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IndieLisboa: "Precisamos de um ministério e de um governo que queiram verdadeiramente dialogar"

Em entrevista ao esquerda.net, Mafalda Melo, programadora e diretora do festival IndieLisboa, fala da 17ª edição que vai decorrer na capital de 25 de agosto a 5 de setembro, e salienta a importância do diálogo e de procurar soluções em conjunto.
A 17ª edição do IndieLisboa vai decorrer na capital de 25 de agosto a 5 de setembro
A 17ª edição do IndieLisboa vai decorrer na capital de 25 de agosto a 5 de setembro

A 17ª edição do Festival IndieLisboa foi adiada devido à pandemia, mas vai decorrer de 25 de agosto a 5 de Setembro. Além das salas habituais (Cinema São Jorge, Culturgest, Cinema Ideal e Cinemateca Portuguesa), este ano haverá sessões ao ar livre na Esplanada da Cinemateca e no Cineteatro Capitólio. Serão projetados mais de 240 filmes "com vozes que atravessam secções, línguas, linguagens".

Na apresentação do programa dizem que "nunca foi tão importante como agora a sua exposição e a promoção de diálogo", porquê?

Queremos contrariar a tendência de afastamento provocada pelas novas práticas laborais e de lazer decorrentes do distanciamento físico e do recolhimento prolongado. Consideramos que a experiência coletiva de ver e discutir filmes em conjunto, na sala de cinema, não se pode perder e é ainda mais importante nesta nova conjuntura social que depende ainda menos do contacto presencial. Adiando o festival uns meses de forma a que se realizasse nas habituais salas e não online, encontrámos finalmente espaço para refletir sobre a relação dos filmes com os acontecimentos recentes e também para minorar o afastamento dos espectadores em relação à sala, que já se fazia sentir mas que agora é abismal. Reforçamos a intenção de debater a atualidade sob a forma da sua produção artística: em 2020 focamo-nos nas imagens que lançam luz sobre o passado para compreender o momento atual, pois tornar-se-á evidente, para quem acompanhar a programação do festival, que estas vozes sempre estiveram presentes mas ainda não foram ouvidas.

Este ano o festival tem uma forte presença africana. Haverá uma retrospetiva da obra do realizador senegalês Ousmane Sembène, o foco da secção Silvestre será a realizadora franco-senegalesa Mati Diop (cuja primeira longa metragem "Atlantique" competiu no Festival de Cannes) e da competição internacional fazem parte os filmes "Baamum Nafi/Nafi’s father", de Mamadou Dia (Senegal) e "Eyimofe/This Is My Desire", de Arie Esiri e Chuko Esiri (Nigéria).

Qual a importância de dar a voz e o palco a estes realizadores, tendo em conta o momento que vivemos (no contexto nacional e internacional)?

No nosso consumo de imagens somos muito virados para a Europa e para os Estados Unidos. Os festivais existem também para contrariar esta tendência, porque há muito por descobrir e mostrar fora destes territórios. E os filmes são um espelho do momento presente. Os recentes movimentos sociais, que centraram o debate no racismo estrutural começam a assumir uma dimensão essencial e, como coletivo cultural, o IndieLisboa quer colaborar na densificação desse processo. Os festivais dão visibilidade a obras e cineastas que não chegariam ao público de outra forma, pois operam de forma independente e centrada na programação, o que lhes confere uma liberdade inestimável. Em 2020 as vozes acima mencionadas, e tantas outras espalhadas pelas diversas secções do festival, refletem sobre problemas estruturais que se amplificaram com o contexto precipitado pela pandemia. Refiro uma entre muitas: Angela Davis (no filme que integra a Retrospectiva Forum 50), há décadas uma figura central de movimentos sociais.

Este ano, as Lisbon Talks são dedicadas aos atores e à representação no audiovisual nacional. Que balanço fazem da situação do audiovisual em Portugal, em tempos de pandemia?

Em 2020, nas LisbonTalks fazemos um balanço de várias perspetivas sob as quais podemos olhar para a complexidade do meio audiovisual português: a representatividade (procurando focar o racismo estrutural), as experiências intergeracionais, o humor, e as práticas laborais. Perante o agravamento das condições de trabalho no setor, é preciso debater os caminhos a tomar no sentido de encontrar possíveis soluções. Queremos falar sobre os enquadramentos legais, sobre a empregabilidade e sobre possibilidades de criação de estruturas e relações menos precárias. Não há dúvida que a pandemia veio agravar problemas já existentes e que tornou a busca por soluções uma emergência. É necessário que o governo entenda que não é possível legislar sem ouvir as diversas entidades que representam os trabalhadores do meio audiovisual português. Precisamos de um ministério e de um governo que queiram verdadeiramente dialogar e procurar soluções em conjunto, o que não aconteceu.

Entrevista a Mafalda Melo, programadora e diretora do festival IndieLisboa, conduzida por Joana Louçã.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
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