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ONG querem chumbo da “remoção de carbono” proposta pela Comissão Europeia

Nas consultas com a Comissão Europeia, o lóbi das petrolíferas quer usar o pretexto da “remoção de carbono” para continuar a queimar combustíveis fósseis, alerta o novo relatório do Corporate Europe Observatory.
Imagem incluída no relatório “A aposta climática mortal”

Até ao final de novembro, a Comissão Europeia vai apresentar a sua proposta de regras para a certificação da remoção de carbono. No relatório “A aposta climática mortal” publicado esta segunda-feira, o Corporate Europe Observatory e outras nove ONG defendem que a proposta deve ser rejeitada, pois é “mais um artifício criado para que indústria do petróleo e gás mantenha o fluxo de combustíveis fósseis, correndo o risco de ter consequências catastróficas”.

Em causa está o tão propalado objetivo “net zero” em 2050, que os ativistas dizem não ser mais que o resultado da ação dos lóbis dos gigantes da energia. Esta “neutralidade carbónica” assenta na ideia de que a continuação das emissões pode ser equilibrada pela remoção de carbono da atmosfera através da compensação, captura ou remoção de CO2. As ONG dizem que as tecnologias com esse fim têm resultado em “repetidos fracassos” e a críticas “por ser um desperdício de dinheiro público e apenas servir para continuar a bombear mais petróleo”.

No entanto, a captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS, a sigla em inglês) está na lista de tecnologias de "remoção de carbono" propostas pela Comissão Europeia, alertam. Tais planos são contraditórios com os avisos do  Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, “que deixa claro que apenas cortes rápidos nas emissões durante a próxima década nos podem manter abaixo de 1,5ºC de aquecimento”. O seu relatório mais recente, acrescentam as ONG, “conclui explicitamente que a remoção de CO2 ‘não pode servir como um substituto para reduções profundas de emissões’”.

O relatório conclui que as petrolíferas aproveitaram o período de consultas junto da Comissão para “fazer lóbi para um apoio massivo à CCUS, incluindo uma ampla rede de transporte e armazenamento de CO2”. E a prova de que foram bem sucedidos está na comunicação final da Comissão, que canaliza mais dinheiro público para a captura e cria um fórum anual com a indústria a ter o papel principal. Por outro lado, os gigantes da energia pressionam Bruxelas a criar um mercado de remoção de carbono, expandindo o atual sistema de comércio de emissões, que já é responsável pelo chamado “colonialismo do carbono”, com requisições forçadas de terra e abusos dos direitos humanos em países terceiros, uma tendência que se agravaria caso essas pretensões avancem.

Segundo as ONG, a dimensão da infraestrutura necessária para a captura e armazenamento prevista para 2050 equivale a entre o dobro e o quádruplo da que hoje serve a indústria petrolífera. E o armazenamento no subsolo implica riscos de fugas, contaminação de água potável e a possibilidade de sismos. Até agora, 81% do carbono capturado em todo o mundo serviu para extrair mais petróleo, avisam.

"O CCUS e outras tecnologias de geoengenharia arriscadas, em grande parte não testadas, são um cartão a dizer “você está livre de prisão” para os Grandes Poluidores. Uma verdadeira solução para enfrentar a crise começa com a rápida eliminação dos combustíveis fósseis”, diz Belén Balanyá, investigadora e ativista do Corporate Europe Observatory, que produziu este relatório em colaboração com o Biofuelwatch, Corporate Accountability, Food and Water Action Europe, Friends of the Earth Europe, Friends of the Earth International, Friends of the Earth Scotland, Institute for Agriculture and Trade Policy Europe, ReCommon e Third World Network.

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