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Brexit: a crise é séria porque tem a ver com muito mais que a Europa

Com o establishment a usar impiedosamente a questão europeia como arma de arremesso contra Corbyn, os esforços devem concentrar-se na necessidade de novas eleições. Por Chris Nineham.
Theresa May no Conselho Europeu de 19 de Março. Foto Number 10/Flickr.
Theresa May no Conselho Europeu de 19 de Março. Foto Number 10/Flickr.

O fiasco do Brexit está a revelar-se tão espetacular e danoso para o establishment porque não tem a ver apenas com a Europa. Na verdade, o impasse é a expressão de uma crise mais ampla do Estado britânico. A União Europeia (UE), e a sua antecessora Comunidade Económica Europeia, foram controversas na Grã-Bretanha desde a sua fundação. A classe dominante britânica tem estado historicamente dividida na sua abordagem à UE, com uma fação a apoiar uma política comercial que privilegia os antigos territórios coloniais da chamada Commonwealth e uma relação próxima com os EUA; e outra fação a fazer força por uma integração mais a fundo na Europa. O declínio internacional da Grã-Bretanha e a importância crescente da finança significam que a esmagadora maioria da banca e do grande capital britânicos apoiam hoje convictamente a pertença à UE. Após o referendo, isto criou uma situação extraordinária: um governo conservador tem de implementar uma política diretamente oposta à estratégia da finança e das grandes empresas.

Uma situação desta natureza seria sempre instável. E acabou por criar um tumulto tão profundo porque rebentou por fim com as linhas de fratura do atual Partido Conservador. O Thatcherismo baseava-se numa mescla ideológica entre o fundamentalismo do mercado livre e os "valores tradicionais" britânicos. As traves mestras de apoio do capital britânico à globalização e financeirização faziam-se acompanhar amiúde por um liberalismo superficial em matérias sociais, e um apoio limitado à imigração. Mas este pacote caía mal nos feudos conservadores onde a nostalgia imperial, os valores de família e atitudes racistas foram essenciais para a renovação do conservadorismo feita por Thatcher nas décadas de 1970 e 1980.

Se a tentativa de David Cameron para "modernizar" o conservadorismo foi controversa, a decisão de convocar o referendo do Brexit em 2015 tornou-a explosiva. O referendo deu à ala direita dos conservadores uma oportunidade para mobilizar os militantes em seu redor e fazer combate interno. Mas, mais decisivamente, deu também à população em geral uma forma de exprimir o seu sentimento crescente de alienação perante os jogos políticos de Westminster, o impacto da globalização e das guerras no estrangeiro, e uma sensação de soberania a fugir-lhe das mãos. O alcance da crise do Brexit só se consegue entender como uma interseção entre as divisões nas elites e o descontentamento popular.

O voto no Brexit, no entanto, esteve longe de ser um bloco reaccionário monolítico, o que o torna tanto mais ameaçador. Pior ainda para as elites é que a via habitual de escape em tempos de dificuldade, abrir a porta para um governo trabalhista, está desta vez fora de questão devido à liderança de Corbyn, outra reação contra o establishment neoliberal. O Financial Times e o City AM têm noticiado regularmente que a City de Londres, coração da finança, apesar de preferir permanecer na Europa, está mais preocupada com um governo Corbyn que com o Brexit. Preocupa-a em especial a perspetiva de um governo com propostas de reforma radicais chegar ao poder, num tempo em que há uma onda de insubordinação por todo o país.

É esta conjuntura que explica a situação anómala em que a forma normal de resolução de um impasse político, as eleições legislativas, raramente é referida no debate político mainstream. É também uma razão para a classe dominante estar disposta a suportar durante tanto tempo uma das primeiras-ministras mais incompetentes de que há memória. O principal partido da classe dominante está atolado, e a segunda escolha social-democrata tem uma liderança insurgente e radical para além do aceitável, que não dá garantias de respeitar o status quo.

Esta é a razão porque setores importantes do establishment têm promovido apelos para um segundo referendo, chegando ao ponto extraordinário de apoiar e organizar manifestações de massas para tentar impor o seu ponto de vista ao conjunto da sociedade. Para estes, trata-se de uma via de saída do impasse que evita o risco de um governo Corbyn. A campanha do Voto Popular (People's Vote) disponibiliza uma plataforma a partir da qual se pode atacar Corbyn, que no geral tem seguido a posição democrática de respeitar a decisão do referendo. Evidentemente, um segundo voto teria também a vantagem de recolocar a hipótese de manter o Reino Unido na UE, a saída ideal para o grande capital.

As sugestões de uma solução "parlamentar" interpartidária para a crise colocam também grandes perigos para a esquerda. O que está em causa é quem irá liderar o Reino Unido e tirá-lo de uma crise que se está a aprofundar. Um Brexit liderado pela esquerda abre a possibilidade de uma resolução que vire as costas à austeridade, à privatização e à financeirização que têm contribuído para espalhar a servidão da dívida e manter os salários baixos. Em 2017, para choque de muitos e horror de alguns, Jeremy Corbyn e os seus apoiantes mostraram que a esquerda, se for radical, confiante, e apelar a um movimento mais amplo, consegue cativar milhões de pessoas e mostrar um caminho em frente. A esquerda precisa de ter a confiança de que pode repetir este feito, e desta vez para ganhar. Mas para isso tem de compreender que a questão europeia está ser instrumentalizada como arma de arremesso contra Corbyn para restaurar o status quo, e que as eleições continuam a ser a saída que a classe dominante mais teme.

Artigo original publicado em Counterfire. Tradução para o esquerda.net de José Borges Reis.

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