Shell tenta comprar fim dos protestos da Greenpeace

11 de novembro 2023 - 19:38

Na disputa judicial por causa da ocupação pela Greenpeace duma plataforma petrolífera em fevereiro, a Shell propôs reduzir a indemnização pedida em troca do compromisso dos ambientalistas de nunca mais terem como alvo as suas instalações em todo o mundo.

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Ação da Greenpeace à chagada da plataforma a um porto norueguês em fevereiro
Ação da Greenpeace à chagada da plataforma a um porto norueguês em fevereiro. Foto Matthew Kemp / Greenpeace ©

Entre 31 de janeiro e 12 de fevereiro, seis ativistas da Greenpeace ocuparam uma plataforma petrolífera da Shell em protesto contra a exploração de combustíveis fósseis. A entrada na plataforma a bordo de um navio de 51 mil toneladas foi feita a norte do arquipélago das Canárias, com o apoio de barcos de borracha. A ocupação terminou com a chegada da plataforma ao porto norueguês de Haugesund, com os ambientalistas a desfraldarem uma enorme faixa onde se lia: "Parem de furar. Comecem a pagar".

A petrolífera avançou com uma ação judicial logo no dia 3 de fevereiro, ameaçando com multas pesadas e penas de prisão, a par do pedido de indemnização no valor de 120 mil dólares por alegados estragos causados pelos ativistas, que teriam "ilegalmente" montado painéis solares e uma turbina eólica a bordo da plataforma. Na véspera, tinha anunciado que os lucros de 2022 duplicaram os do ano anterior, o que levou a Greenpeace a fazer as contas e concluir que os 120 mil dólares exigidos eram o que a empresa tinha lucrado em "menos de dois segundos".

Mas com o passar dos meses a fatura dos supostos "prejuízos" foi aumentando, com a Shell a pedir 2.1 milhões de dólares e a sua parceira construtora da plataforma, a Fluor, a exigir 6,5 milhões de dólares para cobrir despesas com atrasos, segurança extra e custos legais.

Um porta-voz da Shell disse à agência Reuters que a empresa não põe em causa o direito a protestar, mas que entrar num barco em andamento no mar "é ilegal e extremamente perigoso". A Greenpeace respondeu que a petrolífera está a retaliar contra um protesto pacífico e que este processo tem como objetivo intimidar os ativistas para silenciar futuros protestos. E sublinha que este pedido de indemnização que totaliza 8,6 milhões de dólares constitui a maior ameaça legal com que a organização foi confrontada em mais de 50 anos de história.

Segundo o portal de notícias Quartz, a última mensagem dos advogados da petrolífera, em conjunto com a empresa que contratou, propôs a redução da indemnização para um total de 1,4 milhões de dólares. Mas a "generosidade" da Shell tem uma contrapartida: as organizações da Greenpeace teriam de firmar o compromisso de "nunca mais voltarem a fazer protestos nas suas infraestruturas, no mar, nos portos ou em qualquer parte do mundo", revela a organização ambientalista.

Na resposta, a Greenpeace diz que aceitará de bom grado a proposta, desde que a Shell se comprometa "a parar de destruir o clima, começando por cumprir a ordem de um tribunal neerlandês que exigiu  à empresa a redução das suas emissões em 2030 em 45%, relativas a 2019, em todas as suas atividades".

Yeb Saño, diretor executivo da Greenpeace no Sudeste Asiático e que já liderou a delegação das Filipinas em negociações em conferências climáticas mundiais, foi uma das pessoas que recebeu o navio na Noruega a bordo do navio Tanker Tracker e por isso é um dos alvos do processo da Shell e da Fluor. E reagiu assim à "oferta" da petrolífera: "A Shell está a tentar silenciar as minhas exigências legítimas: que ponha fim à sua corrida sem sentido e gananciosa aos combustíveis fósseis e assuma a responsabilidade pela destruição que está a causar ao mundo. Eu irei a tribunal e lutarei contra isto; e se a Shell se recusar a parar de perfurar, eu recuso-me a parar de lutar pela justiça climática".

Mas tudo indica que a administração da Shell não tem essa intenção. Pelo contrário, desde a chegada do novo CEO Wael Sawan que tem sido reforçada a aposta no petróleo e no gás e o seu responsável pela área das renováveis, Thomas Brostrom, contratado em 2020 à empresa de energia dinamarquesa Ørsted, bateu com a porta por entre críticas dos trabalhadores deste ramo da Shell sobre o recuo nas promessas de transição energética e o abandono de projetos importantes na área das renováveis.