Nas últimas três semanas, o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) documentou “o período mais mortal para jornalistas que cobrem conflitos desde que o CPJ começou a rastrear em 1992. De 7 a 27 de outubro de 2023, pelo menos 29 jornalistas estiveram entre os mais de 8.000 mortos em ambos os lados desde o início da guerra”.
Em comunicado, o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) explica que está a investigar todos os relatos de jornalistas mortos, feridos, detidos ou desaparecidos na guerra, incluindo aqueles feridos quando as hostilidades se espalharam pelo vizinho Líbano.
A 27 de outubro, as investigações preliminares do CPJ revelaram que, pelo menos, 24 jornalistas palestinianos, quatro israelitas e um libanês foram mortos. Acresce que oito jornalistas ficaram feridos e nove foram dados como desaparecidos ou detidos. O CPJ denuncia ainda ataques contínuos, prisões, ameaças, censura e assassinatos de familiares, e avança que está também a investigar numerosos relatos não confirmados de outros jornalistas mortos, desaparecidos, detidos, feridos ou ameaçados, e de danos a escritórios dos media e residências de jornalistas.
O Comité alerta que “os jornalistas em Gaza enfrentam riscos particularmente elevados quando tentam cobrir o conflito face a um ataque terrestre por parte das tropas israelitas, a devastadores ataques aéreos israelitas, a interrupções nas comunicações e a extensos cortes de energia”.
Sherif Mansour, coordenador do programa do CPJ para o Médio Oriente e Norte de África, enfatizou que “os jornalistas são civis que realizam um trabalho importante em tempos de crise e não devem ser alvo de partes em conflito”.
“Os jornalistas de toda a região estão a fazer grandes sacrifícios para cobrir este conflito doloroso. Os que estão em Gaza, em particular, pagaram, e continuam a pagar, um preço sem precedentes e enfrentam ameaças exponenciais. Muitos perderam colegas, familiares e meios de comunicação social e fugiram em busca de segurança quando não há porto ou saída segura, acrescentou”.
A lista publicada pelo CPJ está a ser atualizada regularmente.
“Um apagão de comunicações é um apagão de notícias"
O CPJ afirma-se “profundamente alarmado com os relatos generalizados de um apagão de comunicações em Gaza”.
“À medida que as agências de notícias perdem contacto com as suas equipas e repórteres em Gaza, que testemunham de forma independente para fornecer informações sobre os desenvolvimentos e o custo humano desta guerra, o mundo está a perder uma janela para a realidade de todas as partes envolvidas neste conflito”, escreve o CPJ.
O Comité alerta que, “à medida que a capacidade dos jornalistas de se envolverem na recolha de notícias e de obterem relatos de testemunhas se tornou cada vez mais limitada, a capacidade do público de saber e compreender o que está a acontecer neste conflito está gravemente comprometida, com prováveis ramificações em todo o mundo”.
“Um apagão de comunicações é um apagão de notícias. Isto pode levar a consequências graves, com um vácuo de informação factual e independente, que pode ser preenchido com propaganda mortal, desinformação e fake news”, acrescenta o CPJ.
Sublinhando que, “atingir deliberadamente jornalistas ou infra-estruturas mediáticas constitui possíveis crimes de guerra”, a organização coloca-se, “nesta hora sombria”, ao lado “dos jornalistas, daqueles que procuram a verdade, cujo trabalho diário nos mantém informados sobre factos que lançam luz sobre a condição humana e ajudam a responsabilizar o poder”.
Israel não garante segurança de jornalistas
Segundo as agências de notícias Reuters e AFP, as Forças Armadas israelitas afirmaram que não podem garantir a segurança dos jornalistas em Gaza, alegando que o Hamas "deslocou deliberadamente operações militares para perto de jornalistas e civis".
"A situação no terreno é terrível, e a relutância das Forças Armadas de Israel em dar garantias sobre a segurança do nosso pessoal ameaça a sua capacidade de transmitir notícias sobre este conflito sem medo de serem feridos ou mortos", frisa a Reuters em comunicado.
O diretor da AFP, Phil Chetwynd., alertou para a situação "incrivelmente precária" dos jornalistas, que estão a "trabalhar em condições extremamente perigosas".