A tecnologia não nos salvará

07 de junho 2022 - 22:33

A internet nem sempre foi um espaço tóxico dominado por grandes empresas. Nesta entrevista, Paris Marx analisa como os novos bilionários se capitalizaram com recursos públicos, privatizaram a rede mundial de computadores e destruíram a sua promessa libertadora enquanto abriam caminho para a extrema-direita chegar ao poder.

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Elon Musk. Foto de Nerdiest/Jacobin.
Elon Musk. Foto de Nerdiest/Jacobin.

No fim do mês passado, o bilionário mais rico do mundo, Elon Musk, esteve no Brasil a prometer soluções para monitorizar a floresta Amazónica e interligar escolas através da Internet. Mas tudo não passou de pura propaganda: se o governo Bolsonaro quisesse realmente monitorizar as queimadas na Amazónia – que estão a bater recorde a cada ano do seu governo – não teria desmontando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), nem repassado a tarefa ao Centrão para implantar um “kit de robótica” sobrefaturado.

Para desbaratar esse jogo de cena, Sofia Schurig, repórter da Jacobin Brasil, conversou com Paris Marx para falar sobre o seu podcast, Tech Won’t Save Us [A Tecnologia Não Nos Salvará], onde instiga o público a pensar criticamente sobre o papel das tecnologias com que convivemos no dia-a-dia, a indústria da tecnologia e os seus bilionários, assim como os meios de transporte, o tema principal do seu novo livro Road to Nowhere: What Silicon Valley Gets Wrong about the Future of Transportation [Estrada para lugar nenhum: o que o Vale do Silício não compreende sobre o futuro do transporte] que será publicado pela editora Verso no segundo semestre deste ano.

Paris é doutorando na Universidade de Auckland no Canadá em Meios de Comunicação, Cinema e Televisão e escreve regularmente sobre tecnologia, meios de comunicação social e, sobretudo, o futuro, tendo muitos trabalhos publicados na revista Jacobin em diversos idiomas — inclusive em português.


Como começou o podcast Tech Won’t Save Us?

Já queria começar um podcast algum tempo antes da pandemia, mas um dos problemas é que viajava muito e não sabia como fazer coisas essenciais para um podcast – como editar. Quando a pandemia veio e estávamos em confinamento, sabia que ficaríamos no mesmo lugar por muito tempo. Decidi que não havia um momento melhor para começar. Comecei em abril de 2020. Fico muito feliz por ter feito isso porque, durante a pandemia, não vi e nem conheci tantas pessoas quanto normalmente, então foi uma ótima forma de entrar em contacto e conhecer pessoas novas, além de ter uma ampla conversa sobre tecnologia de maneira crítica.

Durante estes dois anos, o podcast cresceu de uma forma impressionante, uma dimensão que certamente não esperava quando o iniciei. Comecei como um projeto pessoal porque já escrevia sobre tecnologia há alguns anos e senti que não havia uma grande perspetiva crítica sobre ela, especialmente no mundo dos podcasts. Muitos podcast de tecnologia são positivos e até apologistas, fazendo com que os seus ouvintes fiquem felizes com lançamentos de produtos e equipamentos, enquanto o meu pede para que as pessoas pensem de forma crítica sobre as tecnologias com que interagimos diariamente, aquelas com as quais podemos nem saber que interagimos todos os dias e a própria indústria da tecnologia, que concentra um imenso poder em moldar a sociedade em que vivemos.

 

Tem algum tema preferido para o podcast dentro da temática da tecnologia?

Existem alguns tópicos a que eu tenho que voltar sempre porque acredito que eles são tanto importantes quanto ilustrativos do que a tecnologia está a fazer e como a devemos compreender. O primeiro é entender a história destas tecnologias e da sua indústria, e tentar entender quais as lições que podemos tirar disso, porque acredito que um dos problemas que temos hoje, e é algo que o próprio Vale do Silício promove, é ignorar a história a não ser que ela beneficie as empresas. Então acredito que compreender a história desta indústria, como ela foi construída e como ela não reflete as narrativas que normalmente recebemos destas grandes empresas porque não serve a sua narrativa, como o facto de que, nos Estados Unidos, a indústria foi fundada a partir de investimento público, particularmente do Exército. Isso fica de fora porque eles preferem fingir que o seu legado veio do livre-mercado e do espírito empreendedor. Ao mesmo tempo, lembrar a história de oposição a essas tecnologias que, novamente, é esquecida.

Além disso, interesso-me pelas formas como tecnologia é usada para explorar as pessoas, sejam trabalhadores ou o público geral, algo que é, de muitas formas, fácil para nós esquecermos, ignorarmos ou não percebermos, porque essas questões podem estar escondidas até na tecnologia em si.

Outro tema a que sempre volto é a crítica aos bilionários da tecnologia. Pessoas como Jeff Bezos e Elon Musk são tópicos frequentes de conversa no podcast, o que não quer dizer que tenhamos vários programas onde só falamos sobre eles e ignoramos os problemas mais profundos. É falando sobre os problemas mais complexos que esses bilionários tendem a aparecer porque são muito influentes no modelar da indústria e das suas tecnologias.

Esses são os pontos-chave a que volto sempre, mas o podcast atualmente tem mais de cem episódios e consigo explorar diversos campos diferentes.

 

Uma prefeitura no Brasil realizou a sua primeira assembleia pública no metaverso em todo o país. Em casos como este, além dos problemas éticos, quais são os problemas técnicos, como espionagem ou hacks?

Sinto que deveria estar chocado com isso, mas, ao mesmo tempo, não estou, porque essa prefeitura certamente não é o único governo tentando embarcar na onda de popularidade do metaverso. Seul, na Coreia do Sul, está a tentar transformar o metaverso em algo grandioso e as Bahamas disseram que colocariam uma embaixada no metaverso — o propósito disso também não ficou muito claro.

Faz parte dos governos que tentam aparentar ter um pensamento futurista adotando novas tecnologias, tentando atrair investimento e atenção. É uma tática muito comum que vemos também em governos que adotam e expressam interesse em criptomoedas e até em governos que expressaram interesse nos túneis da Boring Company, do Elon Musk, que supostamente deveriam ser uma solução para tráfego e transporte, mas que são um pequeno parque de diversões para adultos que gostam da Tesla.

É fascinante falar sobre isso e quando se trata do metaverso, nele existem diversos problemas sérios, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Existem muitas preocupações sobre o envolvimento governamental tão rápido e se deveríamos estar a ter assembleias, especialmente algo que envolva informação sensível, num espaço como o metaverso onde qualquer coisa pode ser rastreada e gravada. Não acho que tenhamos as mesmas restrições de segurança de outros locais.

Também não é a primeira vez que isso acontece. Quando o jogo Second Life era popular, há muitos anos, os governos faziam a mesma coisa e as universidades estavam a criar campus no jogo, para mostrar que todos eles tinham uma mentalidade futurista e sabiam mexer com a tecnologia inovadora. E hoje todos esses espaços estão abandonados porque a tendência passou.

Acredito que se há governos animados com o metaverso, isso é um indício de algo muito preocupante que mostra uma mudança nos tipos de assuntos que eles estão a aceitar e que estão até dispostos a promover, assim como as criptomoedas. Estão mais ou menos a ajudar a promover o avanço da capitalização, comodificação e comercialização das nossas vidas, porque no fim de contas, o objetivo dessas empresas de tecnologia é encontrar novas formas de consumir, gerar dados, e, potencialmente, fazer trabalho digital com condições miseráveis.

Existe uma série de preocupações. Tenho certeza que o que essa prefeitura fez é, infelizmente, só o começo de algo maior, onde governos tentarão associar-se ao metaverso — especialmente se ele se tornar algo mais popular, a fim de parecerem inovadores e atrair investimento, ou até atenção da indústria da tecnologia.

 

Acha que o envolvimento de países no metaverso pode acabar por salvar parte da reputação do Facebook, agora Meta, depois da publicação de documentos internos no Facebook Papers?

É uma pergunta difícil mas não acho que vá. O primeiro problema é que o metaverso certamente está a ser promovido pelo Facebook mas não é uma coisa onde só esteja envolvido o Facebook. Existem diversas empresas que estão a promover o conceito do metaverso e diferentes visões para o que o metaverso poderá ser — empresas como a Microsoft, Nvidia, Epic. Existem empresas enormes que estão a tentar impulsionar o metaverso.

Mesmo que o Facebook seja, na minha opinião, a empresa mais visível entre essas e a que está a fazer o maior esforço para construir o metaverso, não acho que isso salve a sua reputação. Porque, além disso, não é claro se o metaverso será algo que realmente irá descolar como conceito ou que durará a longo prazo. Agora, o Facebook está certamente a fazer uma grande aposta e existem muitas outras empresas que usam essa linguagem para animar e conseguir investidores e aumentar o seu valor no mercado acionista, mas, novamente, ainda não é claro se consumidores e utilizadores irão comprar e querer envolver-se com essa tecnologia. Além disso, ainda não é certo que a tecnologia esteja nem pelo menos perto do nível em que precisaria estar para algo como o metaverso realmente funcionar da forma que Mark Zuckerberg promove. Ainda pode demorar muito mais tempo a chegar aí – mais tempo do que Zuckerberg e os seus engenheiros queiram ou do que estão a sugerir ao público.

Por outro lado, não é só porque o Facebook está a promover o metaverso que isso significa que o escrutínio sobre as suas plataformas de redes sociais vai cessar. Recentemente, saiu a notícia de que o Facebook teve, pela primeira vez na sua história, um declínio de utilizadores ativos e o valor da empresa desabou após isso. Há coisas que estão a acontecer no segmento das redes sociais do Facebook para tentar descobrir qual será o futuro dessas plataformas e se elas devem continuar a aumentar o envolvimento mesmo que o número de utilizadores comece a decair.

Até há o potencial para que os efeitos sociais do Facebook se agravem, já que a empresa está tão focada em tentar espremer lucro e envolver mais as pessoas. As tendências negativas dessa plataforma podem piorar devido a esse processo e levar a uma situação em que a única solução real seria a regulação e algum tipo de autoridade contra o Facebook. Ainda não é claro se o governo dos EUA ou outros governos que têm o poder para fazer isso tomarão a iniciativa e as ações necessárias. Vemos agora algum movimento nesse sentido nos EUA mas o país possui um sistema político complicado e até antiquado que pode em alguns momentos fazer com que coisas necessárias sejam muito difíceis de alcançar.

Precisamos ver o que irá sair disso mas dificilmente as pessoas começarão a gostar mais do Facebook somente porque existe agora um produto novo e brilhante na montra.

 

Como é que as tecnologias estão a ser tomadas pela extrema-direita para propaganda ideológica?

É importante entender a forma como as tecnologias que usamos foram moldadas ao longo do tempo por políticos de direita e pelo capitalismo para servir as necessidades do sistema, facilitando a sua adaptação pela extrema-direita. Por exemplo, se olharmos para quando a Internet foi difundida no fim da década de noventa, havia muitas narrativas de que ela seria algo desafiador para o poder do Estado e um espaço onde o Estado não teria papel — algo muito libertário e havia muitos ideais de direita investidos nisso também. Como resultado, mesmo que a narrativa inicial fosse que a Internet seria um local onde poderiam ser formadas comunidades e as pessoas poder-se-iam conectar de uma forma que não podiam no passado, o que realmente vemos é que, ao expulsar o Estado e remover sua governança, isso abriu espaço para que as empresas e corporações pudessem efetivamente dominá-la.

Vimos isso com a plataformização da internet. Atualmente, quando entramos online, não visitamos vários sites diferentes onde tentamos conseguir informações ou em fóruns para interagir, mas normalmente utilizamos o Google para conseguir informações, o Facebook para interações sociais e um pequeno grupo de plataformas e páginas. Isto acontece devido à forma como as empresas dominaram a Internet e a adaptaram para produzir lucros para si mesmos e fazer com que ela servisse os seus interesses em vez de qualquer tipo de interesse público. Também é importante compreender que a Internet foi fundada e criada pelo governo dos EUA antes de ser privatizada em 1995.

Tudo isto é para dar um contexto histórico para entender onde estamos hoje. Ao longo de várias décadas, podemos ver como o Facebook ajudou na verdade a extrema-direita a ampliar os seus discursos. E não digo isto só porque esteja do lado da esquerda mas sim porque é algo que se pode ver ao olhar para os relatórios sobre que pessoas e páginas recebem mais interações da plataforma, normalmente são influencers e meios de comunicação de direita.

Ao mesmo tempo, pode-se observar, através da divulgação de discussões internas da empresa, que há um esforço explícito em garantir que o conteúdo de direita não seja suprimido ou tratado como outros quando há desinformação e questões semelhantes. Eles foram bem sucedidos em construir a narrativa de que os seus conteúdos são suprimidos nas redes – algo que é apenas uma repetição do que diziam décadas antes sobre os meios de comunicação social mainstream – fazendo com que os executivos do Facebook e de outras empresas de redes sociais evitem tomar medidas contra os discursos de direita para não irritar grandes vozes destes movimentos nos EUA e outros países. Houve reportagens sobre isso na Índia e certamente também devem existir no Brasil.

Mas tudo isso não chega ao ponto dos NFTs e criptomoedas. Existe muito material sobre como a direita se envolveu com as Bitcoin desde o início e como a própria base ideológica para a fundação das criptomoedas vem a partir de ideais de direita sobre dinheiro, a economia em si e pessoas como Friedrich Hayek, um proeminente neoliberal. Como a direita se envolveu muito brevemente com as Bitcoins como forma de fugir às normas dos sistemas bancários, conseguiram lucrar imensamente com o crescimento do valor das criptomoedas. Naturalmente, isso deu-lhes mais recursos para espalhar mensagens de extrema-direita.

No Canadá, recentemente tivemos um grande movimento da extrema-direita e do movimento anti-vacinas chamado “Freedom Caucus” no decurso do qual foram a Ottawa, a capital, e a ocuparam por algumas semanas. Depois do GoFundMe ter fechado a página de financiamento coletivo do movimento – que estava a receber muitos donativos de pessoas de direita, especialmente dos EUA – trocaram a sua forma de recolha as bitcoins para burlar os serviços de regulação de transferência de dinheiro e conseguir dinheiro de outra forma. Vemos uma conexão muito forte entre o movimento crescente das criptomoedas e a direita, a extrema-direita em particular. David Golumbia, um académico dos EUA, delineou essas ligações num livro chamado A Política do Bitcoin: Software como Extremismo de Direita.

 

Se fossemos reconstruir as tecnologias atuais para terem um viés socialista, como faríamos?

É uma pergunta difícil, já que estamos neste sistema capitalista que é extremamente poderoso e possui muito controlo sobre as nossas vidas. A capacidade de o desafiar, pelo menos na América do Norte, está enfraquecida neste momento, no sentido em que as organizações e estruturas de poder capazes desse desafio foram desgastadas ao longo das décadas – e estão agora a ser reconstruidas. Ainda há bastante trabalho para ser feito para criar os recursos necessários para combatê-los, especialmente porque sabemos que as grandes empresas de tecnologia são controladas por monopólios enormes com bastante poder em si mesmos e influência sobre as pessoas que governam.

Existem muitas coisas promissoras em que pensar. Há discussões atuais sobre legislação anti-monopólio nos EUA, algo que quebraria essas empresas ou pelo menos lhes iria colocar restrições. Apesar de não acreditar que essa seja a bala de prata que resolveria os nossos problemas, é um passo muito importante, uma vez que se restringe o poder e o crescimento dessas empresas e potencialmente desativa alguns dos seus negócios nas linhas de produção.

Em parte, também é importante imaginar como a tecnologia pode ser utilizada de forma diferente e como ela pode servir diferentes funções além de um modelo de lucro para as grandes empresas de tecnologia. Isso pode ser difícil de se imaginar em alguns momentos.

Por um lado, há o pensamento sobre como as tecnologias já existentes podem ser orientadas e readaptadas para objetivos positivos. Aplicações de entrega poderiam ser algo além de uma economia precarizada onde os trabalhadores são muito mal pagos os e restaurantes têm altas taxas. Poderíamos reexaminar para que eles passassem a servir o bem-comum e a estar ligados com serviços de alimentação pública – garantindo que as pessoas estejam devidamente alimentadas, especialmente nos casos dos idosos ou pessoas com liberdade motora restringida. Também poderíamos conectar tais aplicações ao serviço postal que promove o comércio local ao invés de grandes monopólios económicos como a Amazon. Mas existem formas de pensar que vão muito além disso.

Podemos pensar sobre qual papel o Estado e as empresas públicas podem ter em criar tipos de interfaces tecnológicas, serviços tecnológicos e softwares. Ao invés de precisarmos depender de serviços privados como o PayPal para processamento de dinheiro e transferências, isso poderia ser um serviço e aplicativo público. Ou, ao invés de todos precisarmos utilizar o Microsoft Word e pagar uma certa taxa anual para a empresa, poderia existir um processador de escrita público e gratuito.

Pensando mais além disto e no mundo das redes sociais, acredito que continuaremos a usar a Internet para nos ligarmos de alguma forma, então até que ponto poderíamos imaginar um novo tipo de plataforma de rede social para comunicação online que não seja focada nas interações e aumento dos lucros publicitários mas em valores sociais positivos como a educação e a comunidade – e como isto afetaria a própria criação e design das plataformas e da tecnologia para encorajar um inusitado tipo de vivência que não é focado no lucro mas em valores que devemos promover em nossa sociedade.

 

Como vê a corrida tecnológica entre a China e os EUA na próxima década?

É difícil dizer até onde ela realmente irá.

Por um lado, acredito que a China está a fazer bons e importantes avanços ao desenvolver a sua capacidade tecnológica e a atingir um nível de inovação que certamente preocupa os EUA – que vê a sua superioridade tecnológica a ser ameaçada por uma potência global, em termos geopolíticos. A China está a desenvolver ações interessantes para regular e tomar iniciativa sobre a sua indústria de tecnologia doméstica devido a alguns problemas com as suas empresas de serviços financeiros como a Alipay e também contra empresas de serviço terceirizado e o que elas fazem com os seus funcionários. Essas ações são, acima de tudo, direcionadas a produtos e indústrias mais voltadas ao consumidor e há um foco em promover o lado manufatureiro e inovador da tecnologia – empresas como a Huawei não estão a ser afetadas por essas sanções, por exemplo.

No outro lado, temos os EUA. É justo dizer que conhecem as dificuldades da sua hegemonia global por causa da China e se sentem muito ameaçados. Então, estão a tentar dar o primeiro passo numa nova Guerra Fria ou, pelo menos, tomar ações hostis contra ela numa tentativa de limitar a influência geopolítica e tecnológica chinesa no mundo. Há muitos novos acordos entre a China e governos na África, Ásia, Pacífico e até mesmo na própria América Latina. Portanto, é preciso dizer que a influência global chinesa está a crescer em contraponto a decaída de influência dos EUA.

Com isso, também vemos que a indústria tecnológica chinesa está a desafiar os EUA no campo das telecomunicações, como com a Huawei, mas também na inteligência artificial e noutros importantes progressos que estão atualmente a acontecer na tecnologia. A China também é líder no que é chamado clean tech (tecnologia limpa), coisas como painéis solares, veículos elétricos e uma gama de coisas que serão essenciais para uma transição verde.

Os EUA estão a tentar isolar a China, mas, simultaneamente, ainda não conseguem se tornar completamente independentes dela, já que muitos dos bens importados para os EUA vêm da China, criando uma dependência que nunca houve com a União Soviética, por exemplo. Também é honesto dizer que o foco do Vale do Silício em criar aplicações e serviços orientados para o consumidor – focados em explorar mão de obra barata e expandir a conveniência – provavelmente não foi a melhor decisão para tentar manter os EUA como principal criador tecnológico e líder mundial da inovação, já que a China também está a investir bastante nesses serviços.

Onde isto vai chegar é algo difícil de dizer. Acredito que a China continuará a crescer e a sua influência mundial a aumentar, enquanto o poder dos EUA e seu status de hegemonia continuarão a declinar. Não iremos ver o desenvolvimento e progresso tecnológico chinês a ser travado. Ele só continuará a crescer por causa do investimento e foco financeiro em coisas que os EUA estão a ignorar nas últimas décadas.

 

Em dezembro do ano passado, seis trabalhadores morreram num armazém da Amazon após serem impedidos de voltarem para as suas casas no meio de um furacão. O modelo de negócios que “mata o trabalhador” está a expandir-se de uma maneira na qual bilionários como Jeff Bezos acreditam nem ser mais necessário esconder coisas como esta?

É extremamente preocupante. O reconhecimento do tipo de modelo de negócios da Amazon definitivamente cresceu nos últimos anos a partir do foco nos seus armazéns e como eles funcionam – as altas cotas de produtividade, altos números de acidente de trabalho, funcionários a urinar em garrafas. A morte recente destes trabalhadores realmente mostrou o grau de falta de importância do trabalhador, são vistos somente como uma parte do processo em entregar mercadorias para consumidores. Não existe uma visão dos trabalhadores como seres humanos.

É difícil dizer como a Amazon sente necessidade de se apresentar perante a opinião pública mas é interessante dizer que toda a vez que algo assim acontece, os porta-vozes da empresa dizem que se sentem muito mal pelo ocorrido, ou fingem que nada disso realmente é um problema, como fizeram com a questão de funcionários que tinham de urinar em garrafas plásticas – até que as provas foram expostas e eles precisaram fazer uma retratação.

É muito preocupante e acredito que a única coisa que poderá mudar alguma coisa é a sindicalização, já que tenho cada vez menos fé de que o governo dos EUA irá atuar de forma mais rápida do que a organização dos trabalhadores.

 

Elon Musk foi acusado, novamente, de criar um ambiente de trabalho racialmente segregado. Qual é a sua opinião sobre isso e acredita que esse processo irá para frente?

Essas acusações acontecem há alguns anos. Envolvem, por exemplo, acusações de que pessoas negras são submetidas a insultos; escritos racistas nas casas de banho; que a própria gerência faz parte do problema e que, quando isso foi levado ao Elon Musk, ele enviou um e-mail aos trabalhadores pedindo que tivessem “uma pele mais grossa” – literalmente dizendo que deveriam apenas aguentar isso enquanto estão no trabalho.

Sei que já houve dois casos onde foi sentenciado contra a Tesla que funcionários negros estavam num ambiente de trabalho discriminatório. Este foi só um caso maior contra um departamento específico na Califórnia e o seu ambiente de trabalho.

O ponto mais importante que podemos tirar de tudo isso é o contraste da imagem que podemos ter de Elon Musk – ou pelo menos tínhamos há alguns anos atrás – como um tipo progressista que está a tentar salvar o mundo com carros elétricos. Essa imagem era bastante promovida durante os anos 2010 mas começou a mudar durante a era Trump. Agora vemo-lo abraçar figuras da extrema-direita, opor-se a medidas restritivas de contenção do coronavírus, opor-se vigorosamente à taxação de bilionários e uma série de outras coisas preocupantes. Dizer a funcionários que eles deveriam ter uma “pele mais grossa”, mostra-nos que a imagem que tínhamos dele nunca foi verdadeira e sempre houve problemas na superfície escondidos e os meios de comunicação social optaram por não prestar atenção porque queriam que Musk se tornasse essa grande figura heroica.

A segregação racial e tantos outros problemas na Tesla não são novos, a questão é que com o passar dos últimos anos eles finalmente ganharam a atenção que deveriam ter tido há bastante tempo.

 

O que pensa sobre Musk se ter tornado num motivo de inspiração, e até idolatria, de muitos jovens, especialmente os da nova geração que estão entrando no mundo das criptomoedas?

É preocupante quando qualquer pessoa admira Elon Musk, sejam pessoas mais novas ou mais velhas, não só pelo tipo de pessoa que ele é, mas pelas ações tomadas por ele e a forma como os seus fãs ou admiradores tentam diminuir a problemática dessas ações. Ele não só comanda um ambiente de trabalho abusivo segregado racialmente e contra sindicalizações, mas a SpaceX também é um péssimo ambiente. É dito que funcionários são levados ao burnout porque são empurrados até ao limite por pessoas como Musk.

Acredito que ele também possui uma influência negativa no público geral, como quando questiona a ciência por trás de medidas de saúde públicas para impedir a transmissão do coronavírus, como as vacinas. Vimos recentemente na sua empresa Neuralink, que ambiciona criar um implante cerebral para dar o poder de controlar coisas mentalmente e até afirma ter o poder de “consertar” certas deficiências, que os macacos de laboratório eram excessivamente mal-tratados e estavam a sofrer imensamente devido às experiências.

Voltando à Tesla, os produtos que eles lançam são de muito pouca qualidade em termos de engenharia e o seu sistema de direção autónomo é extremamente perigoso quando testado em estradas públicas – tendo já ocorrido diversos acidentes, até mesmo fatais. A preocupação é que as pessoas veem Elon Musk como uma figura inspiradora e que deve ser emulada, e como resultado, todas essas coisas negativas que eles fazem são subestimadas. Existe uma certa ideologia por trás dele, onde todas essas coisas horríveis são aceites e ele pode acumular 200 mil milhões de dólares, simplesmente porque acredita que está a guiar a humanidade para o progresso e futuro da civilização humana. É preocupante que as pessoas comprem esse discurso, com tanto dano social, só porque querem idealizar o futuro.

 

Como Elon Musk está a destruir a estrutura ferroviária e a criar uma falsa utopia que somente o beneficia, através da Boring Company?

Eu diria que Musk não está necessariamente a destruir a infraestrutura ferroviária, mas o seu projeto é criar uma narrativa de não ser preciso uma estrutura ferroviária pública, ou modernizar as já existentes, porque a solução será o uso de carros. A sua ideia é que não é mais preciso um transporte público e coletivo porque a solução para todos os problemas que temos hoje são os carros elétricos, já que eles seriam a solução para problemas de todos os tipos – desde as mudanças climáticas até ao trânsito através da Boring Company que quer criar túneis subterrâneos.

Qualquer pessoa que tenha o menor entendimento de planeamento público se mobilidade urbana sabe que essas ideias não fazem o menor sentido.

Podemos ver que. ao falarmos de problemas causados por automóveis, como problemas ambientais, o alto custo para os motoristas e até mesmo o grande número de mortes em acidentes, não são coisas que possam ser resolvidas por carros elétricos. Estes podem reduzir a pegada de carbono dos automóveis mas ao observarmos a infraestrutura automobilística e os impactos gerais, não podemos depender de carros elétricos e carros feitos para comboios. Devemos investir em transporte público, construir e planear cidades que sejam densas onde mais pessoas estão vivendo, aumentar as ciclovias e a forma de transporte a pé, porque são essas coisas que resolverão os problemas fundamentais criados por carros.

 

Pode-nos falar sobre a premissa do seu livro Road to Nowhere [Estrada para Lugar Nenhum], que será publicado no segundo semestre deste ano?

O livro observa o que o Vale do Silício propõe para o futuro dos transportes, coisas como veículos elétricos, serviços de boleia, bicicletas e trotinetas, e até mesmo carros voadores – algo que a Uber chegou a propor ao Brasil. O objetivo é analisar essas propostas e mostrar o que está errado com elas. Estas empresas fizeram enormes promessas, mas estas não foram concretizadas e o impacto dessas tecnologias seria muito maior do que as suas promessas caso algum dia fossem cumpridas.

Ao reconhecer isso, somos naturalmente levados à questão: “mas qual é a alternativa?”. O livro, no fim, tenta responder a esta pergunta e delinear uma visão para o futuro do transporte público que realmente responde a problemas citados na obra – desde a desigualdade de transporte, aos problemas ambientais e aos próprios problemas causados por carros em nossas comunidades –, mas sem ignorar que expandir as linhas de transporte não é suficiente, porque se não ficaremos com os mesmos problemas criados pelo modelo neoliberal de transporte – onde os valores imobiliários aumentaram. O livro tenta aprofundar esses problemas e responder-lhes, analisando até mesmo a história dos meios de transporte e entendendo como chegámos a situação que estamos hoje. Para assim podermos usar essas ideias para imaginar um melhor futuro para o transporte.

O livro está focado nos EUA já que é lá onde muitas das ideias sobre transportes estão a surgir mas espero que, ainda sim, seja algo aplicável fora dos EUA, dado que estas soluções já foram propostas e exportadas por diversas ramificações do Vale do Silício e da indústria da tecnologia mundo fora.


Paris Marx é um escritor canadiano especialista em tecnologia. Apresenta o podcast Tech Won't Save Us e é autor do livro Road to Nowhere: What Silicon Valley Gets Wrong about the Future of Transportation (Verso, 2022).

Sofia Schurig é editora-chefe da revista O Sabiá e assistente editorial na Jacobin Brasil .

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