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Se o fascismo e a Pide não nos derrotaram, não será este vírus a fazê-lo

Na prisão, foi no estudo que ocupei grande parte do tempo, já que, estando em isolamento, não havia ninguém para conversar. Passados 47 anos sobre essa data, também foi novamente o estudo que me ajudou e ajuda a ocupar o tempo. Por Alfredo Frade.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Se o fascismo e a Pide não nos derrotaram não será este vírus a fazê-lo 

Pedem-me testemunho sobre o confinamento obrigatório em tempos de pandemia comparando-o com a prisão política nas formas de ocupação do tempo. Apesar do contexto ser totalmente diferente há certamente algumas semelhanças. Vejamos algumas. No meu caso, que fui preso em 1973 entre Maio e Junho, há em primeiro lugar a coincidência da data e um facto que agora se repete.

Estava, nesse último 1º Maio da ditadura (a prisão decorreu de uma distribuição de comunicados contra a guerra e o fascismo mas alusivos à data), no 4º ano do curso de Medicina na Universidade de Lisboa. Havendo uma época de exames próxima, confesso que essa não era de todo a minha principal preocupação pois, como calculam, havia outras prioridades na altura. Por outro lado não sabia sequer o tempo de reclusão. Sendo o tempo de cadeia curto ainda consegui fazer os exames finais beneficiando de uma época especial a que muitos professores aderiram (nesse ano tinha havido muitas prisões) e passei para o 5º e penúltimo ano do curso. O 25 de Abril do ano seguinte salvou-me e a tantos outros da mais que certa incorporação na guerra colonial e da mais que provável deserção e partida para o exílio.

Passados 47 anos sobre essa data também foi novamente o estudo que me ajudou e ajuda a ocupar o tempo. De facto, estando agora a acabar a licenciatura em História de Arte na Universidade Nova de Lisboa também tem sido essa uma das minhas ocupações mais entusiasmantes. Além de apoiar os meus doentes (sou psiquiatra), assisto às aulas pela net e faço os trabalhos e testes, tudo a partir de casa como está determinado.

Se o fascismo e a Pide não nos derrotaram não será este vírus a fazê-lo. OBRIGADO À MARIANA E VIVA O 25 DE ABRIL.

Alfredo Frade
05.05.2020

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