Neste dia 2 de abril passam 50 anos de um dos atentados sangrentos da extrema-direita portuguesa, executado quatro meses após o 25 de novembro. O alvo do atentado foi o padre Maximino Barbosa de Sousa, de 32 anos, afastado do sacerdócio duas semanas antes pela hierarquia católica por ser candidato da UDP às eleições que teriam lugar a 25 de abril de 1976. A outra vítima da explosão da bomba colocada no automóvel onde seguiam era Maria de Lurdes Correia, estudante de 17 anos e ativista da Juventude Escolar Católica que acompanhava Max nas aulas de alfabetização na aldeia da Cumieira.
Para além de alfabetizar a população das aldeias, Max acompanhava as lutas estudantis do distrito e a organização de trabalhadores de várias empresas. Ainda antes do 25 de Abril, ajudou a organizar a greves que levaram à jornada de oito hora de trabalho dos trabalhadores agrícolas em Sabrosa. Para a sua formação política terá contribuído o facto de estar em Paris com a família emigrada durante o Maio de 68, que viveu intensamente.
A sua intervenção política e social colocou-o na lista de alvos a abater pelas forças ligadas à ditadura fascista e que se reagruparam após a Revolução em organizações como o MDLP, de Spínola e Alpoim Calvão, com o apoio de setores da Igreja Católica onde pontificava o cónego Melo, em Braga. Os operacionais eram recrutados entre os comandos, alguns com ligações à FNLA de Angola e ao regime franquista.
O carinho da população de Vila Real pelo padre Max, independentemente das opiniões políticas de cada um, ficou bem patente no funeral de Max e Maria de Lurdes, que juntou vinte mil pessoas e fechou o comércio da cidade, num acontecimento inédito e um sinal claro de repúdio pelo terrorismo fascista. Ali apareceu pela primeira vez uma frase muitas vezes repetida nos últimos 50 anos: “Não vos mataram, semearam-vos”.
“Confesso a minha dificuldade em usar a expressão “padre”, bem como “de esquerda”, para a figura do nosso Maximino. Para mim, Maximino Barbosa de Sousa foi (e não foi pouco…) um cristão de corpo inteiro. Tal como Jesus de Nazaré, que virou as costas à sua Igreja, assim o fez o Max”, disse ao Esquerda.net em entrevista em 2021 o médico Paulo Bateira, que conheceu Max em atividades da Juventude Escolar Católica.
Um crime sem condenados
Os autores do atentado ficaram impunes e para isso contribuiu a investigação policial que se seguiu ao crime. Anos depois ficou evidente que na PJ do Porto da altura se moviam figuras ligadas a este setor da extrema-direita e que tudo fizeram para sabotar a investigação e impedir que se chegasse à verdade. Foram muitos os que não desistiram de a encontrar, destacando-se o advogado Mário Brochado Coelho que acompanhou o caso ao longo de décadas, conseguindo levar os cabecilhas e operacionais a julgamento, acabando absolvidos em 1999 por falta de provas, mas com o juiz a dizer-lhes ter ficado convencido do seu envolvimento no atentado.
No banco dos réus sentaram-se Rui Castro Lopo, Alcides Pereira, Válter dos Santos e Alfredo Vitorino, todos membros do MDLP, como autores materiais do atentado. O processo foi arquivado e reaberto por três vezes, contando também como arguidos o cónego Melo, o ex-conselheiro da Revolução José Canto e Castro e Carlos Paixão como alegado executor, todos denunciados por elementos da rede bombista.
Apesar de enterrado na justiça e com alguns dos protagonistas já desaparecidos, a tarefa de saber quem assassinou o padre Max e Maria de Lurdes não está concluída. Numa entrevista feita em 1979 mas apenas publicada em 2014 no livro “O Puto”, do jornalista Ricardo Saavedra, o ex-comando da FNLA e membro da organização terrorista CODECO, Manuel Gaspar, diz ter sido o autor do atentado a mando de um membro do MDLP e do CDS que fazia segurança ao general e então deputado do CDS Galvão de Melo, entre outras figuras. Contou ter posto a bomba no interior do carro de Max com Carlos dos Santos Favas, outro ex-comando da FNLA e dos CODECO, após um encontro em Vila Real com aquele segurança, Carlos Alberto Ribeiro, e outros dois operacionais.
Nesta versão dos factos, a vigilância às rotinas do padre tinha sido feita por Ramiro Moreira. Este operacional do MDLP viria a ser condenado a 21 anos de prisão por um atentado realizado no mês seguinte ao de Max e Maria de Lurdes. Desta vez a bomba explodiu numa residência em São Martinho do Campo, no concelho de Santo Tirso e a vítima foi Rosinda Teixeira, esposa do alvo do atentado, o operário têxtil e sindicalista António Teixeira. Também aqui, nem o mandante nem o operacional deste assassinato da extrema-direita acabaram presos. Ramiro fugiu para Espanha sem cumprir a pena e foi indultado em 1991 por Mário Soares, regressando a Portugal. A justiça chegou a acusar o industrial têxtil e comendador Abílio de Oliveira como o mandante do crime cometido a 21 de maio de 1976, mas acabou absolvido.
Entre maio de 1975 e abril de 1977, a rede bombista da extrema-direita matou mais de uma dezena de pessoas e organizou centenas de ataques com explosivos, incêndios e assaltos a sedes partidárias, sindicais e associativas. Os seus autores nunca foram castigados pela justiça.