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Retrospectiva integral de Ousmane Sembène em Lisboa

O IndieLisboa, em co-programação com a Cinemateca Portuguesa, apresenta a retrospectiva integral da obra do realizador e escritor senegalês, Ousmane Sembène, referência fundamental do cinema africano e mundial. A não perder.
Imagem do filme La noire de..., de Ousmane Sembène, 1966.

Ousmane Sembène (1923-2007) é um realizador fundamental e um dos homenageados na 17ª edição do festival de cinema independente, IndieLisboa. Nove longas metragens (La noire de…, Mandabi, Emitaï, Xala, Ceddo, Camp de Thiaroye, Guelwaar, Faat Kiné, Moolaad) e quatro curtas metragens (Borom sarret, L’empire sonhrai, Niaye, Tauw), filmadas entre 1963 até ao seu último filme, datado de 2004, podem ser vistas nas próximas semanas em sessões na Cinemateca Portuguesa, que co-programou o ciclo com o IndieLisboa. 

Sembène é frequentemente apelidado “o patriarca do cinema africano” por ter sido o primeiro africano a realizar filmes na África subsaariana pós-colonial. Tem um percurso de vida improvável: escreveu onze romances, alguns dos quais veio depois a adaptar ao cinema, e só aos 40 anos realizou o seu primeiro filme. Quando foi estivador no porto de Marselha, filiou-se no Partido Comunista Francês e no sindicato que lhe era ligado, a CGT – Confederação Geral do Trabalho. Na mesma cidade, foi um dos fundadores do PAIGC em França. Estudou cinema em Moscovo e, em 1962, realizou em Dakar a sua primeira curta, Borom sarret, tido como o primeiro filme totalmente africano, foi filmado em África por um africano. A sua primeira longa, La noire de..., de 1966, dá-lhe visibilidade internacional. A sua obra é marca pelo feminismo, a luta de classes, contra a a brutalidade do colonialismo e a europeização do Senegal.

Num dos debates do festival dedicado às duas retrospectivas da edição deste ano - Fórum Berlinale e a Ousmane Sembène, intitulado “O cinema como forma de reflexão e ação política”, o ativista antirracista português nascido no Senegal Mamadou Ba comentou que “Sembène não desvalorizava a questão racial, dizia que o seu antirracismo era o humanismo radical”. “Para além da dimensão cromática do sujeito político em si, o que era mais essencial e importante era a sua dimensão enquanto sujeito político. E as pessoas não podiam ter dimensão de sujeito político sem subjetividade política”, acrescentou.

“Toda a arte de Sembène, pela via literária ou cinematográfica, é um espelho da sociedade, põe o dedo na ferida sobre as contradições políticas e sociais do país”, prosseguiu Mamadou que, perante uma plateia maioritariamente branca, concluiu acerca da contemporaneidade da obra de Sembène que “os sujeitos racializados são esta ausência presente ou esta presença ausente, que tem a ver com a natureza estrutural do racismo que temos hoje na nossa sociedade. Sembène, para mim, é dos poucos que conseguiu materializar a ideia de que a cultura é uma arma e um instrumento. É uma obrigação nossa, coletivamente, de nos interrogarmos sobre as ausências que Sembène preenchia com o seu cinema”.

No debate participaram também o realizador norte americano Billy Woodberry, Cristina Nord (crítica de cinema alemã, diretora da secção Fórum da Berlinale), e a realizadora moçambicana Isabel Noronha, que também sublinhou a atualidade da obra de Sembène. “Sou de uma geração que ‘adolesceu’ a ver cinema africano”, começou por dizer. “Na altura, o cinema africano, sobretudo o engajado, era visto numa perspetiva de ação política e cresci a olhar para estes filmes como um dos lugares onde podíamos observar as grandes questões políticas e culturais do neocolonialismo. Tinha um lado pedagógico de ação política concreta. Hoje, várias décadas depois, aquele é o retrato exacto do que se passa no meu país. “Fomos ensinados a ter e tivemos naquela altura uma visão idealizada ou simplista do que seria a nossa luta política ao pensar que facilmente poderíamos ultrapassar o contexto que tinha criado o neocolonialismo”, concluiu.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
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