O novo fascismo do séc. XXI já tem sido analisado extensivamente por várias tradições académicas de esquerda. Autores como Enzo Traverso e Fernando Rosas, recorrendo ao termo ‘pós-fascismo’, relacionam-no com a degeneração do neoliberalismo, sublinhando as continuidades e ruturas com o fascismo do séc. XXI, nomeadamente a decisão de não questionar o regime, procurando antes moldá-lo por dentro rumo a um ‘autoritarismo de novo tipo’ em que a democracia formal é gradualmente esvaziada. Outros autores como Alberto Toscano e Ugo Palheta focam-se também nas suas raízes filosóficas, inspirando-se nos debates sobre o fascismo dos anos 70 e recuperando temas tradicionais da mundividência fascista – o declínio da civilização, a reabilitação da nação homogénea, a alegada grande substituição racial – com uma nova roupagem aparentemente mais anódina.
Conhecemos também algum do impacto dos novos fascistas quando chegam ao poder: o ataque a direitos fundamentais, nomeadamente a minorias étnicas e sexuais, o controlo do judiciário e da imprensa, a censura e eliminação da dissensão, o reforço dos braços repressivos do Estado. No entanto, refletimos menos sobre a sua política económica. Aqui, a heterogeneidade é considerável. Temos políticos como Meloni, que não rompem em grande medida com o status quo deste ponto de vista; outros como Milei, com um carácter mais doutrinário, radicalmente neoliberais; outros ainda mais na linha de Le Pen, defensores do chamado welfare chauvinism, em que há uma certa rutura com a ortodoxia económica para defender maior intervenção estatal e proteção social, mas apenas para uma parte da população, com a exclusão a ocorrer em linhas étnicas ou raciais.
A configuração de economia política da extrema-direita num determinado contexto é uma conjugação de vários fatores: as idiossincrasias nacionais, o oportunismo caraterístico destas forças políticas (veja-se Ventura, que começou com um programa ultraliberal, do qual se afastou em parte, posteriormente, por ser impopular), e o compromisso com as frações mais reacionárias da burguesia nacional. É sobre este prisma que analiso o primeiro ano do segundo mandato de Trump, que desafia a compreensão, é certo, por ser errático e incoerente, ao contrário de plataformas mais doutrinárias como Milei, mas cuja lógica devemos tentar perceber não só pelo impacto que está a ter no mundo, mas também pelo potencial de inspirar outras experiências (pós-)fascistas.
Estagnação económica, explosão das desigualdades
Trump prometeu, à semelhança do que prometeu no primeiro mandato, um boom económico. Até agora, está por concretizar. Só temos dados disponíveis até ao terceiro trimestre: no primeiro trimestre, o PIB real inclusivamente diminuiu devido às tarifas, segundo várias análises, tendo crescido 3,8% no segundo trimestre e 4,3% no terceiro, uma taxa de crescimento surpreendente, mas que deverá normalizar-se no quarto trimestre. A projeção mais consensual é que a economia deverá expandir à volta de 2% em 2025, um número que está longe de ser impressionante.
O crescimento no terceiro trimestre foi impulsionado pelo consumo privado, mas há sinais de que estará cada vez mais concentrado nos escalões superiores de rendimento. Dados da Moody’s Analytics mostram que quase metade do consumo registado no primeiro semestre de 2025 teve origem nos 10% mais ricos, a maior percentagem que há registo desde 1989. Num relatório de dezembro, o Bank of America mostra igualmente a esta polarização no consumo a partir de dados de despesa em cartões de débito e crédito (gráfico 1). Os economistas falam de uma “economia em forma de K”, em que os mais ricos são cada vez mais afluentes e consomem mais, enquanto a maioria mais pobre aperta o cinto e gasta menos, fustigada pela inflação e consequente deterioração do custo de vida.
Esta desigualdade crescente foi potenciada pelas políticas da nova administração Trump. A sua Big Beautiful Bill (OBBBA) tem um efeito inequivocamente regressivo na distribuição da riqueza, representando uma miríade de reduções de impostos e benefícios fiscais no valor de 4,5 biliões de dólares entre 2025 e 2034, em que 2,3 biliões se destinam aos 10% mais ricos, concentrando-se 1 bilião no 1%, ao mesmo tempo que corta um montante semelhante em programas de apoio ao acesso à saúde para os mais pobres.
De facto, Trump foi eleito com promessa de combater a inflação e a crise de custo de vida, mas até agora a situação tem apenas piorado. A taxa de inflação em novembro foi de 2,7%, o que é bastante acima do objetivo dos 2% e semelhante aos níveis aquando da sua tomada de posse. O preço da eletricidade e dos alimentos disparou. O crescimento salarial tem também abrandado e a tendência de crescimento “em forma de K” também é notória. Em simultâneo, os mais ricos viram as suas fortunas a crescer, sobretudo devido à valorização impressionante dos índices bolsistas, sobretudo em ações de IA, e Trump tem usado a Presidência para aumentar a sua própria fortuna. O Conselho Editorial do The New York Times estima que, neste primeiro ano, a fortuna da família Trump aumentou 1,4 mil milhões de dólares em resultado de medidas da administração, dos quais mais de metade vieram de vendas de criptomoedas. A “economia em forma de K” é apenas um eufemismo para uma política económica que esmaga a maioria trabalhadora e que enriquece Trump e os seus amigos milionários.
Uma tarifa para cada problema
Com os novos pacotes de tarifas de Trump, a tarifa média sobre importações subiu de 2,5% para 14%. O impacto é sísmico, estando a acelerar as dinâmicas de desglobalização e fragmentação do comércio mundial, em curso desde a crise de 2007-08.
As tarifas são o principal instrumento de política da administração para o projeto de regeneração nacional MAGA (“Make America Great Again”). Esta mundivisão postula um (evitável) declínio norte-americano, em especial devido à perda de competitividade económica para outras nações, em particular a China, a grande potência em ascensão que ameaça a primazia dos EUA no mundo. As tarifas são empregues com o objetivo proclamado de reduzir a dependência do exterior, aumentar receitas federais, reduzir o défice comercial com a China e outras economias avançadas, e proteger a indústria norte-americana, que Trump diz querer revitalizar. São também a ferramentas de uma diplomacia transacional, como ameaça para obter concessões de aliados e adversários.
Entrevista
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Até agora os resultados são mistos. É verdade que os EUA reduziram o seu défice da conta corrente de forma significativa no segundo e terceiro trimestres. O défice com a China também diminuiu (gráfico 2), embora haja evidências de que este comércio esteja a ocorrer através de países intermediários como o México e o Vietname, dificultando as contas. No entanto, isto não representa um especial dinamismo da indústria norte-americana, devendo-se sobretudo à diminuição de importações decorrente das tarifas de Trump. De facto, não tem sido criado mais emprego no setor secundário e este mostra até sinais de enfraquecimento. O PMI (Purchasing Managers’ Index), indicador comumente utilizado para medir a pujança do setor manufatureiro, caiu de 50,9% em janeiro para 47,9% em dezembro (menos de 50% indica contração do setor).
As tarifas dificultam a importação de insumos e bens de capital intermédios essenciais para o desenvolvimento da indústria. Além disso, o efeito preço das tarifas em 2026 será gradualmente passado para o consumidor, o que dificultará a tarefa de domar a inflação.
A perseguição aos imigrantes
Outro traço do projeto de regeneração nacional de Trump é o combate à imigração. A comunidade nacional é definida em linhas nativistas e excludentes, considerada etnicamente homogénea. Os imigrantes são apresentados como aliens que estão a “invadir” o país, uma ameaça à segurança dos “verdadeiros” norte-americanos, a causa da criminalidade, um peso para os contribuintes. “Fazer da América grande outra vez” implica, para Trump, construir muros para travar fluxos migratórios, retirar direitos, relegando imigrantes para um estatuto de subcidadania, assim como encarcerar e deportar em massa.
Para o efeito, a OBBBA atribui uns impressionantes 179 mil milhões de euros ao combate à imigração até 2029 (gráfico 3): $46,6mM para acabar o muro na fronteira; $45mM para construir centros de detenção; $18,2mM para a polícia fronteiriça; e mais $30mM para o ICE, a polícia da imigração que tem sido comparada à GESTAPO, em cima dos $9,6mM de orçamento anual de que já dispunha. Através de vários decretos-lei, a administração também desmantelou agências de supervisão destas polícias, dificultou pedidos de asilo, removeu proteções a requerentes, e retirou restrições à operação das polícias, facilitando também processos de detenção e deportação.
O gasto em armas do ICE aumentou 600% em relação a 2024 e pretende contratar mais 10 000 agentes de deportação nos próximos 2 anos. Também neste momento gasta 25 milhões de dólares em softwares de vigilância e reconhecimento facial para encontrar e deter alvos. A administração mobilizou ainda mais de 33 000 funcionários de outras agências federais para o ICE, de forma a cumprir o objetivo de reforçar drasticamente a detenção e a deportação de imigrantes em massa. De facto, atingiu-se um novo recorde de detidos pelo ICE: cerca de 68,5 mil pessoas no fim do ano, quando eram cerca de 40 mil no início do mandato.
O ICE atua como o exército doméstico de Trump. Nas suas rusgas regulares, os agentes, normalmente encapuzados sem a cara visível, estão equipados e agem como se estivessem numa zona de guerra. Detêm pessoas sem fundamento ou mandato judicial, incluindo crianças, utilizam violência e armamento desproporcional, e matam protestantes a sangue-frio. As condições dos centros de detenção são miseráveis, tendo 32 detidos morrido em 2025. A justificação oficial é que os visados são criminosos violentos, ou que os protestantes violentados são “terroristas” da “esquerda radical”, mas a verdade é que a maioria dos detidos não têm antecedentes criminais e são selecionados simplesmente por critérios raciais. As acusações contra os manifestantes também não têm nenhum fundamento.
Para ser claro, não é novidade que estas polícias sejam violentas ou ajam com impunidade, mas a escala com Trump é quantitativa e qualitativamente diferente. Como explica Michael Maher, enquanto Biden colocou recursos para a fronteira, Trump encaminhou-os para o interior do país, com o objetivo claro de formar um “regime de controlo, em que várias agências e polícias federais constituem um organismo interoperacional para efetuar deportações em massa e policiamento ideológico”.
Os efeitos destas políticas são assinaláveis. Um estudo da Brookings Institution estima 310 000 a 315 000 deportações em 2025 e que, pela primeira vez em mais de meio século, a migração líquida para os EUA terá sido negativa (mais saídas que entradas). O número de deportações não foi muito mais baixo em 2024 (285 000), mas o estudo nota que a maioria delas provinha de ordens de autoridades fronteiriças e alfandegárias (pessoas entradas no país há pouco tempo), enquanto a maioria das pessoas deportadas é do interior do país, presumivelmente residentes de longo termo e até cidadãos.
Estas tendências estão a contribuir para uma diminuição de força de trabalho disponível e para um mercado de trabalho rígido e pouco dinâmico: o que se tem chamado uma “low hire, low fire job market”. Em média, a economia norte-americana criou 49 000 postos de trabalho por mês, enquanto em 2024 criava 168 000 (redução de 70%). A taxa de desemprego foi de 4,4% em dezembro de 2025, a mais alta desde outubro de 2021, tendo subido ao longo do ano (4% em janeiro 2025). Ironicamente, a redução da imigração não beneficiou sequer trabalhadores nascidos nos EUA – a sua taxa de desemprego subiu de 3,7% (dezembro 2024) para 4,1% (dezembro 2025).
É fácil compreender porquê. A diminuição de mão de obra, criando situações de falta de mão de obra em alguns setores, leva a que empresários adiem decisões de investimento, que acarreram a criação de novos postos de trabalhos. Se há menos imigrantes também há menos pessoas a consumir e a criar emprego. A Brookings estima que o impacto destas medidas no PIB pode situar-se entre –0,19 e –0,26 pp do PIB em 2025, potencialmente mais ainda nos anos seguintes. A perseguição aos imigrantes não é apenas moralmente abjeta, mas economicamente suicidária.
O paraíso dos tecno-oligarcas
Tornou-se icónica a imagem da tomada de posse de Trump, em que aparece rodeado dos CEOs e acionistas das grandes empresas tecnológicas norte-americanas. De facto, Silicon Valley rendeu-se a Trump e ele tem retribuído o favor, constituindo a mais importante aliança com o capital desta administração.
Uma das primeiras ordens executivas de Trump foi revogar uma ordem executiva de Biden que obrigava certos sistemas de inteligência artificial a partilhar testes de segurança com o governo. Substituiu de imediato a liderança da FTC, que com Lina Khan na era Biden enfrentou a Big Tech através da ação antimonopolista. Deu também acesso a Musk, através do DOGE, controlo despótico sobre estrutura do Estado – estima-se que tenha despedido 300 000 trabalhadores –, assim como acesso a dados de agências federais. No plano externo, Trump e Vance têm exigido que outros países relaxem a regulação da atividade das gigantes tecnológicas, ameaçando com tarifas em caso contrário.
A OBBBA contém uma moratória de dez anos para regulamentação da IA a nível estadual (só o governo federal é que pode regular), vários benefícios fiscais (como para I&D, por exemplo) que beneficiam estas empresas, e compromissos avultados de aquisição destas tecnologias para uso federal.
O mandato tem sido marcado também por uma imbricação crescente entre as grandes empresas tecnológicas e o aparelho estatal, documentadas em pormenor pelo projeto Authoritarian Stack. Em julho de 2025, o Departamento de Defesa assinou 75 contratos com a Palantir num montante total de 10 mil milhões de dólares, empresa detida pelo bilionário Peter Thiel, cujas pulsões autoritárias são bem conhecidas. A Palantir fornece sistemas operativos e de gestão de dados ao governo norte-americano em várias áreas sensíveis – incluindo uma ferramenta de IA ao ICE para vigiar e localizar imigrantes com vista à deportação –, constituindo uma privatização de facto de soberania sobre dados e infraestruturas críticas, tal como cedência de autonomia operacional.
Gronelândia
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A Anduril é uma empresa especializada no uso de IA para a operação de armas autónomas, produzindo drones capazes de combinar várias fontes de dados para identificar, selecionar e executar alvos. Com contratos de 22 mil milhões de dólares, o secretário da Defesa já anunciou que o objetivo é a integração total dos sistemas de armamentos autónomos da empresa. A SpaceX e sucursais, de Elon Musk, fornecem uma constelação gigantesca de satélites militares, o que marca a privatização de uma infraestrutura crítica que antes era do domínio exclusivo do Estado: as comunicações em órbita terrestre baixa.
Várias agências como a CIA, o Pentágono e a NSA utilizam hoje sistemas da Amazon, Meta, Microsoft, Alphabet e OpenAI para conduzir operações militares e de informações secretas sensíveis. As portas giratórias são também uma evidência. Michael Kratsios, ex-Palantir próximo de Thiel, dirige o Gabinete de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca. Michael Obadal, ex-direção da Aduril, foi nomeado para o segundo cargo civil da hierarquia do Pentágono. Gregory Barbaccia, ex-Palantir, é o novo diretor de sistemas de informação a nível federal.
Está em configuração um novo complexo militar-industrial, ou quiçá militar-tecnológico. Mais privatizado que os anteriores, estas empresas fundem-se gradualmente com o estado, que, assim, lhes cede controlo sobre funções e infraestruturas críticas, tanto civis como militares, o que permite ao Estado norte-americano, por um lado, fortalecer o seu aparelho repressivo dentro e além fronteiras, e às empresas, por outro lado, testar e refinar tecnologias num ambiente pouco regulado e aceder a um grande conjunto de dados sensíveis – tudo isto, claro, em troca de contratos milionários.
Por outro lado, a economia norte-americana é crescentemente dependente da IA, que está longe de dar garantias de aplicações comerciais viáveis ou de ganhos de produtividade no curto/médio prazo que justifiquem os colossais investimentos em curso, tal como a valorização bolsista. De facto, as empresas de IA são responsáveis por 80% do crescimento do valor das ações norte-americanas em 2025. A Allianz Trade estima que o setor das TIC (incluindo IA) contribuiu para cerca de 40% do crescimento económico norte-americano em 2025, constatando também que o investimento no setor cresceu 14%, à boleia de investimento em IA e centros de dados (cerca de $450mM), enquanto nos restantes contraiu 3%. De acordo com a OCDE, o PIB teria diminuído no primeiro semestre sem o contributo das TIC (gráfico 4).
Nunca a economia norte-americana foi tão dependente deste setor; sem a IA, estaria em recessão. Ele parece ganhar contornos de bolha especulativa e as grandes empresas recorrem cada vez mais à emissão de dívida, e a compras e aquisições entre elas, para financiar estes investimentos gigantescos. Os EUA são hoje, nas palavras de um famoso executivo, “uma grande aposta na IA”, com perspetivas, acrescentaria eu, cada vez mais duvidosas.
Conclusão: a fascistização em curso dos EUA
As dimensões da economia política de Trump exploradas neste artigo demonstram não só uma política económica incapaz de revitalizar o capitalismo norte-americano, mas também uma clara trajetória de fascistização. O fascismo hoje não vem com o totalitarismo de Estado e as ambições de revolução antropológica dos anos 30 do séc. XX, mas tem inúmeros elementos de continuidade.
Configura-se uma política de classe, alinhada com os interesses do capital e de disciplinação da força de trabalho. A reconfiguração intervencionista do Estado neoliberal serve para enriquecer os milionários ao mesmo tempo que ataca o Estado social e o poder aquisitivo dos trabalhadores, empobrecendo a maioria. Forma-se uma economia de desigualdades extremas. Fortalece-se o aparelho repressivo do Estado para aterrorizar as franjas mais vulneráveis da classe trabalhadora (os imigrantes). A continuidade ideológica com o fascismo do séc. XXI é evidente – a narrativa de regeneração da comunidade nacional homogénea através da depuração racial. A violência do novo fascismo não vem de milícias para-legais, mas reveste-se de legalidade e legitimidade política, sendo operacionalizada pelas instituições do Estado.
A administração atua com impunidade, dispensando constrangimentos legais e institucionais. Isto vê-se, por exemplo, na operação do ICE, cujas ações violam princípios constitucionais, e no sequestro de Maduro, que não foi precedido de autorização do Congresso. A democracia não é tomada de assalto por um golpe, mas é conquistada pela via eleitoral e esvaziada por dentro, removendo-se obstáculos aos governantes, que tendem a eternizar-se no poder. A censura de livros, ataques aos setores mais críticos da investigação e da ciência, criminalização do pensamento e de organizações de esquerda, denotam uma tendência de repressão da dissensão política e de ataque ao pluralismo.
O alinhamento, ou quase fusão orgânica, entre o governo e as frações mais reacionárias do capital, os tecno-oligarcas, é notável. Os últimos garantem o consenso e evitam o surgimento de oposição à administração através da mobilização dos meios algorítmicos de manipulação social. Entretanto, o Estado cede-lhes funções críticas e essenciais de forma a aperfeiçoar o seu aparelho de controlo. Como explica Francesca Bria: “enquanto o autoritarismo tradicional recorre à mobilização das massas e à violência do Estado, esta forma de poder apoia-se na infraestrutura tecnológica e na coordenação financeira, tornando a resistência clássica não apenas difícil, mas organicamente obsoleta”.
Ao mesmo tempo, o declínio relativo do capitalismo norte-americano impulsiona uma vaga de conflitualidade económica e de imperialismo, como se vê com a “Doutrina Donroe”, colonização da Venezuela, e eventualmente da Gronelândia e outros territórios. A crise de rentabilidade do capital nacional leva à rejeição da ortodoxia neoliberal, aplicando tarifas e outras medidas protecionistas para proteger os seus segmentos mais dinâmicos, e à expansão global, mesmo que de forma coerciva, para garantir novas vias de acumulação: seja a roubo de petróleo na Venezuela, as terras raras na Ucrânia, entre outros.
A despesa militar aumenta e as gigantes tecnológicas estão cada vez mais imbricadas com o Pentágono. O genocídio na Palestina já foi uma oportunidade de testar as aplicações militares da tecnologia destas empresas, que precisarão de outros redutos para rentabilizar estes investimentos. Contam também com uma administração determinada em assegurar por todos os meios o acesso a minerais críticos para fabricarem os chips necessários para os seus investimentos em centros de dados e além. O novo fascismo demonstra o impulso imperialista do fascismo passado, embora com uma roupagem diferente.
Não deve subestimar-se as consequências e o perigo da nova administração Trump. A fascistização da sociedade americana é real e dela decorre um grande potencial de emulação para outros contextos. Aliás, a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA sinaliza um compromisso de apoiar a extrema-direita na Europa, uma espécie de internacional reacionária. Ela ameaça também o comércio internacional e a segurança mundial. Internamente, a repressão e empobrecimento da classe trabalhadora aceleram-se vertiginosamente, enquanto os tecno-oligarcas refinam as suas capacidades de vigilância e controlo, com alcance mundial e com crescente potencial de aplicação militar. A organização e a contestação nas ruas, que se tem intensificado, por exemplo, contra o genocídio e contra o ICE, será decisiva para derrotar o novo trumpismo, que deve ser analisado e combatido também pela esquerda fora dos EUA.