Neste domingo, fez cem dias que a guerra no Sudão começou. Com as tentativas de mediação internacional a falharem e sem nenhum vencedor militar à vista, o conflito entre as Forças de Apoio Rápido do general Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti, e as forças armadas oficiais, lideradas pelo general Abdel Fattah Al Burhan, autor de um golpe de Estado em Outubro de 2021, continua sem fim à vista.
No terreno, a situação na capital, Cartum, continua confusa com pilhagens, com as FAR a dominarem no terreno e o exército a ter o controlo aéreo e um forte poder de artilharia. Os combates são também intensos na região do Darfur. Na cidade de Nyala há violentos embates nas zonas residenciais desde quinta-feira. A Reuters cita fontes médicas que referem a existência de pelo menos 20 mortes. No oeste do Darfur, a agência noticiosa internacional dá conta de ataques motivados por questões étnicas levados a cabo pelas FAR e por aquilo que descreve como “milícias árabes”.
Calcula-se que haja três milhões de deslocados internos, 700.000 dos quais se refugiaram nos países vizinhos. Oficialmente, o ministério da Saúde do Sudão indica a existência de 1.136 mortos, 2.000 feridos até 5 de julho mas várias associações humanitárias apresentam estimativas mais altas.
A Unicef, por exemplo, informou esta segunda-feira que lhe foi comunicada a existência de 435 mortes de crianças e 2.025 feridas, para além de 14 milhões a necessitarem de ajuda humanitária e 1,7 milhões de crianças deslocadas.
Ted Chaiban, vice-diretor executivo do Unicef para as ações humanitárias e operações de abastecimento, que está no país, considera que “a escala do impacto que este conflito teve sobre as crianças do Sudão nos últimos 100 dias é quase incompreensível”, avançando que “todos os dias, crianças são mortas, feridas e sequestradas” com “escolas, os hospitais e várias infraestruturas vitais danificadas, destruídas ou saqueadas”. Indica ainda que as crianças deslocadas estão “vulneráveis à fome, doenças, violência e separação das suas famílias”, havendo “relatos de sequestro, recrutamento de crianças por grupos armados, violência com alvos étnicos e violência de género contra mulheres e meninas também estão a aumentar com 4,2 milhões de mulheres e raparigas em risco de violência de género”.
O International Rescue Committe (IRC) também fez um balanço dos cem dias de conflito no qual destacou que as colheitas foram gravemente afetadas pela guerra, o que conduz a “ameaça crítica à segurança alimentar na região”.
A organização estima que 19 milhões de pessoas, 40% da população, já estão a sofrer de fome e que tal pode piorar para “uma catástrofe ainda maior” no início do próximo ano, sendo que a inflação nos preços dos alimentos, que se faz sentir a nível global, também pesará.
A diretora do IRC para o país, Eatizaz Yousif, explica que “a combinação da interrupção na agricultura, incluindo as sementeiras e as colheitas, o acesso limitado a recursos essenciais como fertilizantes, sementes e o deslocamento de mais de três milhões de pessoas criou uma tempestade perfeita para uma iminente crise de segurança alimentar”. Há “escassez de alimentos essenciais em todo o país” e “os efeitos cumulativos das contínuas interrupções das estações agrícolas e da disponibilidade limitada de alimentos levarão a mais desnutrição, fome e aumento da prevalência de doenças evitáveis”.
Massacres, violência sexual e "o pior ainda está por vir"
Outra instituição, o Conselho Norueguês dos Refugiados, produziu um relatório sobre estes cem dias de guerra no qual apresenta perspetivas preocupantes para o futuro, dizendo-se que “o pior ainda está por vir” com o “país à beira do colapso, enfrentando uma série de crises que, juntas, não têm precedentes” e com a ameaça de cheias com a chegada da época das chuvas.
O CNR revela que a guerra leva a “níveis catastróficos” aquilo que já era uma “esmagadora e vastamente negligenciada” crise humanitária. Contabiliza “pelo menos 3,1 milhões de pessoas que fugiram”.
O relatório denuncia a existência de vários massacres. “Pelo menos quatro episódios de assassinatos em grande escala foram relatados no Darfur Ocidental” e “pelo menos um massacre foi também noticiado no Darfur do Norte”. Isto para além de outros casos no Darfur do Sul, em Nyala, e no Darfur Central, em Zalengi.
Indica-se ainda um “número significativo de incidentes de violência sexual e de género, incluindo violação, agressão sexual e exploração sexual”.