Recuso-me a participar numa guerra de vingança", diz adolescente preso em Israel

08 de janeiro 2024 - 19:48

Tem apenas 18 anos o primeiro objetor de consciência israelita a ser preso desde 7 de outubro. Chama-se Tal Mitnick e explica nesta entrevista porque é que a atual guerra só veio reafirmar as suas convicções. Por Oren Ziv.

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Tal Mitnick
Tal Mitnick. Foto Oren Ziv.

Na terça-feira, 26 de dezembro, Tal Mitnick, de 18 anos, de Telavive, tornou-se o primeiro israelita a recusar o serviço militar obrigatório desde que Israel lançou o seu ataque à Faixa de Gaza sitiada, há mais de 80 dias. Mitnick foi convocado para o centro de recrutamento de Tel Hashomer, onde se declarou objetor de consciência, e foi condenado a 30 dias de prisão militar.

Mitnick é um dos 230 estudantes israelitas do ensino secundário que assinaram uma carta aberta no início de setembro, antes da guerra, anunciando a sua intenção de recusar o recrutamento como parte de uma mobilização contra os esforços do governo de extrema-direita de Israel para restringir o poder judicial. Relacionando o golpe judicial com o domínio militar de longa data de Israel sobre os palestinianos, os estudantes do ensino secundário - que se organizaram sob a bandeira da "Juventude contra a Ditadura" - declararam que não se alistariam no exército "até que a democracia esteja assegurada para todos os que vivem sob a jurisdição do governo israelita".

No início de dezembro, Mitnick compareceu perante o Comité de Consciência do exército - composto por vários representantes militares e um representante académico - que rejeitou o seu pedido de isenção do serviço militar. Depois de declarar a sua recusa na terça-feira, Mitnick foi imediatamente levado para a prisão militar de Neve Tzedek, perto de Netanya, para começar a cumprir a sua pena, após o que lhe será ordenado que se apresente novamente no centro de recrutamento. Nos últimos anos, os objetores de consciência foram submetidos a vários períodos de prisão, alguns dos quais chegaram a atingir 100 dias ou mais de encarceramento.

Noa Levy, advogada da rede Mesarvot, que representa os israelitas que se recusam a alistar-se, disse ao +972 e à Local Call que, desde o início da guerra, o exército tem optado por não prender os cidadãos que anunciaram a sua recusa em alistar-se. "Tal não é o primeiro objetor cuja data de alistamento é posterior ao início da guerra", explica. "Antes dele, houve dezenas, tanto objetores da reserva como objetores do serviço regular. Mas o exército encontrou outras formas de lidar com eles e não os mandou para a prisão."

Numa mensagem que se afasta do discurso público israelita dominante no contexto do ataque do exército a Gaza, e numa altura em que qualquer pessoa em Israel que expresse uma oposição, mesmo que ligeira, à guerra enfrenta perseguição e repressão, Mitnick disse ao +972: "A minha recusa é uma tentativa de influenciar a sociedade israelita e de evitar participar na ocupação e no massacre que está a acontecer em Gaza. Estou a tentar dizer que não é em meu nome. Expresso a minha solidariedade para com os inocentes de Gaza. Sei que eles querem viver; não merecem ser transformados em refugiados pela segunda vez nas suas vidas".


Tal Mitnick segura um cartaz que diz "Morreremos antes de nos alistarmos" dentro do bloco anti-ocupação numa manifestação antigovernamental em Telavive, a 29 de abril de 2023. Foto de Oren Ziv

Numa declaração de recusa publicada antes da sua detenção, Mitnick descreveu o ataque de 7 de outubro ao sul de Israel, liderado pelo Hamas, como "um trauma sem igual na história do país", mas afirmou que o bombardeamento de Gaza pelo exército não é a solução. "Não há solução militar para um problema político", escreveu. "Por isso, recuso-me a alistar num exército que acredita que o verdadeiro problema pode ser ignorado, sob um governo que apenas continua o luto e a dor".

"Recuso-me a acreditar que mais violência trará segurança", continuou. "Recuso-me a participar numa guerra de vingança."

Pouco antes de entrar na prisão, Mitnick falou ao +972 sobre a sua decisão de recusar, o medo de entrar na prisão no atual clima político e a mensagem que pretende transmitir ao público em Israel e em Gaza.

O que é que te levou a recusar o alistamento?

Mesmo antes do primeiro aviso de recrutamento, eu sabia que não estava interessado em alistar-me. Sabia que não estava disposto a servir neste sistema que perpetua o apartheid na Cisjordânia e só contribui para o ciclo de derramamento de sangue. Compreendi que, devido à posição privilegiada em que me encontro, tendo uma família e um ambiente que me apoiam, tenho a obrigação de o utilizar para chegar a outros jovens e mostrar que existe outra forma.

Quando falo com os meus amigos - alguns dos quais estão no exército e outros foram dispensados - sobre a razão pela qual não vou para o exército, eles compreendem que se trata de uma perspetiva humana de consideração pelo outro. Ninguém pensa que eu apoio o Hamas ou que quero que [os meus amigos] sofram danos. Há pessoas que acreditam que a atividade militar trará segurança; eu acredito que a minha recusa pública é o que influenciará e trará mais segurança.

Jovens manifestantes queimam as suas ordens de recrutamento para o exército israelita durante um protesto contra o governo em Telavive, a 1 de abril de 2023. 
Jovens manifestantes queimam as suas ordens de recrutamento para o exército israelita durante um protesto contra o governo em Telavive, a 1 de abril de 2023. Foto de Oren Ziv

 

Como é que os protestos contra a revisão do sistema judicial ajudaram a moldar a tua visão do mundo?

Antes dos protestos, eu via o ativismo político como algo muito distante e não pensava que fosse possível ter impacto enquanto indivíduo. Quando os protestos começaram e vi que incluíam membros do Knesset a sair para a rua, apercebi-me que a política está mais perto de mim do que pensava, que pode chegar a todos os cantos do país e que é possível ter influência. Foi aí que compreendi que os meus atos podem afetar a realidade que vemos aqui, e que tenho a obrigação de agir por um futuro melhor.

Chegaste a ponderar se o farias agora, tendo em conta o ambiente atual?

Sim, havia dúvidas. Sempre soube que o exército não tem uma política consistente em relação aos objetores de consciência, que a resposta pode mudar num instante - libertar todos os objetores ou prendê-los durante muito tempo - e estava preparado para isso. Depois de 7 de outubro e do ataque [do governo] ao movimento pacifista, à parceria judaico-árabe e aos cidadãos palestinianos que expressam o seu apoio e solidariedade para com os inocentes em Gaza, até mesmo às manifestações, tornou-se assustador. Mas agora é precisamente o momento de mostrar o outro lado, de mostrar que existimos.

Achas que há alguém no país disposto a ouvir essas mensagens neste momento?

Todos sabemos que precisamos de outro caminho, especialmente depois de 7 de outubro. Todos sabemos que este simplesmente não funciona, que Benjamin Netanyahu não é o "Sr. Segurança". Gerir o conflito é uma política que não funcionou e que acabou por se desmoronar.

Não podemos continuar com a situação atual, e agora há duas opções: a direita sugere a transferência e o genocídio dos palestinianos em Gaza; a outra parte diz que há palestinianos aqui, a viver entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo, e que têm direito a ter direitos. Mesmo as pessoas que votaram em Bibi, e mesmo aquelas que apoiaram a reforma judicial, podem ligar-se à ideia de que todos merecem viver com justiça, que todos merecem um teto sobre as suas cabeças, e apoiar a existência partilhada aqui.

Depois de 7 de outubro, muitos dos que estavam à esquerda afirmaram que "ganharam juízo". Isso afetou-te?

Não há qualquer justificação para ferir civis inocentes. O ataque criminoso de 7 de outubro, em que foram mortos inocentes, é, a meu ver, uma resistência ilegítima à opressão do povo palestiniano. No entanto, proibir a resistência legítima, como os protestos, ou declarar as organizações de defesa dos direitos humanos como organizações terroristas, leva as pessoas a desumanizarem o outro e a ações que têm como alvo os civis.


Manifestantes em frente ao quartel-general do exército israelita em Telavive, apelando a um cessar-fogo na guerra em Gaza, a 28 de outubro de 2023. Foto de Oren Ziv

 

O dia 7 de outubro não mudou a minha perspetiva, apenas a reforçou. Continuo a acreditar que é impossível viver com o cerco a Gaza e uma ocupação e não sentir [quaisquer consequências]. Penso que muitas pessoas compreendem finalmente este facto. A ideia de "longe da vista, longe do coração" não funciona. Algo tem de mudar e a única forma é falar, chegar a um acordo político. Não estou a dizer que isso vai resolver tudo, mas será mais um passo em direção à justiça e à paz.

Como foi a tua experiência na Comissão de Consciência?

A entrevistadora da pré-comissão foi agressiva. Questionou a minha não-violência por me opor às medidas do governo e à ocupação. Essencialmente, devido às minhas opiniões, disse-me que eu não era um objetor de consciência porque essas eram opiniões políticas.

No final, passei pela pré-comissão e compareci perante a própria comissão menos de uma semana depois da entrevista, enquanto muitas pessoas costumam esperar meio ano. Foi uma entrevista hostil: eu contra quatro pessoas.

Atacaram as minhas opiniões. Perguntaram-me o que teria feito em 7 de outubro e como teria lidado com a situação. Interrompiam-me constantemente e diziam que iam formular a pergunta de outra maneira. Tentei continuar a responder, mas eles disseram que eu não estava a responder-lhes. Eu não sou o líder de Israel; eles não me podem colocar nessa posição.

Perguntaram-me em que é que a minha recusa é diferente da recusa dos Irmãos em Armas [um grupo de veteranos do exército que declarou a sua recusa em comparecer no serviço de reserva em protesto contra o golpe judicial]. Respondi que os apreciava e que considerava importante que houvesse pessoas que tivessem uma linha vermelha para o serviço militar - mas eu estabeleci a minha linha vermelha antes disso e espero que a linha vermelha deles vá na direção da minha linha vermelha.

Dois dias depois, disseram-me que eu não tinha passado na comissão. Não fiquei surpreendido. Não recebi qualquer explicação, apenas me telefonaram a dizer o resultado.

Como esperas passar o tempo na prisão?

Tenho alguns livros grandes, que espero que me deixem trazer: " Drinking the Sea at Gaza", de Amira Hass, uma história da CIA, e uma história da luta dos Mizrahi, de Sami Shalom Chetrit. Falei com objetores de consciência que já estiveram na prisão; não é de todo um campo de férias, mas, pelo que sei, é possível aguentar. Só é preciso falar de forma correta e não pensar que se está acima dos outros.


Oren Ziv é fotojornalista, repórter da Local Call e membro fundador do coletivo de fotografia Activestills. Uma versão deste artigo foi publicada pela primeira vez em hebraico na Local Call. Artigo publicado no portal +972. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.