“Temos na educação um sistema soviético de planeamento central que foi experimentado na URSS para produzir pão e não funcionou”. É esse o título de uma entrevista dada por Pedro Santa Clara ao Público, que foi publicada este domingo. Pedro Santa Clara é economista e identifica-se como um “superliberal” que é fundador do Instituto Mais Liberdade e foi mandatário da Iniciativa Liberal. Está ligado à educação através da Nova SBE, tendo liderado o processo da construção do campus da faculdade em Carcavelos, e é o pensador por detrás da Escola 42 e do Tumo Lisboa. É também próximo do projeto Teach for Portugal, um projeto que lança os alicerces da privatização do sistema educativo.
Para além da referência à União Soviética, pensada para chocar como destaque da entrevista, Santa Clara aproveita para explicar como funciona o modelo de ensino do projeto TUMO. Um projeto que nasceu na Arménia em 2011, em Portugal tem quase 5 mil alunos, com frequência gratuita, uma vez que, segundo o líder do projeto em Portugal, é financiado por privados. Só que a história não é bem assim. Em Coimbra, recebeu 250 mil euros da Câmara. No Porto, em Matosinhos e em Gaia também. A TUMO esteve também no centro de uma polémica descoberta pela CNN Portugal, porque estava na calha para receber um ajuste direto de cinco milhões de euros da Câmara Municipal de Lisboa, sem que isso fosse sequer discutido pelas estruturas camarárias responsáveis pela Educação. Naturalmente, a oposição travou na altura esse financiamento.
A TUMO assume na plenitude o léxico liberal. Não tem professores, tem learning coaches, e o seu espírito inovador leva Santa Clara a dizer que lhe faz imensa confusão que todos façam o mesmo desenho quando se lhes pede para desenhar uma escola: “uma sala com um professor a escrever no quadro e alunos sentados em secretárias”. Para o “superliberal”, isso significa que “não têm imaginação”. Mas não será a ausência de professores um fator estrutural ao projeto?
O líder do projeto em Portugal explica que o sistema de aulas consiste em workshop leaders, especialistas nas áreas de trabalho e nos tais learning coaches, jovens, muitos universitários, que fazem apenas um acompanhamento dos alunos. Esse modelo é curiosamente parecido ao da Teach for Portugal, que usa jovens licenciados, com alta rotatividade e por isso altamente precários, como “mentores” em sala de aula. Sobre esse modelo de “mentores”, a FENPROF já tinha denunciado a tentativa de precarização da profissão educativa.
Essa é então uma primeira pedra estrutural do projeto da TUMO. Mas Santa Clara dedica a entrevista a atacar o atual sistema de educação em Portugal. Para além da comparação soviética, fala num “sistema obsoleto”. Se é verdade que o sistema de ensino público português tem tido dificuldades devido a falta de professores e sobre a tensão entre competências centralizadas ou descentralizadas, Santa Clara, quando questionado, esquiva-se a explicar como poderia funcionar o modelo da TUMO aplicado em massa.
Sobre slogans vazios de termos de dar aos alunos “a curiosidade, a criatividade, o pensamento crítico, valores, a capacidade de trabalharem uns com os outros” - que nunca concretiza, Pedro Santa Clara utiliza o surgimento da Inteligência Artificial para justificar a destruição do sistema educativo, fazendo antes a apologia de um sistema onde importa, mais do que a educação, a “boa performance” das escolas.
Do fim dos professores à privatização do ensino
Outra pedra estrutural do TUMO é a introdução de projetos de ensino privados como alternativa ao ensino público. Sobre privados a gerir escolas públicas diz “porque não?”, citando o exemplo das academias lançadas por Tony Blair como um bom exemplo, mas omitindo o exemplo da Suécia. Como Portugal, a Suécia vive uma crise de falta de professores. O sistema de “escolha livre” que o líder da TUMO apregoa levou a que se formassem cada vez menos professores, que denunciaram as condições degradantes de ensino nas escolas privadas. Sem surpresas, o sistema de ensino do país foi perdendo qualidade, como o mostram os rankings de educação europeus, o que levou Andreas Schleicher, diretor da OCDE para a educação a afirmar que “o sistema educativo sueco parece ter perdido a sua alma”. Parece ser esse o futuro que Santa Clara quer para o sistema educativo português.
É claro que a falta de professores também é um problema em Portugal. Perante uma crise de custo de vida cada vez mais galopante, a profissão torna-se menos atrativa. Mas o que acha Pedro Santa Clara disso? Queixa-se da tal “falta de imaginação” e acusa os professores, “que se queixam muito”, de terem “o único propósito” de “manter o status quo e ser um bocadinho mais bem pagos”. A falta de professores é antes “uma oportunidade”, segundo o próprio. Quem quer lucrar com a crise do ensino não esconde ao que vem.
Para justificar um novo paradigma para a educação, o economista vai buscar um velho argumento conservador. Diz que a missão do estado é “assegurar que todos os jovens têm acesso a uma boa educação”, “não é dizer que tem de fazê-lo através de escolas assim ou assado”. Esquiva-se assim de um debate fundamentalmente político sobre o ensino público: o que é que os alunos devem aprender?
O modelo de Pedro Santa Clara aparece delineado na entrevista: uma espécie de educação profissional, apoiada na inteligência artificial, que ignora o conhecimento geral porque, segundo o entrevistado, os alunos “estão a perder o interesse”. Ensinar os alunos a fazer, a trabalhar e a “resolver problemas” não a pensar criticamente e a aprofundar conhecimentos. Vale mais uma ajudante de inteligência artificial do que um livro de filosofia, segundo esse mantra.
Apesar de a TUMO e a Escola 42 não garantirem diplomas – sobretudo porque não cumprem critérios educativos – o líder dos projetos diz que se está “nas tintas”. Apenas lamenta o potencial “desperdício de talento”. É mais uma tentativa de descredibilização do sistema de ensino português, afirmando os seus projetos como outsiders.
Mas com tantas críticas ao sistema de ensino, Pedro Santa Clara não apresenta alternativa real a um ensino público gratuito e de qualidade. Apresenta uma espécie de banha de cobra – um projeto criado em laboratório e com pouca adaptação real. Bem financiado, funciona em condições específicas, mas não “escala” (para usar a linguagem do próprio) para o mundo real. Inofensivo como faits-divers, mas devastador para os professores e para a educação se fosse aplicado em massa. Impossível por definição – para angústia do seu “mentor”.