Para fazer o balanço do que foi cumprido nas recomendações da Comissão Técnica Independente (CTI) criada na sequência do incêndio de Pedrógão Grande, a agência Lusa ouviu alguns dos especialistas que a integraram. Pelo lado positivo, destaca o investigador Joaquim Sande Silva - que também integrou o Observatório Técnico Independente criado posteriormente - “a grande proposta da CTI acabou por ser cumprida, pelo menos formalmente, com a criação da AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais], cuja constituição obedeceu muito de perto àquilo que tinha sido proposto”. Mas apesar disso, reconhece o docente da Escola Superior Agrária de Coimbra, é “muito discutível” dizer se os objetivos “estão ou não a ser cumpridos”.
Entre os problemas identificados na altura, Sande e Silva regista que não houve grandes avanços na profissionalização do combate aos incêndios nem no plano nacional de formação no combate aos incêndios, há organizações que combatem fogos e “que não se dão entre si” e “não houve coragem política para fundir agências e organizações” do sistema de proteção civil, o que veio aumentar a complexidade do sistema.
Também Paulo Fernandes, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, concorda que “não faz muito sentido criar-se uma estrutura nova [AGIF], mantendo todas as outras tal qual como existiam”. Por seu lado, Xavier Viegas, coordenador do relatório, sublinha que “o sistema está melhor, mas há um caminho a percorrer. O sistema parece estar mais compacto, mais coeso e a população mais sensível para o problema e isso nota-se na redução do número de ignições, mas também a meteorologia tem ajudado”.
Numa coisa os três investigadores concordam: é na floresta que menos mudanças se veem passados cinco anos da tragédia. “É incompreensível. Quando vou àqueles territórios, fico desolado porque o que encontramos é tudo o que ardeu há cinco anos, com a regeneração de eucaliptos e acácias. Está ali um matagal, a preparar-se para desgraças futuras. Oxalá que não, mas não foi aproveitado o impacto que um evento como Pedrógão Grande teve para mudar as mentalidades e transformar aquela realidade”, lamentou Xavier Viegas.
Os investigadores valorizam projetos como o das Aldeias Seguras e o Condomínio de Aldeias, que prevê a gestão de combustível num perímetro de 100 metros em torno das localidades, mas apontam que "deveriam ter uma projeção maior".
Quanto à gestão florestal dos terrenos em regime de minifúndio através das Áreas Integradas de Gestão de Paisagem, reconhecem que a intenção da medida é boa, mas o seu efeito prático pode vir a ser o mesmo das Zonas de Intervenção Florestal criadas em 2005, ou seja, "zero".
Além do aumento da floresta pública, que em Portugal é apenas uma fatia residual do total da floresta do país, Paulo Fernandes indica que "a remuneração de serviços de ecossistemas é um caminho em que estamos muito no início, mas o caminho seria por aí, porque de outra forma é extremamente difícil”. Para Joaquim Sande Silva, as verbas do Plano de Recuperação e Resiliência destinadas ao projeto do cadastro simplificado são bem-vindas, ao contrário do foco dado ao financiamento para redução de combustíveis e criação de faixas de gestão de combustíveis, que considera "um grande disparate". "Quando removemos combustíveis, estamos a fazer algo que é rapidamente reversível pela ação da própria natureza. Rapidamente aquela vegetação é reposta e não vai haver dinheiro eterno para manter os combustíveis com baixas cargas”, aponta, propondo como alternativa uma política “de restauro de florestas de folhosas nativas, que comprovadamente têm um efeito vantajoso na prevenção de incêndios”.
Sande e Silva aponta ainda a mentalidade dos governos como um obstáculo a resultados duradouros, por serem avessos “a estratégias de trabalhar com a natureza de forma lenta”. “O que se quer é arrasar tudo com bulldozers e está feito e mostra-se para a imprensa”, concluiu.
“Onde havia um eucalipto agora há seis”
No terreno, a sensação de que pouco ou nada mudou também foi testemunhada pela Lusa. “Está tudo pior”, disse à agência Lusa um homem, que não quis ser identificado, enquanto encolhe os ombros e sublinha que “onde havia um eucalipto agora há seis”. O diretor dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Luís Cunha, confirma: “Eu diria que a floresta, ao invés de melhorar, piorou, porque hoje temos uma floresta com uma carga tremenda. Nada foi feito em termos de ordenamento e, portanto, se houver algum incêndio com condições meteorológicas idênticas ou parecidas àquelas que apareceram, a desgraça será pior”, afirmou. E acrescenta que sem uma intervenção musculada do Governo, “não há possibilidades de se ter uma floresta ordenada”, pois nem a autarquia nem os habitantes têm condições para tal.
"Pedrógão Grande tem um orçamento de 11 milhões de euros e, se de seis em seis meses tiver de fazer limpezas de dez metros para cada lado [das estradas], provavelmente metade do orçamento ia para esse tipo de trabalhos”, acrescenta o diretor dos bombeiros locais. A progressão das espécies como os eucaliptos e as acácias, a pequena dimensão das propriedades e o desconhecimento dos proprietários de muitos terrenos continuam a ser um obstáculo que só poderá ser ultrapassado com "uma forte componente de investimento público” financiado pelo Estado ou pela União Europeia, sublinha o autarca de Castanheira de Pera, António Henriques Antunes. O edil do município vizinho de Pedógão Grande, António Lopes, acredita que as populações estão mais seguras com o trabalho "possível" que foi feito, tendo em conta a “estrutura limitada e com recursos limitados”. Mas apesar das limpezas que foram feitas, "com a chuva e depois com o sol, [a vegetação] acaba por romper”, conclui.