Quando, em março de 2022, a gigante de petróleo e gás Shell foi apanhada a negociar petróleo russo barato. o então CEO da Shell, Ben van Beurden, pediu desculpas e prometeu parar de negociar todos os hidrocarbonetos russos. No entanto, não foi fixado nenhum prazo para parar os negócios com o gás. A Shell alegou que estava em causa a segurança energética da Europa.
A Global Witness lembra que, uma semana depois, o navio-tanque Grand Mereya partiu do imenso campo de gás russo Sakhalin, que a Shell ajudou a instalar. A carga do barco, de 140 mil metros cúbicos de gás liquefeito (GNL), não foi inicialmente vendida pela Shell, que também não foi o comprador final. Em vez disso, a empresa ganhou dinheiro ao longo do caminho, comprando e vendendo o gás antes de chegar ao seu destino final. Acresce que o Grand Mereya não se destinava à Europa. Acabou na China.
Na realidade, desde o início da guerra, a maior parte do GNL russo da Shell – 58% – não foi para a Europa, mas para o Médio Oriente e a Ásia. A Europa recebeu 38% do gás, uma parcela insuficiente para impedir o aumento vertiginoso das contas de gás impulsionadas pela concorrência internacional pelo combustível.
NEW Our latest investigation reveals that @Shell is estimated to have made 100s MILLIONS $$$ trading #RussianGas last year since the invasion of #Ukraine.https://t.co/Y0ARtlv7iL
— Global Witness (@Global_Witness) July 2, 2023
As exportações de GNL da Rússia estão a ajudar a financiar a guerra do país na Ucrânia e, em 2022, valeram cerca de 21 mil milhões de dólares. Poucas empresas ajudaram mais nesse comércio do que a Shell, e a Global Witness estima que a gigante petrolífera ganhou centenas de milhões a negociar GNL russo no ano passado.
De acordo com os cálculos da Global Witness, entre março e dezembro de 2022, a Shell foi fundamental para o comércio de GNL russo, comprando e vendendo 12% de todas as exportações, mais de 7,5 milhões de metros cúbicos do gás. Três empresas negociaram mais GNL russo do que a Shell, mas duas delas eram empresas russas que, provavelmente, produziram grande parte do gás comercializado: OAO Yamal e Sakhalin Energy.
Todo o GNL comercializado pela Shell foi comprado direta ou indiretamente à Yamal e Sakhalin. A gigante petrolífera é co-proprietária da Sakhalin, embora em março de 2022 a empresa tenha cancelado o projeto e acredite que o Kremlin tenha transferido os ativos da Sakhalin para uma nova empresa que não possui.
A terceira empresa que negociou mais do que a Shell foi a TotalEnergies, que é co-proprietária da Yamal, embora a empresa tenha cancelado o seu investimento em dezembro de 2022. Grande parte do GNL da Shell originado na Yamal foi negociado anteriormente pela Total.
Num comunicado sobre o petróleo e gás russo publicado no site da Shell, atualizado pela última vez em abril de 2023, a empresa disse que "interrompeu as compras à vista de GNL russo, mas ainda tem alguns compromissos contratuais de longo prazo".
A Global Witness estima que várias centenas de milhões de dólares da receita da Shell tenham origem na comercialização de GNL russo. Desde o início da guerra na Ucrânia, 8% do GNL comercializado pela Shell veio da Rússia, pelo que se pode presumir que 8% dos 5,4 mil milhões de dólares da Shell em margens brutas de GNL, o equivalente a cerca de 430 milhões, vieram dos negócios russos. No entanto, como os preços pelos quais a Shell comprou ou vendeu seu GNL, incluindo o GNL russo, não estão disponíveis, é impossível dizer com precisão quanto a Shell ganhou com os negócios russos.
Apenas no mês passado, quando as forças russas arrasaram a cidade de Bakhmut, a empresa comprou e vendeu quase 170.000 metros cúbicos de gás russo transportados pelo petroleiro Nikolay Zubov.
A Global Witness considera que não pode haver justificação para as empresas comprarem ou para os países importarem petróleo ou gás russo, incluindo GNL. E defende que a Shell, o Reino Unido e a União Europeia devem acabar com este comércio imediatamente. A organização não governamental frisa que os governos devem proibir as importações e o comércio de empresas com sede nas suas jurisdições, e que as empresas devem ser impedidas de lucrar com a guerra. A ONG propõe ainda que todos os lucros e dividendos recebidos por essas empresas desde o início da guerra devem estar sujeitos a um imposto de 100%.