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Mulheres de Abril: Testemunho de Lilica Boal

Em 1969, fui dirigir a Escola-Piloto do PAIGC, na Guiné-Conacri, onde se formavam e preparavam quadros para a libertação e o desenvolvimento do país. Por Lilica Boal (Maria da Luz Boal).
(1969), "Lilica Boal, Aristides Pereira, Domingos Brito e Hugo dos Reis Borges com uma delegação estrangeira", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_44229 (2019-11-23)
(1969), "Lilica Boal, Aristides Pereira, Domingos Brito e Hugo dos Reis Borges com uma delegação estrangeira", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_44229 (2019-11-23)

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.

 

 

Os anos da fome em Cabo Verde

Nasci no Tarrafal de Santiago, em 1934. Sou filha de pais comerciantes, com algumas propriedades. Em 1936, foi instalada a Colónia Penal no Tarrafal, para onde iam os presos políticos antifascistas de Portugal. O meu pai abastecia esta Colónia. Apesar de ser muito pequena, marcou-me aquele movimento da chegada dos presos, que vinham em camiões, cobertos por um pano para que ninguém os visse. Não se falava sobre isso, mas ficou gravado.

Outra memória que me marcou foram os anos de seca em Cabo Verde. Era impressionante: a fome, as pessoas que caíam mortas na rua… A Câmara pedia para enterrarmos os cadáveres. Uma vez, a minha avó abriu a janela de sua casa e viu uma mulher a despir a filha morta no meio da rua. Perguntou-lhe: “O que é isso?”. A mulher respondeu: “É duro. A vida é dura. Preciso desta roupa para outra filha”. Quando o governador de Cabo Verde mandou comunicar a Portugal a situação que se vivia na região, a solução do Ministério das Colónias foi alargar o cemitério do Tarrafal.

Durante a refeição, quando estávamos à mesa, ouvíamos a voz de uma criança na porta: “Senhora, dá um bocado de comida, um pouco de pão…”. Mesmo tu, que tens comida, não te sabe bem comer. Lembro-me que os meus pais não davam um prato de comida, mandavam fazer uma panela grande de cachupa que ficava para dar a quem aparecesse. Isso marcou-me. É a minha terra, foi lá que cresci.

Como a minha família vivia bem, não senti pessoalmente a questão da opressão, que era uma realidade para a grande maioria da população. Havia uma questão social. Mesmo os familiares dos guardas da Colónia Penal, que residiam na vila do Tarrafal, falavam e brincavam comigo. Portanto, não senti essa pressão aí.

Só quando vim para Portugal é que senti que não era portuguesa. Que era diferente e tinha outros problemas.

Lilica Boal em criança. Reprodução de foto do espólio pessoal de Manuel e Lilica Boal.

A vinda para Portugal e as famílias dos presos políticos

Fiquei no Tarrafal até à idade de 11 anos. Na altura, tínhamos muitos problemas com a Educação. Não existia liceu na ilha de Santiago. Quando fiz a quarta classe, tive de ir para São Vicente, para o Liceu Gil Eanes. Na altura - e digo isto porque penso que é importante - éramos muito poucas. Para se ir para outra ilha, exigia-se certo meio de deslocação, de estadia… Éramos apenas cinco raparigas. Também não havia muitos rapazes. Estive em São Vicente durante seis anos.

Enquanto estive a estudar lá, os pais de um preso político do Tarrafal foram visitar o filho. Era uma família do Porto, que vivia bem. Ele era corretor da Bolsa do Porto. A pessoa com quem o meu pai tinha ligação comercial em Portugal aconselhou esta família a ir para nossa casa. Como no Tarrafal não havia hotel, pensão e nem restaurante, ficaram lá instalados. E daí surgiu uma grande amizade. Eles estavam naquela situação, com o filho preso, chegaram e encontraram uma família que lhes deu acolhimento. Isso contribuiu para que se criasse um grande laço de amizade. Acabei por conhecer essa família: Luís Alves de Carvalho e a Dona Herculana, pais de Guilherme da Costa Carvalho, que foi preso jovem, não sei se com 17 ou 18 anos. Como tinham meios, visitavam regularmente o filho e ficaram a conhecer os outros presos políticos. No regresso, tentavam contactar os seus familiares.

Quando vim para Portugal estudar, eles acolheram-me no Porto com todas as atenções e carinhos. Foi impressionante. Fiz o sexto e o sétimo ano em Braga. Nos fins-de-semana, iam visitar-me e levavam-me ao Bom Jesus do Monte. Tornaram-se minha família.

Entretanto, o Guilherme foi transferido do Tarrafal para Peniche, e eu ia com eles visitá-lo. Tudo isto fez-me pensar: ver como a família vivia e ver aquele jovem longe de tudo isso. O Guilherme era extraordinário, fora de série. As visitas a Peniche permitiram-me conhecer esse mundo da luta dos antifascistas em Portugal.

No Porto, o senhor Carvalho tinha relações com os familiares dos presos políticos do Tarrafal. Quando se juntavam, eu ia com eles. Um dia, estávamos a falar à mesa de um café e a moça que servia perguntou se conheciam o Tarrafal e disse que o seu pai estava lá. Eles responderam que ele tinha morrido. Ela soube assim, dessa maneira, enquanto trabalhava, e por gente que não conhecia, que o seu pai tinha morrido. Tudo isso teve um grande impacto em mim: saber o sofrimento daqueles que lutavam pela liberdade do seu país.

Na foto da esquerda: Dona Herculana e a mãe de Lilica Boal, Dona Eulália Andrade, mais conhecida por Nha Beba. Na foto da direita: Luís Alves de Carvalho e o pai de Lilica Boal, José Freire Andrade (Nho Papacho). O escritor angolano José Luandino Vieira considerava Nha Beba sua “mãe cabo-verdiana”, por tudo o que ela e o marido fizeram por ele no tempo em que esteve preso no Tarrafal. Reprodução de fotos do espólio pessoal de Manuel e Lilica Boal.

Através do senhor Carvalho, conheci pessoas do Partido Comunista Português, como a Virgínia Moura, que já morreu há muito tempo, a Ermelinda Brandão, o Tiago de Oliveira e a Maria Cal Brandão. Encontrávamo-nos muitas vezes. O senhor Carvalho, quando a mulher morreu, a dona Herculana, mandou fazer um busto dela e colocou-o no quintal. Em datas importantes da família, como aniversários, os outros familiares dos presos políticos eram convidados a participar. Eram encontros muito bonitos.

A nossa relação com o Alves de Carvalho era mesmo forte. Mais tarde, quando se deu a independência de Cabo Verde, ele fez questão de ir ter comigo. E levou a neta, Isabel Carvalho Lagoa – Belinha como lhe chamo, e o neto, filho do Guilherme, o Manuel. Depois da independência da Guiné, a Belinha e o Manuel foram passar algum tempo comigo em Bissau. Mantenho esses laços com eles. Fazem parte da minha família.

Na foto aparecem Dona Herculana e os pais de Lilica Boal, Dona Eulália Andrade (Nha Beba) e José Freire Andrade (Nho Papacho). Reprodução de foto do espólio pessoal de Manuel e Lilica Boal.

Uma porta que se abriu: A Casa dos Estudantes do Império

Em Braga, conheci aquele que veio a ser o meu marido, o Manuel Boal. Ele é angolano e tinha ido para Portugal no quadro de uma missão dos jovens da Mocidade Portuguesa de Angola. São as contradições da vida. Quando acabei o liceu, vim para Coimbra e inscrevi-me na Faculdade de Letras Histórico-Filosóficas. Foi em Coimbra que eu e o Manuel, estudante de Medicina, começámos a namorar.

CEI: Maria da Luz e Manuel Boal entre o José Júlio e esposa à esquerda e o Iko Carreira e a namorada, à direita

Estivemos dois anos em Coimbra e depois decidimos vir para Lisboa onde, em contacto com a Casa dos Estudantes do Império (CEI), uma porta se abriu para mim. Os jovens estudantes dos vários países de língua oficial portuguesa que se encontravam ali - de Angola, de Moçambique, de São Tomé, da Guiné e de Cabo Verde – falavam da situação dos nossos países, da situação que vivíamos como colónia. Discutíamos o que é que nós, como simples estudantes, poderíamos fazer. Na CEI, o ambiente era alegre, nosso, livre. Sentíamo-nos em casa, no nosso país. Tínhamos contacto mais frequente com pessoas como o Pedro Pires, de Cabo Verde, que estava a fazer o serviço militar em Portugal. Ele era muito amigo do Iko Carreira, de Angola. Na altura, morávamos em Sete Rios e eles iam muitas vezes lá a casa. Esse contacto, que ainda hoje se mantém, fez-me refletir sobre a realidade do meu país: a miséria, a fome, a falta de escolas, de médicos…

A “fuga rumo à luta”

Em 1961, quando já tinha iniciado a luta em Angola, falava-se sobre a necessidade de ter quadros jovens para participarem na luta pela libertação dos respetivos países. Através da CEI, foi organizada uma partida – mais tarde, chamamos-lhe “fuga rumo à luta” – de dezenas de estudantes. Não sabíamos para onde íamos, como e em que condições.

Eu e o Manuel tínhamos casado em Cabo Verde em 1958 e regressámos a Portugal para acabar o curso. Entretanto, nasceu a nossa filha, o que tornava mais complicada essa “fuga”. Mas a minha mãe veio conhecer a neta e queria muito levá-la para o Tarrafal. Como tínhamos o nosso projeto, dissemos logo que sim. Sabíamos que ficaria bem com a avó. Então a Sara, nessa altura com 17 meses, foi com a minha mãe para o Tarrafal. Nenhuma das amigas da minha mãe acreditava nessa possibilidade de a Sara acompanhar a avó. Para nós, os pais, foi uma decisão muito difícil.

Manuel e Lilica Boal com a filha Sara. Reprodução de foto do espólio pessoal de Manuel e Lilica Boal.

Organizados no grupo de estudantes, sobretudo angolanos, saímos de Portugal. Éramos poucas mulheres, entre as quais a Amélia Araújo, a Virgínia de Carvalho e a Elisa Andrade, de Cabo Verde. De Angola eram três. Era uma fuga clandestina, não podíamos dizer nada a ninguém, nem à família, nem aos amigos. Eu estava a preparar a tese em História e Filosofia com o professor Farinha, que me tinha emprestado alguns livros para consulta. Nas vésperas da minha partida, fui-lhe entregar as obras. Ele não percebeu porquê. Mas também não perguntou.

No dia em que partimos, em junho de 1961, só pudemos levar um saco com cinco quilos. Fomos para Santa Apolónia e apanhámos o comboio para o Porto, onde tínhamos alguém à nossa espera. Quando chegámos, entrámos num carro e fomos para uma pensão. No dia seguinte, de manhã, tínhamos de ir para a fronteira de Espanha. Mas, nessa pressa de sair do país, por azar, tivemos um acidente de carro. A nossa preocupação era que um carro cheio de pretos desse nas vistas. Respirávamos fundo para tentarmos embaciar o vidro [Risos].

Escapámos dessa, mas tivemos de voltar para a pensão. Quando chegámos, ficaram espantados por nos verem de novo. Disseram-me: “A senhora está no quarto A de Angola”. Virei-me para o meu marido: “Pronto, já nos descobriram. Se estão a dizer A de Angola é porque já sabem” [Risos]. Numa situação assim imaginamos de tudo. Mas lá ficámos no Porto até ao dia seguinte e, de manhã, partimos rumo à fronteira.

Quando lá chegámos, o passador que ia fazer a travessia do rio Minho connosco não apareceu. Entretanto, chegou outro homem que nos pediu dinheiro. O Osvaldo Lopes da Silva deu-lhe uns trocos. Fomos num bote pequeno de contrabandistas. Quando atravessámos a fronteira, fomos apanhados e passámos 48 horas na prisão de San Sebastian. A polícia portuguesa já tinha pedido às autoridades espanholas para nos recambiarem para Portugal. Tínhamos documentos falsos do Senegal e falávamos francês, mas era um francês muito fraco [Risos]. O primeiro a entrar, e a ser ouvido, foi o meu marido. Quando saiu, disse logo que não era necessário falar mais francês, porque eles já sabiam de tudo.

Mediante a pressão do Conselho Ecuménico das Igrejas, "os espanhóis deixaram-nos prosseguir a nossa viagem para França, para a Sede da Cimade onde ficamos cerca de um mês. 

A chegada ao Gana e o contacto com Amílcar Cabral

Os Movimentos de Libertação dos nossos países conseguiram do Governo do Ghana o apoio necessário para ir para África. O presidente Kwame Nkrumah enviou um avião para a Alemanha. Foi nesse contexto que tivemos de sair, mais uma vez clandestinamente, da França [Risos]. Pegámos novamente nos nossos saquinhos de cinco quilos e esperámos pelo autocarro que nos transportou para a Alemanha. Quando chegámos ao Gana fomos muito bem recebidos. Muita gente não acreditava que um grupo de jovens estudantes “burgueses” ia meter-se numa luta de libertação. O próprio Nkrumah disse ao [Amílcar] Cabral: “Tu acreditas que este grupo vai participar na luta?” [Risos]. Mas a verdade é que fizemos. No Gana recebemos visitas de dirigentes dos outros movimentos. De Angola, foi o Mário Pinto de Andrade, o Lúcio Lara, o Viriato da Cruz… Conversaram muito connosco, o que foi bastante encorajador. Deram-nos força.

O Cabral era extraordinário em termos humanos. Inspirava confiança. E nós entregámo-nos totalmente à causa

O Cabral era um grande pedagogo. Quando falava contigo, estavas a aprender. Eu não o conhecia, mas ele conhecia muito bem a minha família. Falou-nos da luta, do porquê dessa luta, dos seus objetivos. Explicou-nos que não era uma luta contra Portugal e contra os portugueses, era uma luta contra o sistema e o colonialismo. Falou sobre a situação dos nossos países, sobre a necessidade de nos juntarmos aos outros países que tinham o mesmo problema, como Angola. Na altura, o bureau do MPLA ainda estava em Conacri: o Mário de Andrade, o Agostinho Neto, o Lúcio Lara... Falou também sobre as novas esperanças, que surgiram depois da Segunda Guerra Mundial, de podermos ser livres na nossa terra. Disse-nos que podíamos continuar a estudar, que podiam arranjar bolsas para estudarmos onde quiséssemos e que, quando sentíssemos que estávamos em condições de trabalhar, a porta estava aberta. Foi mais ou menos esse o discurso.

O Cabral era, sobretudo, muito humano, preocupava-se com os combatentes, com os camaradas. Queria saber se estávamos bem. Quando sentia que tínhamos alguma preocupação, perguntava logo: “Tens algum problema?”. Estava sempre atento a cada um de nós. Era, realmente, extraordinário em termos humanos. Inspirava confiança. E nós entregámo-nos totalmente à causa.

O trabalho no bureau do PAIGC, em Dakar

O Cabral perguntou a cada um de nós o que é que queríamos fazer, qual era o nosso projeto. Respondi que a minha vontade era participar na luta. Mas, como a minha filha estava com a minha mãe no Tarrafal, gostaria de, nos primeiros tempos, ficar no Senegal, para poder ter contacto com elas.

(1963-1973), "Maria da Luz Boal", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43584 (2019-11-23)

O meu marido que saiu em vésperas de defender a tese em Lisboa, foi para o Congo-Kinshasa para acabar a sua formação em medicina e participar, com outros colegas, nas actividades da unidade de saúde do MPLA, de assistência aos feridos de guerra e refugiados angolanos. Estarmos distantes não foi fácil, mas a gente entendia que era necessário. De vez em quando, no decurso de uma missão, lá nos conseguíamos encontrar.

O PAIGC mandou-me para o bureau do Partido, em Dakar, onde as minhas funções eram administrativas, mais associadas às finanças. Estive também ligada ao lar onde ficavam os combatentes que vinham da fronteira e alguns feridos de guerra.

O Pedro Pires também foi para Dakar, mas depois seguiu para a Argélia, para fazer formação militar. Em Dakar chegámos a fazer um trabalho conjunto, na mobilização dos cabo-verdianos que estavam no Senegal. Contactávamo-los, falávamos-lhes da luta, da importância que eles poderiam ter para a nossa causa.

A minha mãe conseguiu ir a Dakar com a minha filha, quando ela tinha cinco anos. A Sara quase que me desconhecia, sentia-se muito melhor com a avó do que comigo. Claro que, com o tempo, as coisas resolveram-se. Ela cresceu e ficou numa escola em Dakar, onde tive o meu segundo filho, o Baluka.

A Escola-Piloto do PAIGC

Durante as férias, eu ia a Conacri trabalhar na reciclagem e formação de professores até que, em 1969, fui dirigir a Escola-Piloto do PAIGC, criada em 1964 para apoiar os filhos dos combatentes e os órfãos de guerra.

Alunos da Escola-Piloto do PAIGC no momento de içar a bandeira. Imagem cedida por Manuel Boal. 

Foi um trabalho extraordinário. Digo mesmo que aquela Escola, que funcionava em regime de internato, foi a melhor escola da minha vida. Éramos todos uma grande família. Aqueles miúdos, mais de cem, formavam um grupo muito heterogéneo, de várias idades, com problemas diferentes. Muitos nem conheceram o colonialismo, porque viviam no mato. Foi na Escola-Piloto que ganharam consciência da realidade do seu país e da necessidade da luta. Tornaram-se jovens engajados com convicção nessa luta de formação e preparação de quadros para a libertação e o desenvolvimento do país.

Na Escola-Piloto vivíamos juntos 24 sobre 24 horas. Conhecíamos os problemas, trabalhávamos juntos. Os jovens olhavam para os professores como se fossem os seus pais. Acreditavam em nós e na causa que abraçámos. Lá, todo o mundo trabalhava, não tínhamos empregados. Havia grupos de trabalho. Todas as semanas era formado um grupo de trabalho, constituído por um professor, quatro rapazes e três raparigas, que ficava responsável por todo o funcionamento do internato. No fim-de-semana fazíamos uma reunião com todos os alunos para fazer o balanço crítico e autocrítico da semana.

Na fotografia, além de Lilica Boal, aparecem Carmen Preira, já falecida, que foi, interinamente, Presidente da Assembleia Nacional Popular, e o célebre historiador britânico Basil Davidson. Imagem cedida por Manuel Boal. 

Uma das primeiras coisas que tivemos de fazer foi analisar os manuais escolares, porque aqueles que existiam até à data eram os manuais portugueses, que falavam sobre a geografia e história de Portugal e não diziam nada sobre a realidade da nossa terra. Então, decidimos que tínhamos de elaborar novos manuais.

Como não tínhamos especialidade na área, íamos pesquisar os manuais escolares de outros países, como o Senegal, e víamos como era a metodologia, a ordem, o conteúdo. A partir daí, adaptávamos à nossa realidade. Contámos ainda com a ajuda, durante as férias, dos jovens do Partido que estavam a estudar nos diferentes países da Europa.

Na Escola-Piloto precisávamos de estar preparados para tudo, por isso, tínhamos aulas para aprender a manejar armas.

O apoio internacional

No quadro da cooperação do PAIGC com Cuba, tive a possibilidade de contactar desde o ministro da Educação até à organização de pais e encarregados de educação cubanos. A sua metodologia de trabalho serviu de inspiração para o funcionamento da nossa Escola.

Tínhamos muito apoio internacional. Na Escola-Piloto existia um laboratório bem montado pelos países que nos apoiavam. A Suécia mandava-nos roupa em quantidade e imprimiu os manuais escolares. Eu e outra camarada estivemos lá para fazer a correção prévia dos manuais. De Cuba vinham géneros alimentícios e material didático, geográfico. Vinha ainda assistência médica. Mandaram-nos médicos e enfermeiros. De França, chegava todas as semanas sangue para o Hospital de retaguarda do PAIGC em Boké. A União Soviética também nos mandou muito material, inclusive desportivo. Também tivemos apoio da Alemanha, entre outros países.

O apoio internacional permitia-nos ter condições para projetar filmes educativos para os alunos. Nos fins-de-semana, a Escola abria-se para a comunidade vizinha e assim todas as crianças  podiam vir assistir às projecções.

(1965), "Maria da Luz Boal durante a visita de uma delegação soviética à Escola Piloto do PAIGC em Conakry", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43901 (2019-11-23)

Os jovens da Escola-Piloto tinham bolsas de estudo dos países que nos apoiavam. Foram estudar para Cuba, União Soviética, Checoslováquia, Roménia, Jugoslávia, Alemanha Democrática...

Hoje, um grande número dos antigos alunos que foram estudar para os países que nos apoiavam está na Guiné-Bissau. São altos quadros do país: deputados, ministros,... Isso também é gratificante.

Há cerca de cinco anos assinalaram em Tite o início da luta armada na Guiné-Bissau e convidaram-nos a participar na comemoração, a mim e ao meu marido. Depois, organizaram um convívio com os antigos alunos da Escola-Piloto e o pessoal que lá trabalhou. Um deles, que é deputado, disse durante a sua intervenção: “Professora, eu agora sinto-me como numa reunião de fim-de-semana na Escola-Piloto”. Eu respondi: “Eu não. Na Escola-Piloto dizia 'passo a palavra ao aluno tal'. Aqui tenho de dizer 'Sua Excelência' e fazer uma vénia” [Risos].

A União Democrática das Mulheres

Enquanto estive na Escola-Piloto integrei também a direção da UDEMO – União Democrática das Mulheres. Era responsável pelas relações internacionais. Este trabalho permitiu-me ter cada vez maior consciência de que a mulher, que pode e deve participar no desenvolvimento do seu país, tem de lutar pelo seu lugar na sociedade. Como afirmava Cabral, a mulher tem de valer por ela mesma.

No âmbito da UDEMO, tive a oportunidade de participar em várias reuniões internacionais de mulheres e de testemunhar a força da mulher africana. Nesses encontros, discutia-se também a situação da mulher em África e no mundo, a desigualdade, e já eram abordados temas como a mutilação genital das mulheres.

Conheci mulheres extraordinárias, como Jeanne Martin Cisse, que foi secretária-geral da União Revolucionaria das Mulheres da Guiné-Conacri e da Organização Pan-africana das Mulheres, e, entre 1971 e 1976, foi representante da Guiné-Conacri nas Nações Unidas, tornando-se, em 1972, na primeira mulher africana a assumir o cargo de presidente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Jeanne falava-me da dificuldade sentida no trabalho de organização das mulheres, e costumava dizer que “quando uma mulher sobe um degrau há uma dezena de mãos a puxarem-na para trás”.

Outra mulher que me marcou foi Awa Keita do Mali, membro do Comité Constitucional da República Sudanesa e a primeira mulher parlamentar do Mali, que liderou a União das Mulheres da África do Oeste – UFOA.

Foi também bastante importante para mim participar numa reunião de delegações de mulheres asiáticas e africanas em que conheci Valentina Vladimirovna Tereshkova, a primeira mulher a voar numa nave espacial.

(s.d.), "Reunião de delegações de mulheres asiáticas e africanas com Valentina Tereshkova", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43600 (2019-11-23)

O maior drama da luta, e da nossa vida, foi a morte de Cabral

O maior drama da luta, e da nossa vida, foi a morte de Cabral, assassinado em Conacri, a 20 de janeiro de 1973. Tínhamos uma receção nesse dia na Escola-Piloto de uma delegação de Moçambique e estávamos a preparar os alunos, a organizar a Escola e a ensaiar as canções.

Fui ao secretariado do Partido nesse dia pedir sugestões ao Cabral para a organização da receção. Entretanto, regressei à Escola-Piloto. O Cabral não pôde aparecer na receção. Estivemos com a delegação de Moçambique e quando o evento acabou fomos todos para a cama. Pouco tempo depois, o condutor bateu na minha porta e disse: “Lilica, tiro na Minier”. Eu exclamei: “Tiro na Minier!”. Levantei-me e pedi para chamarem os professores para que se armassem. Não sabíamos do que é que se tratava. Parou um camião diante do portão da Escola com homens armados e mandou desarmar os professores.

Por volta das sete horas da manhã, foram-nos buscar. Tocaram o sino que tínhamos no quintal para chamar os alunos. Levaram todos os professores para um camião. Pensei: “Vão-nos fuzilar em frente aos alunos e eles vão ficar traumatizados para toda a vida”.

Pelo caminho, vi a cidade toda calma, nada de especial. Quando chegámos ao quintal da Presidência, perguntei à Carlina Pereira, mulher do camarada Aristides Pereira, o que tinha acontecido. Ela disse-me que tinham morto o Cabral e que levaram o Aristides preso para um barco. Felizmente, os homens da Marinha de Conacri conseguiram resgatar o Aristides.

Quando voltámos para a Escola-Piloto, os miúdos choravam desesperados com a morte de Cabral.

Amilcar Cabral no jardim-escola na Guiné-Conacri. Imagem cedida por Manuel Boal.

As embaixadas chamaram-nos para nos acolher, para nos dar apoio. Fui acordar o meu filho: “Baluca, temos de ir para a embaixada”. Ele respondeu-me: “Alors, il faut m'habiller jolie!” [Risos].

A proclamação da República da Guiné-Bissau

A 24 de setembro de 1973 procedeu-se à proclamação, unilateral, da República da Guiné-Bissau. A cerimónia teve lugar em Lugadjol, na região do Boé, num sítio onde não havia nada. Era um deserto. Fomos para o local de camião. Atrás, onde eu ia também, ia aquele que ia ser o primeiro-ministro, e que ia recebendo mensagens de felicitações. Eu disse-lhe: “Ó Chico, se sabem que estás aí sentado não te mandam mais mensagens” [Risos].

Quando chegámos, não havia quaisquer condições. Estavam lá altos quadros, ministros que vieram dos outros países para assistir à proclamação da independência. Não me esqueço que, no meio daquela confusão, passou por mim um desses quadros, que me pediu: “Water, please”. Eu respondi: “Wait a moment” e desapareci. Não tinha água para lhe dar [Risos]. Foram histórias lindas. Cada um de nós tem a sua história.

Voava tudo de alegria com o 25 de Abril

No 25 de Abril de 1974 estávamos na Escola Piloto. Alguém do secretariado do Partido foi lá avisar-me. Eu entrei em cada uma das salas a anunciar que tinha havido um golpe de estado em Portugal. Todos saltavam. Era como se acendesses um pau de fósforo. Aquilo voava tudo de alegria com o 25 de Abril.

Mesmo no processo da luta armada, as coisas estavam a avançar, o sistema de armas já estava todo diferente. Estávamos convencidos que, realmente, se aproximava o fim da guerra. Com o 25 de Abril, reforçámos a nossa convicção de que estávamos próximos da vitória.

As estruturas do Partido informavam-nos sobre os avanços da luta armada no terreno. Os camaradas quando vinham a Conacri iam visitar a Escola-Piloto. E também ouvíamos as notícias da Rádio Libertação, pela voz da Amélia Araújo, que fez a sua formação na União Soviética.

A Amélia trabalhava num camião. Muitas vezes, o rádio não funcionava, tinham de lhe dar uma tapona [Risos]. Ela tem uma filha que canta muito bem e canta muito sobre a lua. Um dia perguntaram-lhe porque é que ela gostava da lua. Respondeu que quando ia esperar a mãe sair do trabalho ficava fora do camião e via a lua. E daí veio-lhe a inspiração [Risos]. Na Escola-Piloto também fazíamos um programa para a Rádio Libertação, que os alunos escreviam.

A continuação do trabalho na Guiné-Bissau

Com a morte de Cabral e com a proclamação da independência, fomos para a Guiné-Bissau. Entre 1974 e 1979 fui diretora do Instituto Amizade do PAIGC. Na continuidade da Escola Piloto, abrimos vários internatos na Guiné-Bissau.

Após a criação desses internatos, fui para o ministério da Educação. Era diretora-geral da coordenação, a segunda pessoa do ministério. Fizemos uma visita a convite da Alemanha Democrática. Lá, destacaram duas pessoas para nos virem ajudar a organizar o ministério na Guiné-Bissau. Eram antigos combatentes da área da Educação. Foi extraordinário. Quando fomos para Bissau, não tínhamos a experiência necessária. Era preciso aprender. Esses dois quadros da Alemanha deram-nos um grande apoio.

Lilica Boal no ministério da Educação na Guiné-Bissau. Reprodução de foto do espólio pessoal de Manuel e Lilica Boal.

Houve coisas muito interessantes neste percurso. Eu integrei a primeira delegação que foi a Bissau contactar a estrutura colonial que lá estava. Fui na área da Educação, o meu marido foi na área da Saúde. Puseram um helicóptero à minha disposição para visitar todas as escolas. O almoço foi em Bafatá, e coincidiu com a partida de um barco português que tinha ido buscar militares. Naquele refeitório pude assistir ao entusiasmo daqueles jovens portugueses que iam ver as suas famílias, as suas namoradas... Foi uma coisa apaixonante! Aperceber-me que eles estavam lá mas, afinal, aquela não era a sua guerra. Tinham sido enviados para lá. Estavam todos felizes porque iam regressar. Isso também foi uma das coisas que me marcou.

O regresso a Cabo Verde

Ficámos na Guiné até ao golpe de estado de Nino Vieira, em novembro de 1980. Pedi para passar as férias de Natal com a família. Antes de ir, solicitei, a nível do ministério, o relatório de cada departamento. Quando vim de férias fizemos o relatório geral e anunciei que me ia embora.

Assim que cheguei a Cabo Verde, fiquei como inspetora-geral da Educação. Depois, passei para o Instituto Cabo-verdiano de Solidariedade, onde estive até à reforma. Tinha contacto com países amigos que apoiavam essa instituição.

Fui ainda uma das fundadoras da Organização das Mulheres de Cabo Verde. Estava ligada às relações internacionais e era responsável pelo departamento  Mulheres e desenvolvimento. Esta organização fez muito trabalho na área da alfabetização, da formação de pequenos negócios, geradores de rendimentos, para permitir às mulheres conquistarem a sua autonomia. 


Nota sobre as imagens cedidas por Manuel Boal: A maioria das fotos tiradas na altura são de fotógrafos internacionais que acompanharam a atividade do PAIGC no terreno, entre os quais a italiana Bruna Amico Polimene, aquela que deve ter sido a profissional com a maior coleção de fotografias da luta do PAIGC na Guiné-Bissau.

Maria da Luz "Lilica" Boal nasceu em 1934 no Tarrafal de Santiago, Cabo Verde. Aos 11 anos foi para São Vicente, frequentar o Liceu Gil Eanes.
Posteriormente, veio para Portugal. Fez o sexto e o sétimo ano em Braga. Inscreveu-se na Faculdade de Letras Histórico-Filosóficas, em Coimbra, onde esteve dois anos. Entretanto, foi estudar para Lisboa, onde frequentou a licenciatura em História e Filosofia em Lisboa. Nessa época, estava em permanente contacto com a Casa dos Estudantes do Império.
Em junho de 1961, ano do início do conflito armado em Angola, integrou um grupo de estudantes africanos que "deu o salto" para continuar a luta pela independência nas ex-colónias.
Trabalhou no bureau do PAIGC, em Dakar, e esteve ligada ao lar onde ficavam os combatentes que vinham da fronteira e alguns feridos de guerra.
Em 1969, assumiu a direção da Escola-Piloto do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).
Integrou a direção da UDEMO – União Democrática das Mulheres, sendo responsável pelas relações internacionais.
Entre 1974 e 1979, foi diretora do Instituto Amizade do PAIGC.
Entre 1979 e final de 1980 foi diretora-geral da coordenação do minstério da Educação guineense. 
Regressou a Cabo Verde, assumindo o cargo de inspetora-geral da Educação. Depois, passou para o Instituto Cabo-verdiano de Solidariedade, onde esteve até à reforma.
Foi a única deputada do primeiro Parlamento de Cabo Verde.
Foi ainda uma das fundadoras da Organização das Mulheres de Cabo Verde, estando ligada às relações internacionais. Era responsável pelo departamento das atividades geradoras de rendimento desta organização.

Termos relacionados Mulheres de Abril, Sociedade
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