O artista João Abel Manta marcou o panorama das artes gráficas portuguesas na segunda metade do século XX, com desenhos e cartoons publicados na imprensa, fintando a censura vigente na ditadura e depois do 25 de Abril acompanhando a situação política. Entre os mais populares destacam-se o cartaz “MFA, Povo”, com um soldado e um camponês lado a lado e que se tornou um ícone da Revolução, ou o cartoon “Um problema difícil”, em que coloca figuras como Lenine, Trotsky, Mao, Estaline, Fidel Castro, Karl Marx e Jean-Paul Sartre e muitos outros a olharem para um quadro preto com o contorno de Portugal desenhado a giz.
Filho dos pintores Abel Manta e Maria Clementina de Moura, João Abel Manta formou-se em Arquitetura e começou a desenhar para a imprensa no final dos anos 1940. Ligado ao MUD Juvenil, aos 20 anos foi preso pela PIDE e partilhou cela na prisão de Caxias com o pintor Ernesto de Sousa.
Antes de trocar a arquitetura pelas artes gráficas, desenhou escolas, projetos de habitação em Lisboa como os prédios da Avenida Infante Santo, em parceria com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, co-assinando também o projeto do complexo da Associação Académica de Coimbra.
O cartoon e a caricatura ganham relevo na sua obra a partir nos anos 1960, no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, com críticas ferozes à ditadura de Salazar e Caetano, prosseguindo após a Revolução em publicações como O Jornal. “Como cidadão achava que tinha obrigação de utilizar aquilo que eu sabia para defender as minhas opiniões ou auxiliar em certas coisas. […] Não sou capaz de escrever, mas faço bonecos”, disse João Abel Manta numa entrevista conduzida por José Jorge Letria em 2010.
São da sua autoria as ilustrações do livro de José Cardoso Pires publicado em 1972, “Dinossauro Excelentíssimo”, satirizando a ditadura e a chamada “primavera marcelista”. E em 2016, numa reedição com apenas 500 exemplares de "Memorial do Convento" de José Saramago, ficou cumprido o sonho do autor em contar com ilustrações de João Abel Manta, neste caso 20 ilustrações inéditas a quatro cores.
A partir de 1982, João Abel Manta afasta-se dos cartoons e passa a dedicar-se sobretudo à pintura. Mas a. sua obra passou também pela tapeçaria, colagens, gravura, azulejo, arte pública e cenografia para teatro.
Premiado em 1957e 1961 nas exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1967 na Bienal de Tóquio, Abel Manta foi agraciado com a Ordem da Liberdade e a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Na sua nota de pesar, o Presidente da República descreve-o como “um historiador em movimento e nada lhe escapou do que estava a mudar ou prestes a mudar-nos”.
“Os seus retratos e caricaturas ou a sua capacidade de captar pormenores e de os transformar em grandes emblemas de um momento histórico, fazem de João Abel Manta um dos artistas mais populares do nosso país até hoje”, sublinhou António José Seguro.
O coordenador do Bloco de Esquerda também prestou homenagem ao artista nas redes sociais. “Imortalizou a revolução a partir da esperança, da transformação e das suas contradições. Nas décadas seguintes, continuou a contribuir persistentemente para a crítica que faz a democracia valer a pena. João Abel Manta fez da cultura uma revolução e fará falta nas revoluções da cultura que estão por fazer”, afirmou José Manuel Pureza.
Este domingo, entre as 11h30 e as 12h45, será possível prestar homenagem ao artista no crematório do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, indicou ainda fonte familiar.