavo Márquez, ex-ministro de Estado para a Integração e o Comércio Externo (2005-2007); Oly Millán, economista e ex-ministra para a Economia Popular (2006); Edgardo Lander, sociólogo, professor na Universidade Central da Venezuela e investigador associado ao Transnational Institute; Santiago Arconada, ativista social; Ana Elisa Osorio, antiga ministro do Ambiente de Hugo Chavez (twitter.com/anaelisaosorio); Juan García, cofundador de Aporrea e membro de Marea Socialista; Gonzalo Gómez, cofundador de Aporrea e porta-voz da Marea Socialista.

2 O site puntodecorte.com refere que a autoproclamação de Juan Guaidó, que é dirigente do partido Voluntad Popular, terá surpreendido quase todas as restantes forças da oposição, que não sabiam do que ia acontecer, “Nem Primero Justicia (exceto Borges), nem Acción Democrática, nem Un Nuevo Tiempo, nem Avanzada Progressista”.

3 No dia 23 de janeiro houve manifestações convocadas pela Assembleia Nacional (AN) e que tiveram lugar em todo o país. Houve também uma manifestação favorável ao Governo em Caracas. Nos links abaixo pode ver fotogalerias das manifestações realizadas na capital, Caracas: da manifestação convocada pela Assembleia Nacional e da manifestação de apoio ao Governo de Maduro.

Sobre o/a autor(a)

Editor do esquerda.net Ativista do Bloco de Esquerda.
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