Está aqui

Metaverso: o mecanismo de reprodução do sistema capitalista

O Metaverso é a construção de um universo paralelo, onde a ideologia do mercado é a hegemonia indiscutível e o próprio ser humano é uma mercadoria. O seu impacto educativo é enorme. Poderia também ser usado para democratizar mais saberes, mas isso só acontecerá se entendermos que é um espaço em disputa. Por Luis Bonilla-Molina.
Reprodução do multiverso de Zuckerberg.
Reprodução do multiverso de Zuckerberg.

O que é o Metaverso?

O Metaverso é um espaço virtual repleto de conteúdos digitais onde se tenta replicar o mundo objetivo através da construção de uma nova subjetividade humana. O Metaverso é um novo desenvolvimento de programação de computadores, uso de algoritmos, realidade aumentada, inteligência artificial, big data, processamento de metadados em tempo real, interação de avatar, lógica sequencial e escalada dos jogo de vídeo. Uma guinada de 180 graus na forma como interagimos com o virtual. Até agora, o virtual significava uma desterritorialização das relações humanas, como a que realizamos nas redes sociais, através do estabelecer de vínculos, interações, diálogos e formação de grupos constituídos por afinidades e não por pertença a lugares específicos. Mas até agora, essa imersão no mundo virtual era parcial, tendo o mundo real como âncora, uma expressão do que os indivíduos foram, são e projetam ser.

A nova desterritorialização que o Metaverso expressa como processo atua como uma rutura do equilíbrio cognitivo entre objetividade e subjetividade. A realidade concreta e tangível dá lugar a outras realidades, que exigem uma nova forma de situar o indivíduo face ao quotidiano, ao tempo e ao espaço.

A virtualidade rompeu a frágil barreira entre o público e o privado. Desde a sua chegada, as rotinas, os protocolos, a atuação do indivíduo e da sua família passaram a ser de domínio público. Eventos tão íntimos como a celebração de um aniversário, o início ou a dissolução de um relacionamento, uma meditação ou um funeral, tornaram-se de domínio público.

Este foi um passo necessário para a criação de avatares que interagem em realidade virtual, replicando de forma confiável os traços identitários e comportamentais de cada indivíduo. É como perder a modéstia para se despir em público, aprender a conviver e interagir com a intimidade do resto da população. Quem não “se despe” em público torna-se suspeito ou ancorado no passado, reformulando antigas conceções coloniais de inclusão e exclusão.

A lógica do “gostar” (clicar no botão “like”) transforma o ser humano numa mercadoria preocupada a cada dia, a cada hora, a cada minuto, com o número de visualizações ou interações que suas publicações têm nas redes.

Esta alienação, típica da biopolítica do capitalismo na quarta revolução industrial, cria uma nova ética de especial importância para a sociabilidade do Metaverso. A alienação expressa na separação artificial entre realidade tangível e realidade virtual, coisas que podemos fazer num mundo e não no outro, cria uma ética dual. Se entendermos a biopolítica como uma profunda alienação em cada ato da vida, teríamos que apontar que, na quarta revolução industrial, estão a ser geradas novas formas de dissociação esquizofrénica, que não apenas alteram valores, mas também modificam a ética humana que caracterizou o capitalismo industrial.

Assim, a sociabilidade entra num terreno de semi-barbárie, com limites contextuais virtuais ou presenciais, que apontam para a necessidade de um consenso que não tenha como parâmetro nenhuma racionalidade conhecida. É como o universo da série “Arcane: League of Legends” (série animada franco-norte-americana que estreou na plataforma Netflix em meados de 2021), onde a ética pragmática da sobrevivência e dominação, da cidade de baixo e da cidade de cima pode justificar qualquer ato.

Um monstro chamado Facebook

Mariana Mortágua

Os valores reconfiguram-se, moldados pelo mercado para além das religiões, filiações partidárias, crenças ou culturas que costumavam ser os modelos dos indivíduos e grupos, reconfigurando-se permanentemente pelas tendências que se apresentam no virtual.

Assim se constroem as condições de possibilidade para a criação dos Metaversos, hoje popularizados com a versão Meta. O Metaverso de Zuckerberg é, na verdade, um desenvolvimento lógico e esperado do capitalismo cognitivo.

O Metaverso do criador do Facebook é um espaço onde se tenta recriar o mundo objetivo mas também mundos particulares. Neles se procurará modificar radicalmente as noções de sociabilidade, participação política e social, cidadania, consumo, criação e reprodução cultural que conhecemos.

Assim como criamos hoje um nome de usuário e uma senha nas redes sociais, o Metaverso exige a criação de um avatar pessoal, que nada mais é do que uma versão dúbia de cada um de nós. O avatar absorve a nossa identidade até se tornar uma réplica de cada um, capaz de atuar de forma autónoma ou guiada num universo em que milhões de seres humanos estarão vivendo essa dualidade.

Isso é complementado com o trabalho que vem sendo realizado por Ray Kurzweil, Bill Gates e centenas de laboratórios que tentam criar a técnica que permita transferir a memória e a consciência humana para entidades que integrem a vida biológica com a tecnologia, algo que hoje parece ser coisa de ficção cientifica.

Em termos tangíveis, o Metaverso implica submergir os nossos sentidos e racionalidade numa “nova” realidade aumentada, onde os limites da condição humana podem ser transgredidos, criando um novo mercado de necessidades renovadas e de mercadorias imateriais.

O Metaverso é a construção de um universo paralelo, onde a ideologia do mercado é a hegemonia indiscutível do seu funcionamento, onde o próprio ser humano é uma mercadoria, capaz de rentabilizar cada ato de sua vida. Ele abre caminho como uma realidade social concreta, independentemente do sucesso do formato promovido por Zuckerberg. Por isso, hoje falamos de metaversos como possibilidades de especificar novas formas de controlo, dominação, exploração e alienação que o capitalismo cognitivo da quarta revolução industrial exige.

Quem dirige o Metaverso?

A resposta ingénua seria apontar que o Facebook ou Mark Zuckerberg detêm esse controlo. Na realidade, a proposta do Facebook é a mais conhecida das múltiplas iniciativas convergentes em que o capital tecnológico transnacional tem vindo a trabalhar para expandir as fronteiras conhecidas do modo de produção capitalista.

O(s) Metaverso(s) são formas inovadoras de geração de mais-valia, a partir da própria imaterialidade da virtualidade. Devemos entender essa proposta no contexto da construção capitalista do mundo.

Nessa perspetiva, infelizmente concretizou-se aquilo para o qual se tem vindo a alertar e que tem sido denunciado desde 2015 sobre a construção de um cenário de Apagão Pedagógico Global (APG), que nada mais é do que a passagem abrupta ao mundo do virtual, como uma alfabetização mundial que abrisse as portas para os desenvolvimentos tecnológicos virtuais e digitais que o capitalismo promoveu na transição entre a terceira e quarta revoluções industriais.

O Big Metabrother

Francisco Louçã

O que aconteceu durante a pandemia foi a construção da hegemonia em escala planetária sobre as possibilidades do virtual e do digital no quotidiano do mundo capitalista e principalmente na esfera educacional.

O setor de tecnologia obteve lucros milionários durante os dois anos da pandemia. Por isso, Bill Gates anuncia, já em 2022, que “a digitalização veio para ficar”, sabendo que a realização de todas as possibilidades do Metaverso ainda levará alguns anos, talvez uma década, daí que comecem com a socialização progressiva de suas possibilidades.

O Metaverso é impulsionado pelo capital tecnológico internacional, alinhado com a construção da sociedade capitalista do Século XXI promovida pelo Fórum Económico de Davos. Obviamente, esta iniciativa gera contradições intercapitalistas, cujas expressões estão além dos limites deste artigo, mas que precisam ser mencionadas, pois o sucesso ou fracasso da estratégia do capitalismo tecnológico dependerá da sua resolução.

Matrix como um curso introdutório ao Metaverso

Nas últimas semanas, a quarta parte da saga criada pelas irmãs Wachowski (ambas transgénero) na qual o protagonista (Keanu Reeves) de dia é Thomas Anderson e de noite é o hacker Neo, junto com Trinity (Carrie-Anne Moss) e Morpheus (Laurence Fishburne e Yahya Abdul-Mateen II), o Agent Smith (Hugo Weaving) entre outros se rebelam contra o adormecimento da consciência que é próprio da Matrix. Quando foi lançado o primeiro filme, em 1999, parecia apenas uma série de ficção científica, mas hoje está claro que é uma introdução social de conteúdos emergentes que devem ser assumidos rapidamente.

Em “Matrix Ressurrections” (o quarto filme) o problema não é a realidade paralela na qual Neo e Trinity acabam por navegar, dialogam inclusivamente com a parte obscura da rede, mas sim as máquinas inteligentes que já foram derrotadas na terceira parte. Nesse sentido, o filme cavalga o medo coletivo subconsciente de uma insurreição das máquinas, que aparecem como derrotadas, e deixa em aberto a possibilidade de “navegar acordado” na Matrix (Metaverso).

Neo, Trinity, Morpheus e a sua legião de guerreiros usam “avatares” digitais para navegar no mundo virtual, permitindo-lhes uma apropriação de uma potência digital que é impossível desenvolver apenas no mundo real. Se algo se assemelha à Matrix é o Metaverso da Meta, com a recriação do mundo material em que quase todas as leis físicas podem ser alteradas, manipuladas e usadas em favor de uma suposta “felicidade humana”, que nada mais é do que ciclos incessantes de repetição. Na Matrix, como no capitalismo como um todo, a repetição constitui uma de suas bases fundamentais.

Em Matrix, não há ricos nem pobres, as fronteiras das classes sociais são apagadas, com os conceitos efémeros de adormecidos e acordados. Nesse sentido, Matrix é útil para tentar afastar o Metaverso dos debates sobre acumulação capitalista, alienação, hegemonia, exploração, apropriação do excedente que são intrínsecos ao que está a ser proposto pela máquina ideológica promovida por Zuckerberg, Gates e outros, assim como a sua narrativa é complementar ao modelo de conexão universal à internet que Elon Musk promove.

Se, em 1999, Matrix parecia apenas entretenimento, no ano de 2021, no contexto da pandemia da Covid-19, que forçou o mundo a mergulhar na vida virtual-digital, o filme torna-se um curso introdutório sobre as novas possibilidades de interação social, onde a ideia de progresso tecnológico é apresentada como superação das diferenças de classe social.

Possibilidades económicas do Metaverso

Quando Mark Zuckerberg anuncia a criação do seu Metaverso, na realidade referia-se à sua versão desse mundo virtual, porque já existem iniciativas metaversianas como o Roblox, Minecraft, Second life, Decentraland, The Sandbox, Crypto Voxels, Somnium Space e Star Atlas. Nessas plataformas de Metaverso pré-existentes ao seu Meta, as atividades comerciais são realizadas de duas formas: a primeira, por meio de moedas que só são intercambiáveis nessa realidade virtual (Roblox, Minecraft e Second Life) enquanto noutras (Decentraland, e Star Atlas) elas são feitas através da compra e venda de ativos virtuais, que podem ser trocados livremente pelo dólar norte-americano.

Os Metaversos são formas de mercantilização de metadados e a sua análise através de inteligência artificial. Não são plataformas ou páginas da web, mas sim uma arquitetura tecnológica cujas tarefas centrais são a modelagem de novas formas de consumo, apropriação de mais-valia pelo centro capitalista em plena quarta revolução industrial. A partir da lógica de consumo, todos os proprietários e consumidores do mundo real são tratados no Metaverso como potenciais investimentos e compradores digitais.

Além disso, a aceleração da inovação está a criar de facto novas formas de apropriação simbólica e material do conhecimento, inacessíveis à maioria. Só uma elite sabe criar essas coisas, assim o que sobra é consumir sem alterar o sistema. De facto, está a ocorrer uma privatização brutal do conhecimento tecnológico e operacional.

O Metaverso não é um fim em si mesmo, mas um passo no caminho para a construção de um novo modelo de sociedade de controlo mental e vigilância do pensamento. Os nossos avatares, em permanente movimento e reprodução do ser, também podem se tornar projeções holográficas do que se pode esperar de cada indivíduo.

Estamos às portas de um novo modelo de sociedade capitalista, de controlo, vigilância, sobre-exploração do trabalho e aumento desenfreado de novas formas de consumo. O Metaverso de Zuckerberg visa ampliar as possibilidades de investimento de capital, pelo menos nestes aspetos:

A compra de ações da empresa base, neste caso a Meta.

A compra das criptomoedas que serão utilizadas neste mundo virtual, que deve cumprir todos os protocolos da blockchain. Estas criptomoedas ir-se-ão revalorizar à medida que participem em atividades comerciais no Metaverso. O mesmo acontece com a compra e venda de terrenos, ativos e passivos virtuais, bem como personagens e/ou a manutenção dos próprios avatares avançados, através do formato Non-Fungible Tokens (NFT).

No passado, houve grandes compras de terras (NFTs) no Decentraland: por exemplo, 16 hectares no valor de um milhão de dólares. De facto, o anúncio do Meta gerou um investimento crescente nos outros Metaversos.

Em 2 de dezembro de 2021, Brian Quarmby apontou que, nas duas semanas anteriores, os NFTs se tornaram a nova mercadoria de interesse dos detentores de criptomoedas.

A Sandbox registrou em novembro um volume de vendas de 86,56 milhões de dólares, a Decentraland registrou 15,53 milhões, enquanto a CrytoVoxels e a Somnium Space geraram 2,68 milhões e 1,1 milhão de dólares, respetivamente. Empresas como Shiba Inu anunciaram o lançamento em 2022 da sua versão do Metaverso.

No entanto, esses números são ofuscados pelos lucros que o Facebook obteve desde que anunciou o lançamento do seu Metaverso. No último trimestre de 2021, as ações do Facebook Meta subiram 1,5% e registaram lucros de 9 mil milhões de dólares nesse período, parte importante deles decorrente do lançamento do Meta.

O Facebook está a começar a anunciar lojas virtuais de roupas e outras mercadorias como parte da versão 1.0 do seu universo. Mas este é apenas o começo de uma nova carreira na comercialização da vida cívica. Os Metaversos mostrarão que o virtual e o digital são um aspeto central na estratégia económica do capitalismo no Século XXI.

A escola/universidade no Metaverso

Nesse contexto, começa a ser visto o esboço do impacto do modelo Metaverso na agenda educacional. A alfabetização forçada que ocorreu em matéria digital e virtual entre os anos de 2020-2021 é essencial para compreender os esboços de Metaverso que se constroem na educação. Vejamos alguns aspetos educacionais que começam a ser trabalhados pelo capitalismo tecnológico para apresentar um modelo metaversiano de educação no médio prazo:

Infraestrutura escolar: Constitui um dos grandes problemas financeiros e orçamentais da massificação educacional. Na América Latina, a degradação dos estabelecimentos educacionais tornou-se um problema sério. Esta situação pode mudar se os governos neoliberais interessados em reduzir os “custos educacionais” determinarem o número de alunos que podem migrar progressivamente da presencialidade para o virtual.

O custo de construção de escolas, colégios e universidades presenciais poderia ser reduzido em 60% no mundo virtual. Escolas concluídas, escolas secundárias bem dotadas, universidades com os espaços necessários para suas atividades seriam apresentadas como NFTs educacionais. Esta seria uma nova forma de apropriação dos orçamentos públicos educacionais pelas indústrias de tecnologia, especialmente aquelas que desenvolvem propostas metaversianas.

O Metaverso pode abrir caminho para instituições de ensino que abrigam alunos e professores de diferentes nacionalidades num mesmo espaço, elevando a desterritorialização e globalização cultural a uma nova fase. Infelizmente, os estudos alternativos neste campo, numa perspetiva emancipatória, são praticamente nulos. Isto é especialmente perigoso para a construção de resistências eficazes.

Insistimos que o mundo virtual e os desenvolvimentos digitais devem-se tornar espaços de disputa.

As associações e sindicatos de professores devem trabalhar na criação de escolas de formação nesta área e de equipes de construção de alternativas se quisermos travar a destruição em curso do ensino presencial.

Currículo aberto, flexível e contextual: Este é um problema prático das instituições educacionais e da prática docente no quadro da escola capitalista das três primeiras revoluções industriais. A curricularização das pedagogias transformou parte importante do corpo docente em administradores curriculares, acostumados a trabalhar com um programa.

Plano de estudos e desenho curricular pré-estabelecidos. O planeamento de ensino (diário, semanal, anual) atua como uma reificação do trabalho pedagógico. Apesar das declarações proclamatórias contra essas práticas, é muito difícil romper com elas em termos práticos.

O Metaverso propõe solucionar este estrangulamento, definindo metas por períodos e contextos perdendo o perfil de graduação sentido a longo prazo. O capitalismo cognitivo da quarta revolução industrial está interessado em resultados de curto prazo que o modelo educacional metaversiano em construção possa cumprir.

Outro aspeto que a globalização neoliberal levantou, e que os sistemas escolares nacionais não puderam desenvolver plenamente, foi a universalização e padronização da aprendizagem de acordo com as exigências do modo de produção.

O currículo nacional ou regional contrariava essa possibilidade. O modelo curricular aberto e flexível que a virtualidade pode desenvolver possibilita isso, e também o encontro de alunos e professores com desenvolvimentos de ensino-aprendizagem semelhantes em espaços desterritorializados. Um novo conceito de objetivos educacionais, sem as barreiras de territórios, culturas nacionais ou local, idade, pode ser desenvolvido no Metaverso.

Materiais didáticos: A maioria dos materiais didáticos disponíveis nas instituições de ensino são bidimensionais e alguns tridimensionais. O Metaverso educacional poderá desenvolver materiais que, no virtual, dão a sensação de possuir as propriedades, dimensões e características do mundo real, com os quais se pode aprender através da melhor abordagem possível. Será possível interagir com pirâmides, cascatas, florestas, avatares de povos ancestrais, episódios históricos, formas de vida biológica, elementos químicos e físicos em condições impossíveis de se fazer na realidade. Nos próximos anos começaremos a ver esses desenvolvimentos “educacionais” que capturarão outra parte importante do orçamento público para a educação.

Inter e transdisciplinaridade: A exigência da terceira revolução industrial de formação transdisciplinar e interdisciplinar em relação dialética com a apropriação disciplinar, poderia ser desenvolvida de forma muito mais palpável no modelo educacional metaversiano. Aprender biologia, química, física, matemática, sociologia, ecologia, entre outros, numa réplica de realidade virtual aumentada da Amazónia, poderá fazer da transdisciplinaridade um facto quotidiano, algo que não acabou de emergir nas instituições educacionais presenciais.

Experimentação: O modo de produção capitalista exige que toda teoria possa ser expressa de forma prática na reprodução do sistema e na produção de conhecimento técnico que gere incessante aperfeiçoamento do modelo. Isto requer experimentação e estudos de caso, algo que é difícil de alcançar em instituições de ensino com equipamentos e instalações limitados. O Metaverso possibilita essa interação com NFTs, que não só não destroem, mas também aprendem com as interações melhorando permanentemente.

Avatares: A técnica de avatares permitirá que os alunos e professores com maior rendimento possam ser usados continuamente no Metaverso para apoiar processos educacionais de centenas e milhares de alunos. Não haverá períodos de descanso, férias ou descanso para esses avatares, que vão absorvendo a identidade, capacidades e competências de cada um de nós. Isto terá um impacto importante na folha de pagamento dos professores e na transferência de recursos para eles. Outra forma de apropriação do orçamento educacional pelo capital tecnológico transnacional.

Formação de professores: Será um dos setores mais impactados a médio e longo prazo. Os centros de formação de professores mal desenvolveram páginas web 1.0, geraram conteúdo digital 2.0 e não terminaram ainda de entrar na web 3.0 com o desenvolvimento de plataformas virtuais, muito menos com a realidade aumentada ou com o Metaverso. O tempo e a brecha epistémica conspiram contra a possibilidade de resolver os problemas que crescerão no curto prazo.

A competitividade e rentabilização das boas práticas implicam que se abra o caminho para centrar a formação dos futuros professores na aprendizagem através de experiências de ligação entre o presencial e a virtuais, bem como no impacto da transferência de experiências para os avatares.

Modelos de educação em casa e educação bimodal sem uma dinâmicas simples de transição.

Relação com o campo do trabalho: Será central no desenvolvimento do Metaverso educacional. Os setores produtivos vão pressionar para impor a formação em inovação científica e tecnológica, com impacto direto em indústrias, como o modelo de educação Metaverso. Haverá uma tentativa de passar do modelo de competências para o modelo de formação por encargos dos chamados setores produtivos.

Isso não é novo. Desde 2010, Bill Gates vem argumentando que a educação universitária perdeu o seu sentido face ao surgimento de um novo modelo educacional baseado na digitalização e seu trabalho de acordo com a procura.

Apropriação do modelo de mercadoria imaterial: É muito difícil internalizar o conceito de imaterialidade como objeto de consumo. Por isso, o Metaverso começará com a roupa digital, o uso de avatares como mecanismo para as massas se apropriarem cognitivamente desta nova realidade. Pode-se trabalhar no mundo real ou no Metaverso, mas em ambos os casos os capitalistas tentarão apropriar-se do dinheiro que a classe trabalhadora obteve através de salários ou vencimentos. Isso tornará o imaterial quotidiano, algo no qual o modelo educativo metaversiano terá um papel central.

O sistema político do Metaverso: O Metaverso leva a abordar os problemas sociais, as desigualdades, como questões derivadas dos limites na programação e não das diferenças de classe. Nesse sentido, o universo metaversiano e a educação são ideologia em desenvolvimento.

Claro que o Metaverso é inatingível para a maioria da população mundial, que vive em situações de crescente precariedade, sem casa, luz, água, transporte, emprego, ligação à Internet ou equipamentos de conexão. O capital está a abrir as portas para um modelo brutalmente estratificante e segmentador, que deixará para sempre os pobres e deserdados fora dessa realidade.

Então, devemos destruir essa tecnologia ou apropriar-nos dela para produzir alternativas na medida do possível e mecanismos para eliminar aquelas que apenas nos permitem reproduzir o sistema de classes? A minha aposta é defender a presença em diálogo com o mundo virtual, digital e tecnológico. Os metaversos podem ser usados para democratizar muito mais saberes e conhecimentos, mas isso só acontecerá se entendemos que eles são um espaço de apropriação crítica e em disputa.


Luis Bonilla-Molina é doutorado em Ciências Pedagógicas e professor universitário, Diretor da Sociedad Iberoamericana de Educación Comparada. Membro do Conselho Mundial de Sociedades de Educação Comparada, instância consultiva da UNESCO. Coordenador Internacional da Rede Global/Glocal pela qualidade da educação.

Texto publicado originalmente em Estrategia.la. Traduzido por Victor Farinelli para o Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

Termos relacionados Sociedade
(...)