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O que sabemos e não sabemos sobre as ligações entre a poluição atmosférica e o coronavírus

Apesar de ser certo que a poluição aumenta doenças crónicas que nos tornam mais vulneráveis ao coronavírus, o especialista Alastair Lewis explica que é cedo para tirar conclusões definitivas sobre outro tipo de influências.
Mural sobre poluição na Indonésia. Foto de Ikhlasul Ama/Flickr.
Mural sobre poluição na Indonésia. Foto de Ikhlasul Ama/Flickr.

Enquanto cientista da atmosfera, estou bem ciente de que a poluição do ar é má. E enquanto ser humano em pleno 2020, estou ciente de que este coronavírus também é mau. No entanto, embora seja verdade que a poluição e a pandemia são piores nas cidades, as correlações simplistas entre a qualidade do ar e as mortes pela covid-19 não têm frequentemente tomado em consideração outros fatores relacionados com a geografia.

Existem sobreposições substanciais entre a lista de condições exacerbadas pela poluição do ar – acidentes vasculares cerebrais, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias e outras – e aquelas agora conhecidas por aumentarem a taxa de mortalidade da covid-19. E a exposição à poluição e ao coronavírus pode ocorrer pelo ar. Isto significa que fazer uma conexão entre os dois parece ser tentador, pelo menos de um ponto de vista superficial.

É, por isso, compreensível que tenha havido tanta discussão sobre como a poluição do ar afeta as taxas de mortalidade por esta doença. Nesta discussão inclui-se um conjunto de novos artigos científicos, muitos dos quais ainda não foram revistos por pares e que por isso têm de ser lidos com cautela, e uma grande atenção por parte dos media (o The Guardian publicou pelo menos cinco artigos sobre as ligações entre os dois).

A poluição do ar nos países de rendimento mais elevado é habitualmente um problema centrado na população. É, contudo, essa associação próxima entre a poluição do ar e as próprias cidades que dificulta a compreensão exata sobre como a poluição afeta a mortalidade pela covid-19.

O vírus surgiu na cidade densamente povoada de Wuhan, tendo-se espalhado rapidamente para outras cidades de grande dimensão em todo o mundo. Isto faz sentido: cidades como Nova Iorque e Londres têm ligações globais de viagem amplas e as suas densidades populacionais potencializam maiores taxas de contágio de pessoa para pessoa. Estes locais tiveram um rápido crescimento inicial de infeções e foram o primeiro foco de atenção.

Mas as populações das áreas urbanas têm outras características muito relevantes, para além da exposição à poluição do ar. Costumam usar transportes públicos, podem ter taxas mais altas de pobreza e privação material e as cidades contêm, em proporção, um maior número de minorias étnicas. Muitos destes outros fatores aumentam a prevalência de doenças respiratórias, doenças cardiovasculares e diabetes.

Estes diferentes fatores amontoam-se em ambientes urbanos, aumentando a probabilidade de uma pessoa ter uma doença que, por sua vez, pode tornar a COVID-19 mais perigosa.

O ar mais limpo nas cidades que estão em quarentena pode levar a algum pensamento mágico. A qualidade do ar é, afinal, algo que potencialmente se pode alterar muito rapidamente, ao contrário de uma vida inteira a fumar ou de uma dieta pobre. Descrever as interações entre a poluição do ar e a covid-19, talvez nos tenha dado uma esperança em tempos sombrios de que haveria uma maneira prática de reduzir os efeitos do vírus, ainda que a mudança nos resultados fosse altamente incerta e possivelmente negligenciável.

Os dados da poluição do ar são vítimas do seu próprio sucesso

A enxurrada de artigos científicos sobre este tópico pode indiciar um outro enviesamento. Os dados da poluição do ar são tipicamente recolhidos para mostrar uma conformidade com os padrões oficiais altamente recomendados – na UE e no Reino Unido o limite médio anual de dióxido de azoto é de 40 microgramas por metro cúbico, por exemplo. Estes valores estão previstos por lei e sempre que foram ultrapassados foram tomadas ações legais.

Estes dados estão bem organizados, são rastreáveis e tornaram-se fáceis de aceder. São um ponto inicial óbvio para o qual olhar ao procurar associações com a COVID-19, uma vez que se prestam à comparação imediata com dados sobre o número de mortes e infeções. Talvez os dados sobre a poluição do ar sejam vítimas do seu próprio sucesso. Por serem dados globais acessíveis e confiáveis, poderão ser a variável do eixo y em demasiadas correlações.

Com o tempo surgirão conjuntos de dados mais completos e a doença espalhar-se-á mais uniformemente pela geografia de cada país, para lá dos pontos mais críticos da cidade. Será então possível sondar a história dos indivíduos afetados com mais detalhe de forma a determinar a sua exposição a longo prazo, a conectar essas influências ambientais aos resultados da covid-19 e, fundamentalmente, dar conta de todos os outros fatores misturados.

No entanto, no decorrer da pandemia, e sem que a doença se tenha espalhado ainda por completo, as correlações com a poluição do ar não passam disso mesmo. Estas ainda não provam que há um efeito adicional ou não contabilizado da poluição atmosférica na covid-19, exceto pelo facto desta ser um importante e estabelecido fator que contribui para aumentar o número de doenças crónicas na população.

Nos próximos meses, terão de ser respondidas algumas questões importantes de curto prazo. Será que reduzir ainda mais a poluição do ar nas cidades teria algum efeito benéfico e melhoraria o prognóstico das pessoas infetadas ou em recuperação? Se as localizações dos grupos vulneráveis já são conhecidas, está o efeito da poluição atmosférica na população já a ser tomado em conta no planeamento de políticas de saúde? Terão a poluição do ar, e as partículas finas em particular, um papel na propagação do vírus quando transportadas pelo ar? Algumas destas perguntas podem ser abordadas através da ciência de dados, mas outras quase de certeza que precisarão de investigação laboratorial, e as respostas definitivas podem não aparecer rapidamente.


Alastair Lewis é diretor científico no National Centre for Atmospheric Science da Universidade de York.

Artigo publicado no The Conversation. Tradução de Karim Quintino para o Esquerda.net.

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