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Representatividade: “Porque é que eu não posso interpretar uma personagem portuguesa?”

O festival IndieLisboa juntou os atores Ana Tang, Hoji Fortuna, Jani Zhao, Matamba Joaquim, Welket Bungué e a jornalista Paula Cardoso para discutir racismo e representatividade num debate online sobre o audiovisual português. Por Joana Louçã.
Conversa com o tema “Representatividade: o papel interno do audiovisual português numa mudança de paradigma”
Conversa com o tema “Representatividade: o papel interno do audiovisual português numa mudança de paradigma”

Está a decorrer a 17ª edição do IndieLisboa, Festival Internacional de Cinema Independente, em várias salas da cidade até dia 11 de setembro. Inseridas no festival, as LisbonTalks são debates sobre o cinema português e os focos e retrospetivas do festival. Este ano, os debates serão dedicados aos atores e à representação no audiovisual nacional.

Na terça-feira, em direto na página de facebook do Festival, decorreu uma conversa com o tema “Representatividade: o papel interno do audiovisual português numa mudança de paradigma”. Com a moderação e participação da jornalista Paula Cardoso (do Afrolink), o debate partia da ideia de que “falta trabalhar mais e melhor na representatividade no audiovisual português” para “entender o que precisa de ser mudado num sistema estruturalmente racista também por detrás da câmara”.

O diagnóstico partilhado pelos intervenientes é de falta de representatividade, com os papéis que surgem para atores e atrizes não brancas serem, na sua enorme maioria, papéis menores, estereotipados e bidimensionais. Hoji Fortuna (ator galardoado pela Academia Africana de Cinema) saiu de Portugal para trabalhar nos Estados Unidos e no Brasil porque “o tipo de trabalho que me era oferecido em Portugal não me fez sentir orgulhoso da profissão”. Empurrado para papéis de comédia, foi no estrangeiro que conseguiu obter papéis dramáticos. “Em 2016 com a campanha Oscars So White, a configuração dos personagens negros passou a ser mais humana”, mas em Portugal ainda não se vê essa mudança.

Ana Tang é atriz no Teatro Praga, participou nas séries da RTP “Sara” e “Sul”, já trabalhou em cinema e exemplificou “todos os castings para cinema que fiz são para papéis relacionados com uma etnia asiática”. Jani Zhao (atriz na série “Sul” da RTP, pertence à companhia de teatro Mala Voadora e também já trabalhou em cinema), optou por provocar a mudança: “quando percebi que só me chamavam para papéis estereotipados, decidi que não queria passar por esse caminho” e passou a recusar representar essas personagens. Os papéis que lhe eram atribuídos tinham muitas vezes uma justificação: “ou porque vem da China, de Macau, do Japão, ou porque está de passagem”. “Decidi que queria fazer parte da mudança, que eu sendo portuguesa nascida em Portugal de origem chinesa, como é que eu tinha que ter sempre uma justificação para existir? Porque é que eu, sendo portuguesa, não posso interpretar uma personagem portuguesa?”

“Temos um sistema intrinsecamente racista e representatividade e racismo estão de mãos dadas”, conclui Zhao. “Nós, artistas, temos de ter oportunidades de contar as nossas histórias, de retratar as nossas realidades, sejam elas quais forem. Um sistema que é só feito por homens brancos, escrito por homens brancos, faz com que haja uma desvantagem à partida”, acrescentou.

O ator e realizador Welket Bungué afirmou ainda que “a ficção nacional portuguesa não é representativa só porque traz a chinesa, a indiana, o preto, se esta ideia de representatividade estiver centrada numa ideia de esterotipização”. Enquanto profissionais e portugueses consumidores da cultura portuguesa, queremos ver histórias que tenham profundidade do ponto de vista humano, além de representatividade”, sublinhou Bungué. Foi esta falta de profundidade que levou Welket Bungué a começar a escrever.

Matamba Joaquim (ator e membro fundador do Teatro Griot, membro da Academia Portuguesa de Cinema e escritor) acrescentou que continua a haver “falta coragem da parte de quem escreve, é preciso propor coisas novas” e que “a falta de representatividade tem de ser colmatada desde a base”. “Temos de olhar para o passado com os olhos do futuro”, prosseguiu. “Eu gostava que o filme português escolhido para os Óscares nãos seja baseado nas descobertas, que tenha pessoas parecidas comigo, parecidas com a Jani e que sejam pessoas de pleno direito, sem se fazer referências ao passado” das personagens.

A primeira conversa foi dedicada às retrospetivas sobre Ousmane Sembène e ao 50º aniversário da secção Fórum do festival de Berlim (mais informação aqui). As conversas têm transmissão em direto no facebook do festival. No dia 2 de setembro às 17h será debatido o Humor no Cinema Português (com Duarte Coimbra, Ivo Canelas, Joana Barrios e Rita Blanco), no dia 3 de setembro às 17h30 o tema da conversa é “trabalho de atriz, trabalho de ator: uma conversa intergeracional”. Por último, no dia 4 de setembro será debatido o estado do meio audiovisual às 17h (com Catarina Wallenstein, Leonor Babo, Jo Monteiro e Joana Manuel). O programa do IndieLisboa pode ser consultado aqui.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
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