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Mulheres de Abril: Testemunho de Maria Vitória Vaz Pato

A não violência a exemplo de Luther King estimulou-me a comprometer-me na luta contra o fascismo. Quando conheci o Luther King português (Nuno Teotónio Pereira), acompanhei-o num trabalho político de divulgação de textos formadores de uma consciência política, como os do jornal Direito à Informação. Por Maria Vitória Vaz Pato.
Maria Vitória Vaz Pato, 1959.

Este é o décimo terceiro testemunho de uma série de mais de 20, a ser publicada pelo Esquerda.net. São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. O próximo testemunho será publicado na terça-feira, dia 2 de maio. Coordenação de Mariana Carneiro.


A coragem vinha da esperança e da utopia de construirmos um pais livre e fraterno

Eu sou natural do Porto, e aí fiz os meus estudos. A minha mãe, que se licenciara em Farmácia em 1928, era uma católica praticante, sem cultura política e, por isso, naturalmente receptiva à propaganda do regime de Salazar. Por outro lado, o meu pai, nascido em 1897, era um republicano convicto, tendo muito jovem participado nos movimentos estudantis que animavam o Porto em defesa da República. Era frontalmente contra Salazar, anti religioso e anticlerical, posições que, naquela época, normalmente se conjugavam...Mais tarde, com os seus 70 anos, converteu-se à fé católica.

Tinha eu terminado a licenciatura em Ciências Farmacêuticas em 1958 e, não querendo enveredar pela carreira de farmacêutica de oficina, sentia por outro lado necessidade de respirar ar puro longe da ditadura. Começara a adquirir uma certa formação e consciência política: a campanha de Humberto Delgado em Maio de 1958 com a apoteótica manifestação que o acolhera no Porto, a carta que o Bispo D António Ferreira Gomes escrevera a Salazar em Julho de 1958, foram pontos importantes para o início da minha consciencialização política.


D. António Ferreira Gomes abençoa a pasta com as fitas de finalista de Farmácia, em 1958.
 

Eu tivera um passado de formação religiosa, na Juventude Universitária Católica (JUC). No entanto, então nos anos 50, não recebera nenhuma formação política nesses grupos católicos, que eram contudo grupos de grande dinamismo do ponto de vista da formação humana e intelectual, com líderes notáveis com Maria de Lurdes Pintasilgo, Manuela Silva, Mário Murteira entre muitos outros. Discutia-se muitas vezes o papel da mulher na sociedade e as perplexas normas dos Bispos sobre aspectos do vestuário feminino, etc.. Data dessa época o início da minha crítica à Igreja, que culminou nos anos 70 por um processo de abandono da prática religiosa seguido, mais tarde, após madura reflexão, de uma rotura profunda com o conteúdo da fé cristã, seus dogmas, fundamentos, assim como posições político-sociais. De certo modo, se foi a mensagem evangélica que me leva mais tarde para a atividade política, foi também o exemplo e o empenhamento de católicos meus amigos que me dão motivação para a “luta”. E deste companheirismo e amizade recebi entusiasmo e organização. Foi ainda neste contexto que conheci melhor as contradições da Igreja, que provocaram uma saída em massa de seminaristas e padres que acabaram por ser destituídos da sua função pastoral nos anos 60.

Em Paris (1959-1963) fiz uma autêntica formação política

Em 1959, terminada a minha licenciatura no Porto, parti para Paris onde fiz uma especialização na área da Microbiologia, seguida de um doutoramento (Sorbonne). Não foi fácil a minha estadia, tive que trabalhar “au pair” em casa de famílias francesas, tomando conta de crianças, enquanto estudava. Passei na realidade dificuldades. Os meus pais, não gostando do meu afastamento de Portugal, não me facilitavam materialmente a minha estadia. Mais tarde, obtive bolsas do governo Francês e da Fundação Gulbenkian, e então a minha vida era já facilitada. Não posso dizer que fugi de Portugal por razões políticas, fugi antes do tédio e da apatia sombria e fechada da sociedade, que me rodeava no Porto.

Em Paris (1959-1963) fiz uma autêntica formação política. Os tempos eram agitados e havia um grande dinamismo de pensamento e discussão política motivada pela guerra na Argélia e pela independência dos povos africanos. Lembro-me dos relatos nos jornais progressistas, da critica à forma desastrosa como os franceses procederam aquando da independência da Guiné Conacri.

Entretanto, e no âmbito de um grupo de universitários católicos, fiz uma viagem a Itália integrada numa equipa de estudantes de diversos países de África.

Maria Vitória Vaz Pato
a caminho de Itália, em 1961.
 

Aprendi então, nessa convivência aberta e simpática, muitos problemas no pós independência desses países e tentativas de democratização. Curiosamente, num grupo de estudantes de católicos da Sorbonne onde participava percebi que um agente da PIDE se integrara tentando vigiar essas reuniões, e a mim em particular. Felizmente, era tão “inculto” o informador PIDE que logo deixou transparecer quem era e seus objectivos, e consegui não me deixar prender “na relação simpática que queria comigo estabelecer como conduzir-me a casa à noite etc.. Pouco depois esse agente deixou de participar nessas reuniões. Como estava bem integrada em Paris, os meus amigos franceses assinalavam-me reuniões de movimentos diversos onde se debatiam diversos temas, entre os quais a independência das colónias portuguesas. Foi no decurso de uma dessas reuniões que me deram os contactos do Padre Joaquim Pinto de Andrade (JPA) - irmão de Mário Pinto de Andrade, fundador do MPLA, e a indicação para o ir visitar quando fosse de férias a Portugal. Ele estava em prisão domiciliária Seminário em Valadares, Gaia em residência vigiada. Isto passava-se nos anos 1962 e de 1963 a 1967.


Maria Vitória Vaz Pato em visita a J Pinto de Andrade, com Alberto Magalhães e Maria dos Anjos Catry.
 

Essas vistas eram controladas à entrada por um Pide que bebericava na taberna frente ao Seminário de Valadares. Recorda-me de um dia, com o seu humor, o JPA o repreender por ele não estar atento ao seu trabalho... Acompanhei um pouco os padres de Angola que conheci em ligação com JPA e, nessa altura, conheci o jovem Alberto Magalhães que veio a ser um colaborador na feitura do Direitos à Informação.

Regressei a Portugal no Outono de 1963

Acabado o doutoramento, definitivamente decidi regressar a Portugal no Outono de 1963. Tinha tido possibilidades profissionais de ficar em Paris, mas as notícias que me chegavam de Portugal eram de um grande activismo político entre os estudantes - greves, manifestações diversas, e isso dava-me um grande desejo de regresso, para poder participar no processo político. Arranjei finalmente um emprego em Lisboa e decidi instalar-me aqui. Curiosamente, tinha concorrido a assistente de Microbiologia à única Faculdade de Farmácia de então, que era na da Universidade do Porto. Não havendo nenhum doutorado nessa área, o meu lugar parecia adequado e garantido, segundo os consultores da Gulbenkian que tinham orientado o meu percurso. Os professores do Porto lembravam-se de mim e até me encorajaram nos meus estudos em Paris, mas, quando a minha proposta foi avaliada pelo conselho científico da Faculdade, a resposta foi curiosa: “sendo a grande maioria dos alunos na Faculdade de Farmácia do Porto, mulheres, convinha assegurar um quórum docentes masculino...”. Esta discriminação parecia-me insuportável e desta feita abandonei a ideia de me fixar no Porto.

Maria Vitória Vaz Pato, 1962.

Neste contexto, Lisboa parecia-me ser uma cidade mais aberta e mais cosmopolita. Aí encontrei emprego, num empresa de industria farmacêutica de origem francesa, sendo razoavelmente paga. Pude assim alugar um apartamento, na rua da República Peruana, em Benfica, onde passei a viver sozinha. Era raro, na época, uma mulher solteira ter um apartamento, mas estes eram hábitos de autonomia comuns na juventude de Paris. Foi esta a condição que facilitou todo o trabalho político em que me vim a comprometer. Com efeito, na época, apenas os casais alugavam apartamento próprio e tinham normalmente uma empregada doméstica – uma “criada” interna. Antes de casar, era uso viver-se com os pais, ou eventualmente as raparigas em lares para jovens universitárias geridos por religiosas (na sua maioria).

Tinha já alguns amigos em Lisboa, que conhecera em Paris, estudantes de pós graduações como eu, e por eles comecei a tentar saber qual era a rede onde poderia vir a inserir-me para trabalhar politicamente. Tinha bem reflectido em Paris e decidido que não queria aderir a nenhum partido, e que no PCP teria fortes divergências.

Luther King era então o meu mestre e referência

Era uma seguidora da filosofia da não-violência de Luther King, que era então o meu mestre e referência. Por sorte, vim rapidamente a encontrar o “Luther King português”- Nuno Teotónio Pereira (NTP). Todas as minhas informações se referiam a ele, acompanhado pela sua mulher Natália, como o motor e o dinamizador da luta política conduzida pelos católicos progressistas. Segundo me diziam, eram eles, fora dos partidos, os militantes da luta antifascista mais consistentes e generosos a trabalhar. Realmente, “a sua nobreza de carácter” com uma componente muito afectuosa e humana, faziam da personalidade do NTP o elemento ideal para a boa condução dos trabalhos. O Nuno era um optimista calmo, organizado e tinha uma enorme confiança no resultado da luta. Essa sua esperança iluminava-nos. Por outro lado, com natural modéstia, ele ia coordenando a imensa rede das ações que se organizavam. E quando alguém, por inépcia ou medo, não levava uma ação a termo, lá ia colmatar a falha, com benevolência e sem crítica..


Maria Vitória Vaz Pato com Ana Vicente e Nuno Teotónio Pereira, nos anos 2000.
 

Entretanto, o meu apartamento estava a tornar-se um espaço de convívio. Havia um grupo que aí se reunia e ponderando a eventualidade de uma missão de apoio ao desenvolvimento em África. Mas era sobretudo um lugar para conversar. Assim, todas as noites apareciam amigos e amigos de amigos. Vinham muitos seminaristas em rotura com o seminário, ou padres em rotura com os superiores eclesiásticos, jovens em rotura com as famílias conservadoras, estudantes das ex-colónias sem família em Lisboa. Vinham para conversar, criticar “o sistema”, trazer novidades de prisões, relatos dos maus tratos dos presos, histórias dos controlos da PIDE nas Faculdades. Trocavam-se panfletos ou textos clandestinos que apareciam pelas faculdades ou entregues de mão em mão, discos que se editavam e fugiam ao controlo da PIDE.

Fiz saber ao Nuno que estava interessada em trabalhar no que ele achasse útil. Aguardava integrar-me na sua equipa quando, uma noite ao serão, apareceu em minha casa um Padre, mais ou menos da minha idade (eu acabara de fazer trinta anos) - o Padre António Jorge Martins, (que ensinava no Seminário de Almada). Tinha um ar ativo, cordial e muito simpático. Conhecia todos os amigos que estavam naquele serão na minha casa e assim o acolhi facilmente. Mas acabou por não ficar muito tempo a conversar, antes com ar pragmático, de quem não tem tempo a perder, observou bem o meu apartamento, as divisões, os armários, deu uma olhadela aos livros que eu lá tinha nas estantes... E rapidamente saiu. A visita tinha sido conclusiva: o local era óptimo para “manufactura de material e armazenamento”. Mais tarde vim a compreender que, se o NTP e sua mulher eram uma base e um pivot no trabalho clandestino de uma rede de ações, cuja amplitude é difícil de circunscrever, porque a palavra de ordem era clandestinidade, o António Jorge Martins era o mais pragmático e organizado dos activistas. Conciliava rigor, bom senso, grande energia e um carácter muito cordial, sendo pragmático e perspicaz para organizar acções e escolher as pessoas certas. Mais tarde, este grande dinamizador da acção política foi, por pressões de Salazar e com aquiescência do Cardeal Cerejeira, afastado de Portugal, ainda nos meados dos anos sessenta.

A minha casa passou a ser o local de compilação e armazenamento do “Direito à Informação”

Após a visita do António Jorge, a minha casa passou a ser o local de compilação e armazenamento do “Direito à Informação”- DI. Eu tinha ainda outra vantagem, era completamente desconhecida no meio lisboeta, um curriculum vitae limpo para a PIDE. Fiquei desde então com a obrigação de nunca assinar “abaixo assinados” ou qualquer tipo de manifestos. Devo dizer que rapidamente a PIDE começou a controlar os meus movimentos, facto de que obtive posteriormente em informação no Arquivo na Torre do Tombo.

O conteúdo dos DI, bem descrito na obra de João Miguel de Almeida “A Oposição Católica ao Estado Novo”, tinha como objectivo reunir e difundir informações que não apareciam nos jornais por serem cortadas pela censura, dando–se especial atenção às notícias sobre a luta anticolonial. Saíram 18 números de 1963 a 1968. Chegaram a imprimir-se números com tiragem igual a 3.000 e mesmo 4.000 exemplares, e contendo um número de páginas que variava entre 12 e 16. Uma coleção completa dos DI encontra-se arquivada no Centro de Documentação 25 de Abril (Universidade de Coimbra).

A elaboração era coordenada por NTP e António Jorge Martins. A compilação, tradução de artigos, passagem à máquina e policopiado etc, eram feitos por outras pessoas. Desconhecíamos inteiramente os outros participantes no processo. Assim eu não sabia quem escrevia os artigos, nem quem das várias tarefas se ocupava. Igualmente essas pessoas não sabiam onde o material era dobrado e empacotado.

Tinha sido concebida e gizada esta publicação após uma reunião havida em 1963 em casa de Nuno Bragança, para os lados da Lapa, que a cedera ao NTP e colaboradores, sem sequer perguntar para quê, tal era a confiança que depositava no Nuno. Tinha ficado logo decidido que o jornal devia ser feito usando todas as regras da clandestinidade, assim cada um que fazia uma parte do trabalho não estaria a par dos outros colaboradores

No julgamento do Padre Joaquim Pinto de Andrade - JPA, que teve lugar em março de 1971, constava entre as actividades da sua acusação que distribuía propaganda clandestina e subversiva (....) entre outros de um panfleto ilegal com o título “Direito à Informação”. Foi Mário Brochado Coelho, jovem advogado, quem tão corajosa e empenhadamente defendeu a causa de Joaquim Pinto de Andrade. Segundo a sua orientação e a de NTP, treinei a minha defesa, que deveria ser muito rigorosa, não podendo dizer que JPA não era pelo direito à independência, mas, por outro lado, devia defende-lo das acusações que sobre ele pendiam. Como tinha trabalhado no Teatro Universitário, usei de forma exagerada os meus dons declamatórios, referindo versículos do Evangelho onde se defendiam os pobres e os oprimidos e... consegui de forma dramática ver o juiz e os Pides espantados a ouvir a minha declamação... Com efeito a sala do julgamento (onde não podíamos entrar), estava repleta de Pides.

Nós, as 20 testemunhas, estivemos à porta da sala durante os 2 dias em fila, aguardando a nossa vez de sermos chamados (lembro entre elas o Padre Adriano Botelho, Dr. António Alçada Baptista, Prof. Lindley Cintra, Arq. Nuno Portas, Dr. João Bernard da Costa, Eng. Alberto Magalhães, Sofia Melo Breyner). Íamos ouvindo os depoimentos das testemunhas de defesa. Neste caso, recordo-me do testemunho de Frei Bento e dos gritos do juiz e advogado de acusação às suas respostas desassombradas, com insistência interrogando-o sobre o seu envolvimento na feitura dos DI.

Cabia, como disse, à equipa ligada à minha casa a feitura dos cadernos do "Direito à Informação": dobragem, empacotamento assim como parte da distribuição e endereços para os que eram enviados pelo correio e armazenamento.

O NTP comunicava-me, de forma sempre “elíptica”, pelo telefone do meu emprego, quem vinha trabalhar. Eu não tinha telefone em casa, era difícil, naqueles tempos, essa aquisição. Assim, era pela telefonista do Laboratório onde trabalhava, que recebia recados e, por vezes, geravam-se confusões e dislates... Mas este meio de comunicação salvaguardava-nos da vigilância da PIDE.

Chegavam de noite os pacotes de folhas frescas das máquinas policopiadoras, por um portador cujo nome por vezes eu não conhecia, em malas ou pacotes escondidos em sacos. Depois, reunia-se o grupo dos trabalhadores das noitadas, preferencialmente aos sábados e domingos. À volta de uma mesa, passávamos, de modo bem coordenado, de mão em mão, as folhas que íamos dobrando, juntando, inserindo e constituindo em cadernos. Procedíamos de forma mecânica e em ritmo fabril... Entre 3.000 a 4.000 era o número de exemplares a compor.

José Vaz Pato, marido de Maria Vitória Vaz Pato, com Alberto Magalhães e sua esposa Maria Amália.
 

A equipa principal era constituída por Ana Vicente, Luís Jorge Martins, o Arquiteto João Correia Rebelo, este ainda antes do 25 de Abril emigrou para o Canadá. Deram ainda grande apoio a este trabalho na distribuição e na feitura Alberto Magalhães do Porto e sua futura mulher, Maria Amália.

Além da composição dos cadernos, a equipa que vinha trabalhar a minha casa ainda se encarregava de parte importante da distribuição. Entre eles, cito Maria dos Anjos Monge hoje Maria dos Anjos Catry, Padre António Correia, pároco da margem sul,. Havia ainda outros colaboradores a dar apoios pontuais, Maria Helena Castro Torres, o Joel Hasse Ferreira o Francisco Jorge e Maria de Fátima Patriarca e Jorge Almeida Fernandes.

O trabalho durava até de madrugada, na sala, com as persianas e os cortinados fechados, para não se descobrir luz do exterior, e falávamos com discrição. Geralmente ouvíamos baixinho um disco “revolucionário” de 45 rotações, Zeca Afonso era o mais habitual. Estes discos eram habitualmente apreendidos pela PIDE nas discotecas, mas por “conhecimentos especiais” havia sempre um de nós a conseguir que um editor lhe “vendesse/cedesse um disco”. As editoras discográficas mantinham sempre escondido um stock de uns tantos discos que vendiam depois a pessoas de confiança. Rodávamos o disco até à exaustão e cantarolávamos baixinho: “Os vampiros - eles comem tudo, eles comem tudo...”

Íamos também comendo qualquer coisa e bebíamos muito café. Por vezes eu comprava um frango assado e ia-se depenando a carne até ficarem os ossos...Alguns dos “trabalhadores” saíam mais cedo, mas outros, sem transportes àquelas horas tardias, dormiam onde houvesse espaço na minha casa, metidos em sacos-cama, no chão da cozinha, ou no corredor, porque o apartamento era pequeno. O facto de sermos todos jovens, cujo “progressismo” nos dava uma maior abertura de mentalidade, permitia que tudo se passasse numa sã camaradagem de grande limpidez.

Ana Vicente trabalhava em muitas outras acções, e acabou por ser presa. Nos DI era sobretudo na elaboração e distribuição. Não estava presente nas noitadas, porque vivendo no Estoril não lhe era fácil o transporte. Discutíamos a maneira de evitarmos que o nosso trabalho fosse apanhado pela PIDE e a Ana sugeria técnicas e cuidados no manuseamento. Passámos as duas a usar, em telefonemas, o código de DIDI para os "Direitos à Informação". O trabalho dos subscritos feito pelas duas era lento e divertido. Os endereços e inserção nos envelopes eram feitos a partir de longas listas entregues pelo NTP, que estavam sempre a ser aumentadas. Usávamos sobretudo envelopes correntes no mercado, mas sempre em formato e tipo variado, e quando conseguíamos utilizávamos envelopes timbrados de diversas Instituições, ou de Departamentos inventados. Éramos muito imaginativas e tínhamos sempre novas soluções. A Ana Vicente e eu divertíamo-nos muito a imaginar diversos tipos de caligrafias, consoante o endereço da carta: caligrafia do tipo de pessoas iletradas, caligrafia de pessoa idosa, etc. pensávamos, assim a melhor maneira de iludir a PIDE...

As Listas de destinatários de envios eram criteriosamente elaboradas e vinham enviadas pela “coordenadora do NTP”:

1º -Pessoas identificados como progressistas

2º- Instituições religiosas

3º- Padres e Bispos


Algumas das centenas de fichas do ficheiro para os envios indicavam direcções e, no canto superior direito, o número de exemplares a enviar.
 

Sabíamos que, por norma estabelecida, havia sempre uma percentagem de correspondência que era aberta pela PIDE, e outra que era aberta porque os destinatários estavam a ser vigiados. Assim, devíamos distribuir as cartas e os pequenos pacotes em caixas de correio, de forma dispersa, em variados pontos dos bairros de Lisboa e arredores, e mesmo em zonas afastadas de Lisboa.

As ditas pessoas consideradas “progressistas” que recebiam o DI, davam-nos também forma de fazer um controlo do funcionamento e êxito da sua recepção. Então, na rede dos “progressistas" nossos amigos, quando os visitávamos, sugeríamos conversas onde se falava de um tal jornal que andava por aí a circular e as pessoas contavam que o tinham recebido, ou achando que era tão perigoso mantê-lo em casa, o tinham queimado a seguir. O António Jorge, que circulava por numerosos grupos católicos, promovia e centralizava essa informação, que nos divulgava a seguir afim de melhorar ou alterar a forma da distribuição.

As aventuras da difusão e distribuição dos DI

Vou descrever uma outra missão que acabou por ter algo de divertido, e que ilustra as aventuras da difusão e distribuição dos DI.

Um dia, encarregaram-me de levar “material” pacotes de DI e outros textos para o Porto. Era nas vésperas de Natal, onde me deslocava para festejar a data com a minha família. Tratava-se de uma pesada mala que alguém me iria levar à estação de Santa Apolónia. Tinham-me feito a descrição da pessoa: António Correia, então padre na região de Almada. No Porto, devia entregar a mala a Alberto Magalhães.

O primeiro problema surgiria após ter recebido a pesadíssima mala na estação de Santa Apolónia, e a ter conseguido arrastar até ao meu lugar no comboio. Ao tentar colocar a mala com visível esforço no local destinado à bagagem por cima do meu assento, aparece-me um revisor... que me trata pelo nome e pelo título de doutora ... Pensei logo, é a PIDE pela certa, que já me procura! Afinal, tratava-se de um revisor da CP pai de uma funcionária do Laboratório onde eu trabalhava e que, ao passar por ali, me reconheceu e amavelmente se dispunha a ajudar-me na difícil tarefa. Contudo, mal tocou na mala, abriu a boca de espanto: mas que leva a doutora nesta mala? Do meu tempo de Teatro Universitário, ficou-me a facilidade na improvisação: “Sabe, tenho muitos parentes no Porto: sobrinhos, primos e tios e este ano, resolvi oferecer-lhes apenas livros, atlas, enciclopédias, conforme o gosto e idade de cada um; foi a forma de facilitar a aquisição dos meus presentes de Natal, por isso devo levar mais de 20 quilos de livros”...

O segundo problema, surgiria no decurso da entrega do material a Alberto Magalhães, na estação do Porto. Para evitar confusão com o meu pai, que habitualmente me aguardava gentilmente na estação (então em São Bento), achámos que a melhor solução era o Alberto ir esperar-me à estação anterior, a de Gaia-Devesas. Entretanto, o meu pai esperava pacientemente por mim na estação do Porto e não me encontrara à saída do comboio. Quando cheguei a casa, depois do Alberto Magalhães me deixar nas proximidades, lá tive de inventar outra história fantasiosa para o desencontro. Mas o meu pai começava a desconfiar de alguns “encontros” que eu começava a fazer quando vinha ao Porto, e tacitamente aceitou este desencontro que não entendeu. Ainda guardo como recordação a cópia de um documento político que o meu pai copiara na sua velha máquina de escrever e me enviara em carta não assinada, que não cheguei a receber por ter sido apreendida pela PIDE e que vi arquivado na Torre do Tombo. Por aqui se vê o grande controlo que exerciam nos correios os serviços de vigilância da PIDE.

Estas e outras são as pequenas histórias que ocorriam em paralelo. 

A forma ambígua e reveladora de “menoridade” com que a Igreja/hierarquia tratava os cristãos

A Igreja Católica era então presidida pelo cardeal Cerejeira, amigo e colega de Salazar. No entanto, as relações entre os dois nem sempre eram fáceis, cada um tinha um poder e “um país" a defender. O Cardeal era uma pessoa inteligente, culta, político manobrador, habilidoso e dúbio. Apreciava e tinha orgulho em contar, entre o seu clero, com jovens padres - arquitectos, engenheiros etc. que provinham de uma elite com formação intelectual e universitária não comum nos Seminários antes dos anos cinquenta e sessenta. Mas quando eles avançavam com tomadas de posição na luta política, aí o Cardeal já não era aquele homem moderno que aparentava, receava e punia rigorosamente qualquer incursão progressista/comunista, como tudo era logo apelidado se combatia frontalmente o regime. Exemplo entre muitos é o caso do Padre António Jorge Martins, que foi obrigado a abandonar o país, e o Padre António Correia, destituído de funções pastorais na sua paróquia da margem sul.

A forma ambígua e reveladora de “menoridade” com que a Igreja/hierarquia tratava os cristãos, traduzindo-se por vezes numa tendência para “vigiar” a sua conduta, aparentava algo semelhante aos métodos policiais então vigentes.

Outra vez estávamos a distribuir, à porta da Igreja da Basílica Estrela, um documento sobre a ida do Papa Paulo VI a Bombaim, um jornal denominado “Igreja Presente”. Dado que Goa tinha sido desanexada do território português, a ida do Papa à Índia era considerada pelo Governo um grande ultraje a Portugal.

Distribuíamos nós esses textos, quando zelosamente o Prior telefonou para a polícia informando-a que estavam “uns jovens a distribuir perigosa propaganda”. Conseguimos safar-nos desta vez da polícia.

De forma bastante “ambígua” vieram alguns Bispos proclamar, depois do 25 de Abril, a contribuição que a Igreja dera aos movimentos de oposição. Que alguns cristãos e alguns Bispos “perseguidos e mal vistos pelo cardeal e pela maioria da hierarquia” tinham dado efectivamente tal contributo, apesar da Hierarquia da Igreja os ter punido, teria sido mais correto dizer, mas os tempos eram outros e a Igreja tinha que emparceirar com as novas forças progressistas, embora o fizesse de forma medrosa e insegura. Nunca a Igreja pediu publicamente desculpa por ter constituído enquanto hierarquia um papel muito activo de apoiante da ditadura.

Domenico Sereno Regis veio dar um imenso apoio à luta antifascista em Portugal

A Ana Vicente e eu fomos em 1966 participar num campo de férias em Itália (organizado por uma comunidade cristã muito progressista - os valdenses campos que eu previamente conhecera e frequentara), dedicado nesse ano aos países africanos, onde havia a presença de alguns jovens vindos de Moçambique graças a bolsas concedidas pelas missões protestantes.

A seguir, partimos as duas para a fronteira francesa na zona do Lac de Tignes, onde iríamos encontrar-nos com o meu futuro marido (José Vaz Pato) para assistir a um Seminário sobre “Cristianismo e Socialismo” dirigido pelo Père Dominique Chenu - o teólogo dos Sinais do Tempo, em colaboração com o então jovem teólogo dominicano Paul Blancart. A esse Seminário juntou-se também um amigo meu de Turim - Domenico Sereno Regis (DSR), que conhecera por intermédio do grupo valdense. Era um homem extraordinário, antigo militante da resistência que veio dar um imenso apoio à luta antifascista em Portugal, militante da causa da paz e do trabalho de base. Deslocou-se propositadamente a Portugal para, com o NTP, programarem o trabalho em que que poderia dar apoio à nossa luta contra o fascismo. A maior dificuldade em Portugal era a impressão de documentos em milhares de exemplares e isso foi executado, segundo o meu conhecimento, às vezes graças às Comisiones Obreras em Espanha, e, também como indico, em Turim graças a DSR . Hoje em Turim em sua homenagem existe o Centro Sereno Regis.

A ele se deve a impressão e distribuição em Roma da carta aos Bispos no Concílio Vaticano II, em Outubro de 1965, que teve a colaboração na escrita e no envio até Turim de Fernando Belo e António Jorge Martins, e ainda apoio de Joana Lopes e Isabel Bénard da Costa. Trata-se de uma carta de uma dúzia de páginas, em que se começa por dizer: “Alguns cristãos desta Igreja conscientes da situação... e fazendo-o por razões de fé, nem pretendendo que a sua visão seja a única possível...”. Depois, referidas as características do governo de Salazar: "fundado na defesa de uma elite e duma raça, passa-se a falar do regime policial e da censura, que não poupa mesmo os cristãos e os padres, denunciando situações injustas e mesmo de tortura". A propósito da política africana, referem-se: "os padres negros submetidos a sevícias e a prisão"; e por fim, conclui-se: "que não pretendem condenar pessoas nem julgar intenções. Que este apelo assente na fé possa contribuir para renovação conciliar da Igreja em Portugal é o que fervorosa e humildemente pedimos ao Espírito Santo”.

Esta carta de Lovaina foi expedida por correio até Turim para Domenico Sereno Regis. Em Turim, DSR tratou da sua impressão e lá fez os 900 km no seu Fiat 500 até ao Vaticano para tratar da sua distribuição no Concílio Vaticano II.

O texto da carta foi previamente enviado ao então Bispo do Porto, Dom António Ferreira Gomes (que a considerou uma boa iniciativa, embora manifestasse que não tomava responsabilidade da sua divulgação no Concílio Vaticano II), e ao Bispo da Beira (Moçambique), Dom Sebastião Rezende.


Uma companhia de militares vai acompanhada em procissão por um padre em Fátima, 1953.
 

É curioso como uma carta escrita num teor de fiel adesão aos princípios da Igreja não tenha sido aproveitada pelos responsáveis da Igreja Católica para reflexão e discussão ampla com os cristãos. Isto mostra o temor e a tibieza da hierarquia.

Aconteciam coisas variadas que era preciso sempre controlar com humor e sem medo. Por exemplo, no dia seguinte ao meu casamento, dia 3 de Fevereiro de 1967, foi entregue em casa de um meu cunhado algo conservador, uma enorme mala carregada de papéis. A pessoa que trazia de Itália a encomenda (vinda de Sereno Regis) procurou na lista dos telefones o apelido do meu marido, e, por lapso, a mala foi parar à direcção errada. Mais uma vez, inventei aos meus parentes uma história de presentes de casamento muito pesados vindos de amigos de Itália.

Outra vez, Sereno Regis, militante habituado a inventar formas de engenhosas de trabalho, fez chegar uma mala pesadíssima com documentos impressos em Turim para distribuir em Portugal utilizando um “apoiante” que veio a Fátima introduzido numa peregrinação. Quando chegou o autocarro à fronteira portuguesa, começou cantando com todos os peregrinos com grande fervor à Virgem Maria, o que impediu a Pide de controlar as malas...

Até 1973, a minha casa servia ainda de armazém de arquivos diversos

A partir desta época deixei de trabalhar neste tipo de trabalho clandestino. Fazia algumas tarefas, mas diminuí o ritmo de trabalho, devido a seguir ao meu casamento ter diversas perturbações de saúde até ao nascimento da minha filha. Até 1973, a minha casa servia ainda de armazém de arquivos diversos.

Na primavera de 1968 estava eu grávida e o médico aconselhara-me a permanecer o mais tempo possível deitada, porque tinha tido duas gravidezes anteriores que correram mal, resultando em abortos espontâneos. Assim, o NTP aparecia sempre com textos para eu traduzir, mas já não podia encarregar-me dos envios. Tratava-se de textos da “revolução” do Maio 68 em Paris, que depois eram impressos e distribuídos.


Maria Vitória Vaz Pato com dois Timorenses que fizeram parte da sua família enquanto estiveram em Lisboa.
 

Aquando do processo da independência de Timor, o meu marido e eu tivemos grande empenhamento apoiando os jovens timorenses que vieram exilados para Portugal. Viviam às vezes na nossa casa, como se fossemos os seus pais acompanhando-os como filhos com as suas dificuldades, os seus namoritos, e as suas saudades da família e do país Ainda hoje alguns nos visitam vindos de outros países da Europa onde arranjaram trabalho e acompanhados já de seus filhos.

A 4 de abril de 1968 foi assassinado Luther King

Entretanto, a 4 de abril de 1968, foi assassinado Luther King. Como disse, ele representava para mim o grande activista da não violência. Como tinha alguma imaginação, comecei (já tinha finalmente telefone em casa) a telefonar repetidamente para todas as Igrejas evangélicas mencionadas na lista telefónica, perguntando: “a que horas tem lugar o serviço em homenagem ao Pastor Batista Luther King?”. Tentava desencadear deste modo nas Igrejas a motivação para fazerem uma homenagem a Luther King. Ao fim de longas horas e sucessivas chamadas, responde por fim uma Igreja dizendo que, como tinham recebido pedidos, estavam a combinar ter lugar a Cerimónia. Deste modo, teve lugar esta Cerimónia em Homenagem ao pastor Luther King (MLK) num templo Protestante (penso tratar-se da Igreja Portuguesa Lusitana) onde se reuniram centenas de pessoas a quem de boca em boca se passara a mensagem. Todas estes encontros tinham também por objectivo reunir e animar os militantes a pesar do controlo da policia.

Maria Vitória Vaz Pato, 07.04.2016.

Um mês depois, em 4 de Maio de 1968, devia ter tido lugar, no salão da Igreja de Santa Isabel em Lisboa, uma sessão de homenagem a MLK. Estava planeada a projecção do filme «Marcha em Washington», seguida de um debate sobre o seu discurso, orientado, entre outros, por Luís Lindley Cintra e José Carlos Megre. Na véspera, a PIDE proibiu a sessão, mas, à hora marcada, concentraram-se centenas de pessoas em frente da igreja de portas fechadas. Como em muitas outras ocasiões, tudo acabou com dispersão, à força, desta vez por agentes da polícia à paisana. Foi depois elaborado, e amplamente distribuído, um folheto intitulado «Porquê?» com um breve relato dos acontecimentos. Terminava com uma citação do próprio Luther King:

"Não vos posso prometer que não vos batam,
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa,
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco.
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo"

Estes e outros acontecimentos ocorriam em paralelo. Foi um período da nossa juventude de grande alegria e entusiasmo, gerados por uma enorme utopia e generosidade. Se numas acções tínhamos responsabilidade pela execução das tarefas, noutras apenas participávamos tacitamente, sem mesmo procurar saber quem as organizava.


 


*Maria Vitória Lapa Martins Barreiros Vaz Pato - Nascimento no Porto 10-11-1932.
Viúva de José Lobo Vaz Pato, com quem esteve casada durante 48 anos, vindo este a falecer em março de 2015 após 15 anos com doença de Parkinson. Uma única filha- Ana B. Vaz Pato e um neto Gui V. Pato a viverem actualmente em França.
Licenciada em Ciências Farmacêuticas em 1958. Doutorada em Paris na Sorbonne 1962. Trabalhou como Investigadora em Ciências da Saúde no Instituto Nacional de Saúde Dr.Ricardo Jorge- Lisboa.
Fez posteriormente uma formação artística durante três anos em Fotografia no Arco e posteriormente em Desenho e Pintura durante dez anos na Sociedade Nacional de Belas Artes. Actualmente trabalha em Pintura e em Teatro (pequenos grupo que teve origem num Projecto sob a orientação de Luís Miguel Cintra – Cornucópia) .

 

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