Por vezes, há um acontecimento tão extremo que arranca o véu da ignorância voluntária dos olhos da sociedade judaico-israelita. O pogrom de Huwara, em fevereiro passado, durante o qual centenas de colonos incendiaram a cidade palestiniana na Cisjordânia ocupada, foi um desses acontecimentos. Os pogroms da semana passada em Turmus Ayya, Urif e Umm Safa foram ainda mais longe, obrigando muitos israelitas a encarar uma realidade que existe há muito tempo e que pode, sem dúvida, piorar.
Mas o principal problema não está no subproduto da ocupação - o terrorismo dos colonos judeus - mas na atividade rotineira de Israel nos territórios. De facto, a decisão dos responsáveis pela "segurança" israelita de descrever os pogroms como "terrorismo" indica que o véu só foi parcialmente levantado; simplesmente não querem que o terrorismo judeu interfira ou embarace a autoridade do exército, do Shin Bet (serviços secretos internos) e da polícia.
A colonização é, em si mesma, um ato violento, quer seja levada a cabo em conformidade com a lei israelita ou com a lei retroativa. É violenta porque os colonos impõem a sua presença aos povos autóctones e privam-nos da terra, da água, da liberdade de circulação e dos direitos humanos mais elementares.
A simbiose entre o exército e os colonos não se limita à violência; existe também na perceção da sua missão. Os colonos definem explicitamente a sua missão como a judaização da região, e cumprem-na de forma eficaz e coerente. A missão do exército não é garantir a segurança de todos os residentes nos territórios - como o direito internacional exige que a potência ocupante faça - mas sim proteger os colonos das reações dos palestinianos "de gema", que não estão autorizados a defender-se, quer com a ajuda das forças de segurança palestinianas, quer através da criação da sua própria guarda nacional. O fator que determina se a vida e a propriedade de um residente da Cisjordânia serão protegidas é o facto de ele ser ou não judeu.
A expansão dos colonatos em resposta ao assassínio de israelitas - como os ministros de primeiro plano se comprometeram a fazer na semana passada [o ministro da Defesa Smotrich anunciou a criação de 5.000 novas casas nos colonatos] - também não é uma ação civil inofensiva. É uma violência sem derramamento imediato de sangue, mas que gerará inevitavelmente uma resistência palestiniana, seguida de uma repressão sangrenta por parte do exército.
Os palestinianos só são tolerados se se assimilarem à paisagem, tornando-se objetos inanimados que renunciam à sua identidade coletiva. Mas enquanto mantiverem essa identidade, são, por definição, o inimigo. O exército e o Shin Bet continuarão a vigiá-los, utilizando dados biométricos e electromagnéticos para seguir a sua localização, as suas ações e os seus pensamentos expressos em chamadas telefónicas e nas redes sociais. A total dependência dos palestinianos em relação a Israel para obterem autorizações facilita às autoridades israelitas a recolha de informações sobre a sua situação familiar e médica, as suas tendências sexuais, as suas fraquezas pessoais e as suas estruturas sociais, e a utilização dessas informações para os obrigar a colaborar.
A supremacia judaica é clara, e o povo palestiniano é sangrado física e politicamente. No entanto, à medida que os colonatos se expandem e o exército atua, a fricção aumenta, assim como a motivação dos palestinianos para reagir. Atualmente, a violência palestiniana tem poucas esperanças de libertar a Cisjordânia; a disparidade de poder entre as partes é demasiado evidente. Em vez disso, o seu objetivo é impor um preço, qualquer que seja, aos colonizadores.
Raiva perigosa
Esta resistência é uma fonte de raiva para os colonos. Como é possível que todo o seu poder e supremacia não tenham ainda apagado a identidade e a resistência palestinianas? Esta "frustração" está na origem de pogroms como os que vimos na semana passada, que levam o exército e o governo a usar ainda mais a força para alargar o projeto de colonização. Há alguns dias, o coronel (reservista) Moshe Hagar, diretor da academia pré-militar do colonato [religioso ortodoxo] de Beit Yatir [a sul de Hebron], apelou à destruição de uma cidade ou de uma aldeia palestiniana para dar uma lição aos palestinianos. Bezalel Smotrich, que é simultaneamente Ministro das Finanças e Ministro dos Assuntos Civis da Cisjordânia, qualificou de "falsa e perigosa" qualquer comparação entre aquilo a que chamou "terror árabe" e "contra-operações civis".
A sua "frustração" é hoje maior do que no passado. Nos anos 1980 e 1990, os colonos dos territórios ocupados passaram de um movimento civil apoiado pelo establishment para o próprio establishment. Chegaram aos níveis executivos dos organismos civis e de segurança do governo que controlam a população palestiniana e as suas terras. Hoje, sob o atual governo de extrema-direita, atingiram o auge dos seus poderes. Não pensam, nem por um momento, em reconhecer os limites do seu poder, porque o vetor das suas ambições políticas é linear e inequívoco. Não podem recuar.
A ideia de conter o conflito para não perder o seu controlo - como pretendem o exército, o Shin Bet e a polícia - é inaceitável para aqueles cuja raiva é igualada pelo seu extremismo político e teológico. Os colonos estão a pressionar as forças de segurança para que atuem de acordo com a visão de Moshe Hagar. Ao contrário da Operação Escudo Defensivo, durante a qual o exército israelita destruiu física e politicamente a Autoridade Palestiniana em 2002 com invasões urbanas devastadoras, agora não há líderes para dizimar. A Autoridade Palestiniana, sob a liderança do Presidente Mahmoud Abbas, já o fez ao serviço de Israel. O apelo da direita israelita ao lançamento do "Escudo Defensivo II" é, pelo contrário, um apelo à ação que coloca os civis palestinianos no centro do alvo, em vez de os considerar meras e aceitáveis vítimas colaterais.
O fim do conflito e a solução de dois Estados deixaram de ser um assunto da atualidade para a opinião pública israelita e para a comunidade internacional. Na ausência de uma solução - ou, mais exatamente, de vontade de a encontrar -, os governos estrangeiros, incluindo os Estados árabes, permitiram que Israel criasse um regime único em toda a área entre o rio e o mar, sem ter de declarar oficialmente a anexação.
O facto de dois grupos diferentes viverem sujeitos a dois conjuntos de leis sob um único soberano significa que Israel está a implementar práticas de apartheid, supremacia racial e regime militar não como parte da sua política externa, mas sim como parte da sua política interna.
É por isso que, por exemplo, o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, procura criar a sua própria milícia privada, ter o poder de colocar cidadãos israelitas sob detenção administrativa e aumentar a penetração do Shin Bet na vida dos cidadãos palestinianos de Israel. E, na sequência dos acontecimentos de maio de 2021 [confrontos durante o Ramadão, em abril-maio], o exército israelita elaborou agora planos para agir contra os cidadãos palestinianos em caso de conflito.
Os dirigentes israelitas estão conscientes de que ainda têm de vergar a lei à sua vontade, caso contrário, a identidade de toda a região entre o rio e o mar nunca será exclusivamente judaica. E, infelizmente, a esquerda judaica sionista não tem nem a visão nem a coragem de impedir esta tendência.
Menachem Klein é professor de Ciências Políticas na Universidade de Bar Ilan. Foi conselheiro da delegação israelita durante as negociações com a OLP em 2000 e foi um dos líderes da Iniciativa de Genebra. Artigo publicado no sítio israelita +972, em 26 de junho de 2023, e publicado em hebraico no Local Call; Traduzido e publicado em A l'Encontre. Trdaduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.