MAX

porLuís Fazenda

02 de abril 2026 - 9:35
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O facto de o atentado ter ocorrido no próprio dia em que foi aprovada a Constituição de 76, 2 de Abril, só com o voto contra do CDS, não pode ser lido como uma mera coincidência. Foi a extrema-direita a manifestar-se contra o regime democrático, a mesma extrema-direita que hoje ocupa posição na Mesa do Parlamento e quer ocupar também no Tribunal Constitucional.

Nos anos 70 e 80, partilhei ação política com sacerdotes católicos, ligados à UDP e independentes. Todos se reviam em geral na Teologia da Libertação que se tinha desenvolvido nos países latinoamericanos, A Teologia da Libertação advoga a ação preferencial pelos pobres. Foi banida pelos Censores do Vaticano, a começar por Ratzinger, que viria a ser Bento XVI, por "incentivar a luta de classes" e só voltaria a ser tolerada com o Papa Francisco.

Sempre me apercebi que estes padres divergiam da análise marxista em alguns pontos e discordavam dos fundamentos filosóficos do materialismo dialético, mas isso não impedia uma perspetiva revolucionária comum de superação do capitalismo. Esses diálogos entre a Fé e a Dialética foram férteis na agitação social. Hoje, que novos setores católicos se aproximam do marxismo na Europa, é útil esta memória tão vibrante, na sequência da revolução dos cravos em Portugal.

Assim também pensava Maximino Barbosa de Sousa, um padre transmontano com família emigrada em França, que viveu intensamente o Maio de 68 em Paris. Catapultou essa abalo dos alicerces do capitalismo para Vila Real e arredores. Max ligou-se à luta dos trabalhadores. Quando, em 78, organizei uma reunião do sindicato agrícola em Covas do Douro, Sabrosa, soube que poucos anos antes do 25 de Abril, Max tinha estado na origem das greves que levaram à jornada de oito horas de trabalho.

Entre 74 e 76, quando o MDLP o matou à bomba, Max acompanhava a organização e luta dos trabalhadores rodoviários de duas empresas, dos trabalhadores de um supermercado, de professores, de operários da construção, de camponeses pobres. Dava aulas gratuitas de Português a trabalhadores-estudantes da Escola Industrial. Max ligou-se à luta dos estudantes. Exerceu forte influência nas lutas do Magistério Primário e do Liceu, onde ele próprio pertencia, como professor, a uma comissão de gestão eleita. Estes movimentos de jovens dirigiam-se contra o caciquismo fascista, largamente predominante na região.

Os fascistas colheram a vida do Padre Max e de Maria de Lurdes Correia, que com ele regressava, num automóvel armadilhado, de uma aldeia onde alfabetizavam povo rural.

O funeral de ambos, em Vila Real, foi uma impressionante manifestação de muitos milhares de pessoas e até o comércio fechou na cidade. O repúdio popular mostrou aos fascistas que o povo não aceitaria o terrorismo reacionário. Foi há cinquenta anos.

Poucos dias antes da sua morte, Max interveio no Congresso da UDP, no Coliseu de Lisboa. Parafraseou o estribilho de uma canção infantil para dizer que "se um elefante incomoda muita gente, um padre pela UDP incomoda muito mais" - ele sabia que era uma seta apontada à reação nortenha.

Não foi por acaso que os delatores da rede bombista apontaram  Alpoim Calvão como mandante do atentado. O capitào de mar e guerra Alpoim Calvão, braço direito do Marechal Spínola e estratega do MDLP, foi acusado pelo Ministério Público de responsável pelo atentado. O Tribunal não conseguiu provar a sua autoria moral, bem como a do Cónego Melo e do Major Canto e Castro. Bem como não conseguiu provar a culpa de quatro autores materiais. Contudo, a sentença é bem clara ao atribuir a ação criminosa ao MDLP. Esta organização terrorista, "movimento democrático de libertação de Portugal", foi fundada pelo ex-presidente da república António de Spínola visando combater o comunismo e o socialismo por meios violentos. Estes bombistas tinham ligação à FNLA de Angola e ao regime franquista em Espanha, donde lhe vinham armas e fundos. Mesmo esta sentença judicial, apesar da ausência de condenados, pareceu impossível durante décadas.

A primeira fase da investigação foi uma farsa, porque se soube depois pelo processo da rede bombista, que o MDLP controlava a PJ do Porto. Fizeram desaparecer provas e criaram teorias descabidas de crimes passionais para denegrir a memória de mortos e caluniar vivos. A sentença só foi proferida em 99, depois de três arquivamentos. Deve recordar-se a incansável persistência do advogado Mário Brochado Coelho nesse desenlace, bem como alguns elementos do Ministério Público.

Se o silêncio da Igreja Católica foi de chumbo, apesar de ter suspenso o sacerdócio a Max quando foi candidato pela UDP à Assembleia da República, muitos jovens sacerdotes nos anos posteriores aos atentados ajudaram à democratização da região. Tive bem a prova disso quando em muitas aldeias do Douro esses padres não só falavam do exemplo de Max como anunciavam nas missas as reuniões do sindicato agrícola, no combate à exploração dos assalariados pelos agrários e pelas companhias do Port Wine. Outros amigos de Max como o Padre Mário de Oliveira, ou António Cabral, professor e escritor de Vila Real, deram testemunho dessa democratização.

O facto de o atentado ter ocorrido no próprio dia em que foi aprovada a Constituição de 76, 2 de Abril, só com o voto contra do CDS, não pode ser lido como uma mera coincidência. Foi a extrema-direita a manifestar-se contra o regime democrático, a mesma extrema-direita que hoje ocupa posição na Mesa do Parlamento e quer ocupar também no Tribunal Constitucional.

E na Constituição foram escritos pela luta do povo um manancial de direitos que eram a cara, a força, a generosidade, a razão de Max e Lurdes. Tal como dissemos há cinquenta anos: não vos mataram, semearam-vos!

Luís Fazenda
Sobre o/a autor(a)

Luís Fazenda

Militante do Bloco de Esquerda
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