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Os animais são entretenimento?

Vivemos numa dualidade onde os animais domésticos já têm vários direitos reconhecidos e outros animais são forçados a participar em eventos que lhes causam stress ou lhes é infligida dor e muitas vezes a morte. Por David Sher
Em 2018, a luta contra a tauromaquia intensificou-se: a mobilização estudantil levou ao fim das garraiadas em Coimbra e Évora
Em 2018, a luta contra a tauromaquia intensificou-se: a mobilização estudantil levou ao fim das garraiadas em Coimbra e Évora

Touradas, garraiadas, circos, feiras medievais, a caça, lutas de galos ou de cães… Estes espetáculos são incorporados em festas, eventos culturais ou didáticos e todos eles mantêm os animais em cativeiro usando-os contra a sua vontade para entretenimento humano. Algumas práticas já foram rejeitadas pela maioria da sociedade e outras ainda se mantêm. Vivemos numa dualidade onde os animais domésticos já têm vários direitos reconhecidos e outros animais que são considerados mais perigosos ou não tão próximos do ser humano são forçados a participar em eventos que lhes causam stress ou lhes é infligida dor e muitas vezes a morte. A luta de cães já é proibida mas uma luta desigual entre humanos e animais, como a tauromaquia, é, no entanto, apoiada por subsídios públicos.

Num planeta dominado pelo capitalismo, o ser humano está habituado a usar todos os recursos disponíveis para lucrar e satisfazer os seus caprichos. Existe um largo consenso num diagnóstico a nível global de que estamos a destruir o planeta a uma velocidade crescente com a poluição, a exploração massiva de recursos e a extinção de várias espécies, mas localmente pouco se tem conseguido avançar para reverter essa situação. O que podemos em Portugal fazer para proteger a fauna e a flora? Eu diria que para começar, podemos ver-nos livres das práticas das quais a sociedade depende menos, e nisso tem havido propostas concretas, nomeadamente no que concerne os espetáculos tauromáquicos e de circo, onde animais têm vindo a ser maltratados. Os argumentos que colocam estas duas formas de espetáculo como herança cultural e preservação das espécies são falaciosos. As práticas culturais modificam-se, avançam e eventualmente percebe-se que caem em desuso ou até vão contra novas premissas éticas que passam a ter lugar com o avanço prático, científico e social a que assistimos. Já a preservação da biodiversidade e dos animais, não se pode garantir em troca do seu sofrimento. Não raras vezes cabe ao Estado garantir programas de preservação que se coadunem com os avanços sociais e científicos. E não é justamente o dever da sociedade e do Estado proteger os touros tal como deve proteger qualquer animal ou ecossistema em extinção?

Em 2018, a luta contra a tauromaquia intensificou-se: a mobilização estudantil levou ao fim das garraiadas em Coimbra e Évora. No Porto esta prática já tinha terminado em 2016. Alguns municípios decidiram não disponibilizar dinheiro ou espaço público para a organização de touradas ou circos que envolvam animais nos seus espetáculos. Neste momento discute-se uma legislação para a abolição de animais nos circos. E no próximo dia 5 de julho discutem-se em Plenário da Assembleia da República três projetos lei que propõem que não haja apoios públicos à tourada, que esta não seja transmitida em horário nobre e por fim um outro que decreta a sua abolição. Perante esta crescente ameaça ao negócio, a ProToiro aliou-se à Fundação do Touro de Lide (Espanha) e ao Observatório Nacional das Culturas Taurinas (França) para intensificar a defesa e promoção taurina. E agora, mais do que nunca, é importante uma tomada de posição concreta baseada numa reflexão que questiona se infligir dor em animais para o entretenimento dos humanos é aceitável; se uma sociedade justa pode mascarar tortura em cultura; e se continua a ser aceitável a exploração desnecessária para o gáudio de alguns. Já tivemos vários momentos na história em que a cultura se mostrou desfasada e agressiva para os momentos históricos e evolução a que assistimos.

Esta “cultura” que satisfaz cada vez menos portugueses sai cara aos contribuintes. São estes que veem uma boa fatia do orçamento dos seus municípios a servir como patrocínio dos eventos tauromáquicos locais; a televisão pública faz mau uso do seu horário nobre transmitindo e promovendo as touradas; e os serviços de urgência do SNS ficam sobrecarregados sempre que se realizam corridas de touros. Enquanto que proibições à tourada como na Póvoa de Varzim são de louvar, este não é um assunto local, mas é uma matéria que diz respeito a todos e que envolve pessoas em qualquer ponto geográfico em Portugal, tenham estes mais ou menos tradição de garantia do bem-estar animal.

Texto de David Sher

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