No bairro do Zambujal, na Amadora, há um projeto educativo que presta apoio educativo a mais de 50 crianças do bairro. É o Percursos Acompanhados E9G, promovido pela Cooperactiva, uma cooperativa de desenvolvimento social que atua no bairro. É um projeto focado no sucesso escolar e nas competênciais pessoais que procura colmatar as falhas de um Estado que fica à porta do bairro. Mariana Mortágua visitou na passada terça-feira o projeto, onde teve oportunidade de falar com quem lá trabalha sobre as suas conquistas e desafios.
“É preciso trabalhar com toda a comunidade”, diz Marli Godinho, a coordenadora do projeto. “Por isso é que trabalhamos muito diretamente com as famílias, com as escolas e com outros elementos da comunidade”.
O projeto tem poucos recursos humanos, e por isso depende desse alargamento para conseguir ter o máximo de impacto possível. Marli dedicou 16 anos da sua vida ao Percursos Acompanhados e gere uma equipa com dois elementos a tempo inteiro e dois elementos a tempo parcial, mas que funciona em articulação com vários voluntários. É o caso de André, professor de físico-química que vai semanalmente ao espaço do projeto para ajudar alunos com dificuldades na área.
Para além da Marli, que tem formação em psicologia, trabalham no Percursos Acompanhados pessoas com formação em artes plásticas, em comunicação e arquitetura. Os voluntários dão apoio educativo ou ajudam a fazer mediação com a escola, para apoiar a equipa nuclear no seu trabalho.
“Neste momento temos entre 50 e 55 jovens que vêm cá de forma regular, mas depois temos uma comunidade alargada com quem trabalhamos”, explica Marli. “O grande foco é o estudo, queremos promover o sucesso escolar, porque acreditamos que isso abre portas para o futuro”.
Mas há também um foco no desenvolvimento de outro tipo de competências. Para isso, o projeto promove atividades desportivas, artísticas e culturais. Uma vez por semana, ao final da tarde, as crianças que participam no projeto fazem yoga, fazem visitas a museus, a exposições.
A coordenadora do projeto diz que “muitas vezes as crianças têm a ideia de que muitas vezes não pertencem àqueles lugares” e indica que o objetivo destas visitas “é mostrar-lhes que não só pertencem, como têm o direito a usufruir” deles.
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Um trabalho inestimável
Apesar de o projeto ter metas anuais para analisar o seu “sucesso” a partir de um diagnóstico contínuo, Marli garante que o maior indicador da qualidade do trabalho que fazem é a confiança construída com as famílias daquele bairro.
“Temos pessoas que fizeram parte da primeira geração do projeto e que tiveram filhos com os quais trabalhamos. Já tivemos casos até de ter três gerações diferentes da mesma família a participar”, diz.
É uma validação por parte da comunidade que recompensa o esforço e a falta de condições e recursos do projeto, que é financiado pelo programa Escolhas. “É um grande medidor de sucesso”, confirma a coordenadora do Percursos Acompanhados. Só que a falta de financiamento é mesmo um desafio grande.
O financiamento que está neste momento a sustentar o projeto tem uma amplitude de dois anos, “o que significa que ao fim desse tempo nunca sabemos se há continuidade ou não há continuidade”. Só que a equipa ainda não conseguiu um enquadramento na Segurança Social que pudesse garantir um financiamento mais estruturado ao Percursos Acompanhados.
“Este projeto, devido às restrições financeiras que tem, só é possível através de parcerias”. É “um grande consórcio”, como lhe chama Marli. As parcerias vão desde os espaços culturais que visitam, ao espaço onde as crianças fazem yoga, ou até mesmo ao próprio espaço do projeto, que é cedido pela Câmara Municipal da Amadora.
Devido a esta precariedade que é a dependência de financiamentos quase anuais, o Percursos Acompanhados teve de se adaptar a outros formatos. Num dos anos, não conseguiu financiamento, e por isso tiveram de fechar portas às crianças. Só que Marli e mais uma colega continuaram a procurar novas formas de financiamento “sobretudo no tecido empresarial”, mas sem sucesso.
É um problema transversal a várias cooperativas, associações e projetos que prestam serviços e respostas sociais e culturais em todo o país. “No Zambujal há outros projetos com caraterísticas diferentes, mas é mesmo um problema geral, porque mais nenhum dos outros projetos conseguiu dar o salto para uma resposta que não necessite deste tipo de financiamento”. Num bairro onde o Estado prefere ficar à porta, os projetos sociais criados pela comunidade acabam por estar reféns da precariedade.