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Reino Unido: com eleições europeias à porta, colapso conservador e Brexit Party à frente

Sondagens para as europeias no Reino Unido colocam à frente o Brexit Party e indicam um colapso do voto conservador. Balanço de forças pró e anti-Brexit continua renhido. Prosseguem as negociações entre trabalhistas e Theresa May, que quer levar ao parlamento uma proposta de Brexit pela quarta vez.
Sondagens para as europeias no Reino Unido colocam à frente o Brexit Party, liderado por Nigel Farage, e indicam um colapso do voto conservador
Sondagens para as europeias no Reino Unido colocam à frente o Brexit Party, liderado por Nigel Farage, e indicam um colapso do voto conservador

Com o adiamento do Brexit por 6 meses em abril, o Reino Unido viu-se obrigado a participar nas eleições europeias de maio, onde vai eleger eurodeputados que provavelmente ocuparão os seus lugares apenas por breves meses até à concretização da saída do país da UE. A futilidade aparente destas eleições não está porém a torná-las irrelevantes, mas antes o novo palco da intensa batalha política nacional em torno do Brexit. Neste momento, quem está a liderar a agenda mediática é Nigel Farage, cujo recém-formado Brexit Party lidera as sondagens.

Quando se começou a tornar evidente que o Reino Unido participaria nas eleições europeias, comentadores e políticos pró-UE viram nelas uma oportunidade para passar uma mensagem inequívoca a favor da sua posição e de um segundo referendo. Nessa linha, vários artigos surgiram a exortar os eleitores a votar em partidos favoráveis ao Remain. Mas as sondagens estão a indicar antes uma revolta e radicalização ainda maiores entre os eleitores face ao impasse político do Brexit, com a direita eurocética de Farage como principal beneficiária.

O Brexit Party, partido pró-Brexit recém-criado por Nigel Farage após abandonar o UKIP, está a liderar as sondagens às europeias, enquanto o voto conservador colapsa para terceiro, quarto, e mesmo quinto lugar. O partido trabalhista surge em segundo lugar, sofrendo pela posição ambígua face ao Brexit com que tem tentado gerir uma base dividida quanto ao assunto. Mas os partidos pró-Remain, os liberais-democratas e verdes, tão pouco conseguem ganhar mais do que os trabalhistas perdem — longe de uma vaga de fundo pró-Remain capaz de alterar decisivamente o balanço de forças com o voto pró-Brexit, que se mantém firme.

O colapso dos conservadores é um facto notório nas projeções de voto. É sabido que o Brexit divide os conservadores mais do que ninguém, dilacerando-os num conflito fratricida entre as elites de negócios, esmagadoramente a favor da UE, e as fações de recorte mais aristocrático, nacionalista e nostálgico do império, com apoio também nas bases populares do partido. A incapacidade destas duas fações em entender-se levou aos chumbos sucessivos das propostas de Brexit que Theresa May levou ao parlamento, e a uma desmoralização e revolta nos eleitores conservadores. Nas eleições europeias, muitos vão apostar agora em Farage para reforçar a mensagem de que o Brexit é para levar por diante.

Apesar da crise profunda que o Brexit gerou no seio do partido conservador, é prematuro antever a sua queda como partido dominante da direita britânica, pois as eleições europeias seguem uma lógica própria. Ao contrário das legislativas, onde vigora um sistema de círculos uninominais com maioria simples que favorece os dois partidos dominantes, nas eleições europeias vigora um sistema proporcional semelhante ao português, que favorece os partidos mais pequenos. Por essa razão, os eleitores britânicos votam de forma muito diferente nas europeias, aproveitando a possibilidade que o sistema lhes dá de eleger deputados de partidos mais pequenos. Nas últimas eleições europeias de 2014, o UKIP, então liderado por Nigel Farage sob o lema de tirar o país da UE, já tinha sido a força mais votada (26,6% dos votos), à frente de trabalhistas e conservadores (24% e 23%). No entanto, nas eleições legislativas seguintes em 2015, o UKIP não conseguiu eleger um único deputado, mesmo com 12% do voto nacional. Porém, Farage teria a sua révanche com o referendo ao Brexit de 2016. Uma vez decidida a saída de UE, o voto no UKIP colapsou nas eleições seguintes, e o partido radicalizou-se de uma linha eurocética xenófoba para uma linha fascista, levando ao abandono de Farage. Atualmente as sondagens atribuem-lhe cerca de 4% dos votos.

Ainda assim, o ascenso de Farage nas sondagens é um revés substancial para as forças pró-Remain, e um sinal de que o voto Brexit se mantém firme, não só entre eleitores de direita como também entre eleitores de esquerda nas regiões fora de Londres e do sudeste do país — os deserdados do Thatcherismo que viram as suas regiões devastadas pela desindustrialização e desemprego nas últimas décadas, cujo voto foi decisivo na vitória do Brexit. Os dados sugerem que num segundo referendo ao Brexit o voto leave teria boas hipóteses de vencer outra vez, e se perdesse provavelmente seria por margem curta. Ninguém sairia satisfeito, e o Brexit eternizar-se-ia por alguns anos como um buraco negro que domina a política britânica e afoga todos os outros temas.

Ciente destes riscos, Jeremy Corbyn tem prosseguido na linha de tentar deslocar o debate do binómio Leave/Remain para outras linhas de fratura, como a austeridade e a pobreza, procurando as questões que unem os dois campos e também a sua base dividida. Prosseguem por enquanto as negociações trabalhistas com o governo para obter um acordo bipartido de Brexit, de resultado incerto. Entretanto, Theresa May anunciou que pretende levar ao parlamento pela quarta vez um acordo de Brexit em junho.

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