Homenagem ao Padre Max e Maria de Lurdes

“Cristãos e socialistas precisam uns dos outros” para combater a extrema‑direita

16 de maio 2026 - 20:06

Na sessão de homenagem que assinalou os 50 anos do assassinato do padre Max e da estudante Maria de Lurdes pela extrema-direita bombista, José Manuel Pureza defendeu que “a luta pela paz é irmã da luta pelos direitos de quem trabalha”.

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José Manuel Pureza
José Manuel Pureza na sessão de homenagem ao padre Max e Maria de Lures, este sábado no Porto. Foto de Leonardo Faria.

Realizou-se este sábado no Porto uma sessão de homenagem promovida pelo Bloco de Esquerda para assinalar os 50 anos do atentado que vitimou o padre Max, então candidato nas listas da UDP às legislativas de 1976, e a estudante Maria de Lurdes perto de Vila Real. Um crime que ficou sem castigo, apesar dos tribunais não terem dúvidas em atribuir a autoria à organização da extrema-direita MDLP, criada por Spínola para atingir alvos da esquerda através do terrorismo bombista.

O auditório da Junta de Freguesia do Bonfim encheu para a homenagem ao padre Max e Maria de Lurdes.
O auditório da Junta de Freguesia do Bonfim encheu para a homenagem ao padre Max e Maria de Lurdes. Foto de Helga Calçada.

Na sua intervenção, o coordenador do Bloco de Esquerda destacou a importância da luta pela memória, que passa por “assumirmos que não há neutralidade na maneira como o país conta a sua história e que o futuro que queremos construir exige, sem medo, a verdade inteira sobre o passado”. Daí esta sessão pública não se tratar de um “ritual de homenagem fúnebre”, mas sim um local para contrariar a “ofensiva da desmemória” e afirmar que “a revolução foi um feita da entrega de homens e de mulheres que não quiseram promoções nem reconhecimento social, mas apenas uma transformação real e profunda da sociedade”.

José Manuel Pureza disse ter “a firme convicção de que o que os mandantes do assassinato de Maximiano de Sousa não lhe perdoaram foi o facto de ele ser católico e padre e de, como católico e padre, ter um assumido compromisso militante na esquerda revolucionária”, preferindo “estar com o povo e dar-lhe poder e esperança, em vez de domesticar a força do povo com medos de juízo final e ameaças de inferno”. Olhando para o mundo atual, cinquenta anos depois da morte do Padre Max, apontou Pureza, de Trump a Le Pen ou Meloni, “a estratégia da extrema-direita passa de novo por instrumentalizar o cristianismo, de forma aberta e agressiva”, contrariando os “compromissos centrais do Evangelho” como o cuidado com pobres, o acolhimento do estrangeiro, a justiça para os oprimidos e a coexistência pacífica.

O cantor José Silva interpretou algumas músicas de intervenção na abertura da sessão de homenagem.
O cantor José Silva interpretou algumas músicas de intervenção na abertura da sessão de homenagem. Foto de Leonardo Faria

Para vencer esta aliança entre a Internacional Reacionária e o integralismo cristão, José Manuel Pureza defende que é necessária uma aliança entre as forças da esquerda política e do cristianismo progressista. “Cristãos e socialistas precisam uns dos outros para um combate eficaz contra a base de classe, as estruturas de financiamento e a função ideológica da extrema-direita e contra as distorções que ela imprime ao que deve ser o compromisso dos cristãos”, afirmou o coordenador do Bloco.

Outro aspeto onde esta aliança é necessária é o da luta pela paz, que “é irmã da luta pelos direitos de quem trabalha e ambas devem animar a busca de convergências entre gentes de inspirações diferentes”. Uma luta que passa também pela denúncia das “cumplicidades com as estratégias de guerra e dos discursos de mentira que as animam”, prosseguiu Pureza, dando o exemplo da recente declaração do chefe da diplomacia dos EUA sobre os préstimos do Governo português na guerra ao Irão - respondendo que sim antes mesmo de saber o que lhe pediam - como a prova de que “a mentira governamental de que havia condições espartanas para o uso da Base das Lajes tinha pés de barro”.

José Castro, Manuel Pinto, José Manuel Pureza e Mário Durval
José Castro, Manuel Pinto, José Manuel Pureza e Mário Durval. Foto de Pedro Faria.

A sessão de homenagem - a publicar em breve no podcast Mais Esquerda - contou com abertura musical a cargo do cantor de intervenção José Silva. Além do coordenador do Bloco de Esquerda, intervieram também o antigo dirigente da Juventude Escolar Católica Manuel Pinto, partilhando alguns episódios da militância comum nos meios estudantis católicos, o presidente da Associação Política UDP Mário Durval, que evocou “dois heróis da luta popular” tornados símbolos do partido e leu um poema da sua autoria, “Sementes de Abril”, escrito para uma homenagem a Max e Maria de Lurdes. Interveio também o jurista e ex-preso político José Castro, que acompanhou os processos judiciais do assassinato e voltou a responsabilizar o Estado por não ter tido vontade de fazer a investigação desde o início e a evocar “a coragem cívica na luta pela democracia e contra o regime fascista” do advogado Mário Brochado Coelho, que ao longo de décadas foi incansável para que fosse feita justiça quanto aos assassinatos do padre Max e Maria de Lurdes”.