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Não precisamos de bilionários como Elon Musk

Se pensarmos na forma ideal de governar uma plataforma como o Twitter, ela não seria regida pelo homem mais rico do mundo. Artigo de Paris Marx.
Elon Musk. Foto de Thomas Hawk/Flickr

Na quinta-feira, dez dias após ter revelado ao público a sua participação de 9,2% no capital do Twitter, Elon Musk fez um ultimato: ou a administração aceita a sua oferta de compra da empresa por 43 mil milhões de dólares e a sua retirada da bolsa, ou ele "reconsideraria" a sua posição como acionista. Tal aquisição poderia ter enormes implicações na forma como comunicamos online e todo este caso apresenta questões preocupantes sobre o poder que Musk é capaz de ter sobre a nossa sociedade.

Apesar de todos os seus problemas, o Twitter é central para a vida cultural e política nos Estados Unidos e não só, e Musk é há muito um dos seus utilizadores mais proeminentes. Ele usa-o para pregar aos seus apoiantes fervorosos, atacar os seus críticos, manipular os mercados financeiros, e fornecer aos meios de comunicação social o alimento para clickbaits intermináveis. Mas a tentativa de usar o seu poder para capturar o Twitter e remodelá-lo para os seus próprios fins é um sério motivo de preocupação.

O que está na cabeça de Elon Musk?

Apesar da recente revelação da participação de Musk na empresa, ele tem vindo a comprar ações desde o final de janeiro. Em março, começou a criticar publicamente a empresa por supostamente limitar a liberdade de expressão. Musk adotou esta linguagem dos provocadores de direita a quem se associa cada vez mais, mas nenhum deles se preocupa verdadeiramente com a liberdade de expressão: só querem um discurso que sirva melhor os seus interesses. O próprio Musk tem um historial de difamação dos seus críticos, de banir os seus imitadores do Twitter, de despedir empregados que discordam das suas ideias, e até de ter, alegadamente, tentado incriminar um lançador de alerta como estando a preparar um assassínio em massa.

Horas após o anúncio da sua proposta de compra do Twitter, Musk apareceu no palco na conferência TED em Vancouver. Quando questionado sobre as suas intenções para o Twitter e a sua abordagem à moderação, deu uma resposta muito contraditória. Por um lado, apresentou uma visão do Twitter que seria algo parecido com o Gab ou o Parler, supostos paraísos de livre expressão que são mais parecidos com esgotos de direita. Por outro lado, disse que os moderadores humanos poderiam decidir o que é aceitável e que a plataforma deveria tentar eliminar os bots e os spammers.

Musk afirma que comprar o Twitter é proteger um espaço público virtual que é essencial para a democracia. No entanto, as plataformas de redes sociais têm provado ser melhores a amplificar as perspetivas dos nacionalistas brancos e abertamente fascistas do que a proporcionar um campo de igualdade para uma conversa fundamentada. Com a sua conceção distorcida da liberdade de expressão, porque devemos esperar que um Twitter liderado por Musk faça melhor?

Ao mesmo tempo, tudo isto pressupõe que Musk quer realmente comprar o Twitter. Sim, ele apresentou uma oferta e afirma que quer comprar. Mas Musk é um mentiroso compulsivo que se envolve frequentemente em acrobacias publicitárias para atrair atenção dos meios de comunicação social. Basta pensar no tweet "financiamento garantido" de 2018, onde Musk afirmou ter o dinheiro para tirar a Tesla da bolsa. Isto revelou-se falso - e deu início à sua constante disputa com a o regulador bolsista (SEC).

No caso do Twitter, as tentativas de Musk já se encontram em apuros e a estrutura da oferta de aquisição sugere que poderia ser uma saída para todo este caso desorientado. Musk enfrenta um processo judicial de acionistas porque era suposto reportar a sua posição na empresa até 24 de março - dez dias após ter atingido uma participação de 5% - mas não o fez até 4 de abril, o que significa que os acionistas potencialmente perderam mais de 100 milhões de dólares. A intervenção da SEC nessa frente ainda pode surgir. Os funcionários do Twitter também parecem estar irritados com a sua tentativa de adquirir a empresa, e dado que o preço das ações do Twitter caiu após a oferta de aquisição da Musk ter sido tornada pública, os investidores não parecem estar a levá-la a sério.

Para começar, Musk não tem os 43 mil milhões de dólares disponíveis para a compra. Ou precisava de vender uma parte significativa das ações da Tesla - o que poderia afundar a sua valorização inflacionada - ou pedir ainda mais emprestado dando-as como garantia. Além disso, embora a oferta de Musk de $54,20 por ação esteja acima do preço atual do Twitter, ele estava muito mais elevado no ano passado, e os investidores sentem que a oferta de Musk é demasiado baixa para ser levada a sério. Mas na sua carta de oferta, Musk afirma que é a sua "melhor e final" oferta, é "um preço elevado e os seus acionistas vão adorar", e se não for aceite, "teria de reconsiderar a minha posição como acionista".

É impossível entrar na cabeça de Musk para saber o que ele está a pensar - não tenho a certeza de querer sequer dar uma espreitadela ao que se passa ali dentro. Há certamente uma possibilidade de isto ser sério, e que a sua carta de oferta seja uma demonstração de arrogância por parte de um homem com uma riqueza virtualmente ilimitada e poucas pessoas à sua volta para o contrariar. Mas também há uma possibilidade de isto já ter corrido mal e ele já estar farto, pelo que apresentou uma oferta que sabe que a administração irá rejeitar e que lhe permitirá dizer que foi recusada. E entretanto, ele pode continuar a atacar a plataforma, em vez de recuar com o rabo entre as pernas.

O Mito de Musk

Seja qual for o resultado, todo este ciclo de notícias ilustrou ainda mais a relação pouco saudável entre os meios de comunicação social e o homem mais rico do mundo. Elon Musk não surgiu do nada. O mito do homem e a ideia de que ele é um visionário que nos conduz ao futuro foi construído pelos meios de comunicação social, criando uma relação mutuamente benéfica onde Musk obteve uma cobertura reluzente, permitindo-lhe fazer praticamente tudo o que quisesse, e os meios de comunicação social conseguiram uma figura inspiradora que vendeu revistas e atraiu leitores.

Mas como Musk passou de querido liberal a resolver a crise climática para o oligarca bilionário fazendo tudo o que lhe apetece - seja atacar os que exigem impostos mais elevados sobre os uber-ricos ou o fim dos subsídios que eram essenciais para o sucesso das suas próprias empresas - a contínua obsessão dos meios de comunicação social com ele tornou-se insalubre a ponto de ser corrosiva para a democracia.

Se pensarmos na forma ideal de governar uma plataforma como o Twitter, ela não seria regida pelo homem mais rico do mundo. Certamente, ter alguns regulamentos por parte de governos representativos poderia ajudar, mas numa sociedade verdadeiramente democrática, ela seria governada por utilizadores, trabalhadores, e outras partes interessadas.

No entanto, as intermináveis manchetes dos meios de comunicação social sobre cada ação de Musk levam-nos constantemente a focar-nos na sua visão sobre como a nossa sociedade deve ser gerida. Isso deixa-nos muito pouco tempo para reflectir sobre se uma figura como Elon Musk deveria sequer existir - e possuir uma plataforma de meios de comunicação social - de todo.


Paris Marx é apresentador do podcast Tech Won't Save Us e autor de Road to Nowhere: What Silicon Valley Gets Wrong about the Future of Transportation, a publicar em julho pela Verso Books. Artigo publicado em Jacobin. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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