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A história de Cesina Bermudes é uma “ótima ferramenta para pensar o presente”

Em entrevista ao esquerda.net, Maria Mire fala sobre o filme que marca a sua estreia na realização. “Parto sem Dor”, em competição no Indie Lisboa e que será exibido na quinta-feira no Cinema São Jorge, é uma homenagem a Cesina Bermudes, médica obstetra, feminista e resistente antifascista. Por Mariana Carneiro.
Filme "Parto sem Dor", de Maria Mire.
Filme "Parto sem Dor", de Maria Mire.

O filme "Parto sem Dor" marca a sua estreia na realização e é apresentado como uma homenagem pessoal a Cesina Bermudes. Segundo sei, teve um primeiro contacto com Cesina antes sequer de conhecer a sua história. Pode falar-me um pouco sobre esse encontro?

Sim, cruzei-me de facto com a Cesina Bermudes de um modo acidental. No meio da década de 90 tínhamos ocupado uma casa na Avenida Santos Dumont, a qual ficou conhecida por “Casa Encantada”. Eram os primeiros dias da ocupação e estávamos muito envolvidos na limpeza do espaço e em nos apresentarmos aos vizinhos. Tínhamos inclusive distribuído um comunicado pelo bairro. Um dia estava numa sala do rés-do-chão, que dava diretamente para a rua, e oiço alguém a bater na vidraça. Quando vi uma mulher com cerca de 80 anos, apoiada numa bengala, o meu primeiro pensamento foi que iria ouvir um comentário hostil de alguém que não nos queria como vizinhos. Mas o modo entusiasta como nos felicitou, desarmou-me de imediato. Inclusive, na altura, confesso que fiquei um pouco paralisada pela surpresa.

Muito mais tarde veio a ler sobre esta médica obstetra que vivia nessa mesma rua. Como foi ser confrontada com o percurso de vida de Cesina Bermudes como primeira mulher a doutorar-se em medicina em Portugal, pioneira do parto sem dor, resistente antifascista… Foi instintivo associar esta importância histórica àquela mulher que um dia bateu à porta de uma casa devoluta recém-ocupada?

Não associei imediatamente que o artigo que estava a ler no Público era sobre a mesma pessoa. Foi um puzzle que se montou à medida que eu ia lendo o texto do jornal. Entre estes dois momentos existe um intervalo de 10 anos e durante esse tempo não tenho a consciência de ter perseguido essa memória. Aliás, a sensação que guardo do momento em que leio a história desta médica é, claramente, de uma epifania.

Quando iniciou este projeto existia outro tipo de pretensão para este filme, nomeadamente a realização de um documentário sobre a vida de Cesina, ou já tinha uma ideia concreta de qual seria a abordagem escolhida?

Este projeto, no seu início, era sobre o modo como a figura da feiticeira — personagem maldita, queimada viva e desprestigiada em múltiplas dimensões da vida — ainda era operativa para se pensar a representação social da mulher no século XXI. Aliás, na primeira versão do filme, a história da Cesina surgia entrelaçada com várias outras histórias. Contudo tive a necessidade de repensar por completo o filme, pois apercebi-me com o adensar da investigação que era incontornável que ela assumisse o protagonismo.

E como se familiarizou com a história pessoal, política e profissional de Cesina Bermudes? Ou seja, de que forma se preparou para este filme? E, nesse processo de investigação, o que mais a marcou e/ou o que mais a surpreendeu?

Foi uma pesquisa muito intensa, no sentido em que para além de procurar aceder e consultar inúmera documentação, tive a necessidade de confrontar essa informação com as pessoas que conheceram ou trabalharam com a Cesina. Pois, para além de existirem muitas lacunas na história que eu ia construindo, sentia que algo me estava a escapar constantemente. Esses encontros e conversas foram fundamentais, aliás revelaram uma espécie de novelo que se ia desembaraçando, pois normalmente uma conversa levava a outra, e eu ia seguindo essas pistas fascinada pelos caminhos a que o filme me estava a levar. Foi emocionante falar com um conjunto de mulheres na casa dos 80 anos e ouvi-las a percorrer as suas memórias, muitas delas ligadas ao período do Estado Novo e à resistência antifascista. Isso deu muita força ao processo de realização e também uma espécie de sentimento de urgência, pois senti-me comprometida em terminar e devolver-lhes o filme.

O que mais me surpreendeu foi ser-me revelado nessas conversas o imenso humor que a Cesina tinha e que usava até para retratar situações dramáticas, como a frase que utilizava para se referir ao período em que esteve presa: “foram as férias mais longas que tive”.

Acabou por optar pela criação de um diálogo direto com Cesina, o que nos transmite uma sensação de proximidade, cumplicidade. Isso terá a ver com o facto de Cesina também a representar, também nos representar, de as suas conquistas serem, de certa forma, as nossas conquistas?

Sim, sem dúvida. À medida que eu ia avançando na pesquisa, tornou-se claro que o filme não deveria ficar retido num único tempo histórico e que o seu eventual interesse era conseguir comunicar entre um período muito negro da história contemporânea portuguesa e a atualidade. Até porque o presente não é propriamente brilhante, pois a proliferação de certos discursos de intolerância obriga-nos a refletir na precariedade constante dessas mesmas conquistas.

Na apresentação de Parto sem Dor faz referência à “degradação da imagem da mulher no final da Idade Média” e avança que procura saber “quais os resquícios desse tempo sombrio” através da vida e ação de Cesina Bermudes, cuja história se mistura com a história de Portugal do século XX. A par da sua militância política, do seu pioneirismo e prestígio profissional, Cesina acreditava na reencarnação, era vegetariana, desportista, tendo sido campeã de natação e participado em corridas de bicicletas e de automóveis. Seria um alvo perfeito para os adeptos da “diabolização” da mulher e um verdadeiro pesadelo para os machistas convictos. Este filme também pretende expor e desconstruir essa diabolização? Considera-o um filme feminista?

Sim, é sem dúvida um filme feminista, antes de mais porque a Cesina era uma feminista. Defendeu ativamente e publicamente os direitos da mulher em assuntos que eram tabus na altura, como a abolição do regulamento da prostituição, salário igual para trabalho igual, equiparação jurídica para ambos os sexos, sufrágio universal e assistência social para todas as mulheres independentemente do seu estado civil. Aliás, como podemos observar nos discursos que proferiu durante a campanha do General Norton de Matos em 1949.

O seu trabalho artístico e de investigação tem estado centrado essencialmente nas questões da perceção da imagem em movimento. De que forma a sua experiência nesse campo foi uma mais valia para este projeto?

Acima de tudo, influenciou bastante a forma do filme. Pois, muito do trabalho de montagem foi procurar um modo de, para além de se contar uma parte da história desta fascinante mulher, encontrar um meio de ela própria habitar o filme. De inclusive conseguirmos sentir a sua presença. E isso era um trabalho que escapava à narrativa e que não era de facto discursivo. Foi preciso pensar na força fantasmática da imagem, para que pudessem surgir momentos em que se tenta esse encontro entre nós e alguém que é agora uma presença espectral.

O cubo é uma presença constante em todo o filme. Qual a sua simbologia?

É múltipla e condensa muitas metáforas visuais. Evoca, por um lado, o mito da caixa de Pandora, e os efeitos desconhecidos de desenterrar uma história; assim como alude a uma caixa concreta, que é processo da Cesina que consultei na Torre do Tombo; como, a certa altura, é a própria pedra que se aconselha aos homens, colocarem na boca, de modo a não conversarem com as feiticeiras, como é descrito no início do filme.

Como já foi aqui referido, Cesina Bermudes foi uma mulher multifacetada, pioneira em vários sentidos, com uma personalidade marcante e um legado indelével. Neste contexto, não sentiu dificuldade em decidir o título da sua obra, por, eventualmente, lhe parecer redutor? E porquê "Parto sem Dor"?

Foi, de facto, difícil escolher o título e este só ficou decidido depois do filme estar terminado. Mas este acabou por ser o título que me pareceu mais justo. Tanto pela duplicidade que transporta entre o partir e o parir, ideias trabalhadas no filme. Como pelo facto de ser uma expressão que eu usava frequentemente, nas conversas que tive com pessoas que se cruzaram profissionalmente com a Cesina e que me corrigiam constantemente, propondo a nomenclatura mais atualizada de método psico-profilático ou parto preparado. A certa altura eu percebi que a minha resistência em assumir as novas expressões não era um lapsus linguae, mas uma forma de eu afirmar, a partir de um conceito já tido como obsoleto, um tempo histórico preciso.

"Parto sem Dor" foi realizado e produzido de forma completamente independente. Quais foram os principais constrangimentos com que se deparou durante a sua realização?

Desde cedo, eu percebi que ser concretizado de modo independente era uma condição necessária para a realização deste filme. Pois eu não sabia nem o tempo que este ia demorar a ser feito, nem a forma que ele acabaria por tomar. E nesse sentido, foi uma decisão consciente mantê-lo assim à margem e permeável a todos os acasos e acidentes.

Contei também com o contributo de inúmeros pacientes e amigos para realização deste filme, que se entregaram verdadeiramente a este projeto, nomeadamente o Ricardo Guerreiro, músico e compositor, que construiu uma banda sonora riquíssima para esta história, e a Marta Rego, artista visual e atriz, que emprestou a sua voz única a esta conversa imaginada.

O seu filme consta da Competição Nacional de curtas-metragens do Indie Lisboa - Festival Internacional de Cinema. Foi exibido no dia 26 de agosto e voltará a ser exibido na próxima quinta-feira, dia 3 de setembro, às 18h45, na Sala 3 do Cinema São Jorge, em Lisboa. Tinha alguma expetativa nesse sentido?

Não, não tinha. Foi uma boa surpresa. E o facto de o IndieLisboa decidir manter a edição do festival num regime presencial foi importante, porque permitiu neste regresso às salas devolver o filme às inúmeras pessoas que contribuíram para a sua realização. Julgo que se a edição tivesse sido on-line, até pela faixa etária das pessoas que entrevistei, não teria sido possível ou tão fácil devolver o seu contributo.

E quais são os projetos futuros? Continuará a apostar na realização? E pretende voltar a abordar personalidades femininas do século XX, as suas lutas e as suas conquistas?

Sim, sem dúvida. Aliás, ficou um filme por fazer no meio da realização do “Parto sem dor” e será importante revisitar essas ideias e imagens, assim como a intenção inicial deste projeto, que este filme contém mas não esgota. Parece-me de facto importante esse olhar sobre um passado recente, aliás porque ele devolve-nos a fragilidade de tantas recentes conquistas feministas, como nos esclarece que estas foram travadas no meio de ambientes políticos conservadores e verdadeiramente hostis, onde nada estava garantido a não ser a dissidência, a exclusão, e por vezes a prisão. Julgo que temos todos muito a aprender com a história, e com as histórias destas mulheres, pois continuam a ser ótimas ferramentas para pensar o presente.


* MARIA MIRE (Maputo, 1979) - Artista plástica e realizadora, tem trabalhado de modo colaborativo em diversos coletivos artísticos. O trabalho artístico e de investigação que desenvolve é sobretudo centrado nas questões da percepção da imagem em movimento. Atualmente é professora e co-responsável do Departamento de Cinema/Imagem em Movimento do Ar.Co, em Lisboa. Doutorada em Arte e Design pela Faculdade de Belas Artes do Porto em 2016, com a tese “Fantasmagorias: a imagem em movimento no campo das Artes Plásticas”.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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