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Mulheres de Abril: Testemunho de Eulália Vaz

Era o fim da PIDE, da censura, da guerra colonial! Começava a esperança! O meu filho, na minha barriga de oito meses, já nasceria livre da pata do fascismo! Por Eulália Vaz.
No Congresso de Aveiro, antes da manifestação, com Albino Lopes, padre operário.

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

Coordenação de Mariana Carneiro.


Um percurso feito de muitas mudanças

Desde cedo me fui apercebendo das desigualdades e injustiças do mundo de opressão sobre quem trabalhava e nada tinha. De sol a sol, na ceifa, na debulha, no varejo, na lavoura, na monda, com um farnel de pão e toucinho e com o manajeiro à perna.

Recordo-me de algumas vivências que me marcaram pela injustiça e pelo desprezo com que pessoas eram tratadas e muitas vezes humilhadas, apenas por serem pobres

O padre, o médico, o regedor, o proprietário, eram referenciados como o senhor fulano, eram saudados e cumprimentados, mesmo sem corresponderem.

Familiares de colonos gabavam-se que “tinham uma boa vida” e mostravam, ufanos, fotos dos filhos dos familiares em África montados nos criados (escravos).

O fascismo era este espartilho em que se sobrevivia, sem mais nada além do trabalho, quando o havia. A ausência de conforto, no campo era maior, o conformismo e o fatalismo a que o povo era submetido. O salário era o que o patrão “dava” e o protesto era castigado pela falta trabalho no próximo ano. Mas o pão para os filhos, a conta da mercearia, obrigavam a calar a revolta. As mulheres, sempre as mulheres, eram quem mais sofria, trabalhando o dobro para aconchegar marido e filhos, poupando e remendando o pouco que tinham.

Mas também ouvia falar de lutas, principalmente onde a concentração de trabalhadores era maior, como as greves nas minas de Aljustrel, as lutas pelas oito horas de trabalho e por melhores salários, como a que deu origem ao assassinato de Catarina Eufémia.

Por volta dos anos 50, apercebia-me que o meu pai e outro camponês vizinho, ouviam rádio às escondidas. Mais tarde, descobri que se tratava da Rádio Moscovo.

Lembro-me, a propósito, de um episódio engraçado: Todas as semanas os meus pais faziam um forno de pão e os ciganos, que andavam pelas redondezas, apareciam para lhes darmos alguma coisa. Um dia o meu pai saiu-se-lhes com esta: “Mas porque é que vocês não vão para a Rússia?”. A cigana mais velha, a matriarca, assim que ouviu falar na Rússia, levantou-se rodando a grande saia: “Puta que o pariu mais a Rússia!”

E lá foram. Depois voltavam para pedir fruta, pão, azeitonas, toucinho e o que mais.

Se não era dado, era roubado, uma galinha aqui, um porco ali, uma ovelha acolá.

Era a vida dos ciganos, acampando em tendas por aquele Alentejo, de feira em feira.

Uma escola no campo

Tínhamos um pedaço de terra, o que significa que, apesar de tudo, vivíamos um pouco melhor do que outras famílias alentejanas, que tinham de ganhar o pão sazonalmente.

Como a nossa casa, o monte, ficava num sítio de pequenas propriedades, onde não existia escola, a mais próxima ficava na vila a cinco quilómetros, o meu pai decidiu vender um olival para comprar o trespasse de uma taberna na vila. Assim, podíamos todos ir à escola. Para o liceu, que era em Beja, o esforço seria mais complicado.

O tempo que passei na vila também deu para observar alguns factos que me despertaram a atenção. Na taberna, depois do jantar e pela noite dentro, faziam-se petiscos e entre copos, falava-se de tudo: de trabalho, da vida, da situação do país, de poesia, pois um dos frequentadores, o Sr. Afonso, era poeta, o mestre Rogério, marceneiro, que já tinha sido “incomodado” pela Pide, entre outros. Eram verdadeiras tertúlias e eu ficava ao cimo da escada com a porta entreaberta para ouvir, depois de ser mandada para a cama.

O meu pai não queria deixar a terra e este duplo esforço era demasiado para ele e para a família. Ainda tinha filhas mais novas para frequentar a escola, então contactou com a Delegação de Educação em Aljustrel (não sei se era assim que se chamava), cedeu o monte que tinha sido dos meus avós, abriu espaço, rasgou janelas, para empreender ali uma escola de ensino primário. A delegação aceitou e o sonho tornou-se realidade. Todas as crianças dos montes próximos puderam fazer ali a sua instrução primária. Senti muito orgulho de ter sido a minha família a contribuir para beneficiar crianças que não teriam outra possibilidade, sobretudo as meninas.

Voltámos então para o monte e o meu pai decidiu abrir lá uma taberna e mercearia. As dez ou doze famílias do sítio, quando não tinham um burro, tinham de ir com a saca à cabeça à vila para fazer as compras. Claro, também era um complemento de vida.

Assim se resolveram dois problemas: uma escola e uma mercearia para Vale d’Agua.

O meu pai sofria de bronquite e a sua saúde ficava cada vez mais débil. Com a sua morte, em 57, era impossível manter a mercearia e a lavoura, não tínhamos condições para pagar a alguém para fazê-lo, trespassámos a mercearia, arrendámos a terra e fomos viver para o monte onde tinha funcionado a escola que, entretanto, já tinha sido substituída por uma nova.

A vida da família ficava cada vez mais complicada. Tínhamos que trabalhar no campo. Foi na monda do arroz que contraí uma infecção que me trouxe a casa da minha tia, que vivia na Baixa da Banheira, para ser atendida no serviço de oncologia. Acabei por ficar.

Nova vida

O meu tio tinha estado preso no Aljube, aquando das campanhas eleitorais de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Trabalhava como sapateiro, pois o estado em que a pide o deixou não lhe permitia outra profissão. Tinha sido torturado com água até à cintura e as pernas ficaram tolhidas pelo reumatismo. Mantinha os contactos com o Partido Comunista, ainda que divergisse em algumas questões porque, face à situação de clandestinidade que se vivia, muitas discussões e decisões ficavam à margem dos militantes, mas nunca abandonou o partido.

Morreu pouco antes do 25 de Abril sem a alegria de o poder viver.

A fábrica


A caminho da fábrica.

Estávamos em 62. Ia abrir em Alhos Vedros uma fábrica de confecções, de capitais suecos, que começou por contratar cinco raparigas para o período de arranque da fábrica, eu incluída. Puseram-nos a competir umas com as outras, para ver quem é que conseguia fazer mais. Éramos todas muito novas e inconscientes. Após algum tempo, contrataram mais, servindo-se das primeiras como testas de ferro perante as recém-chegadas, pagando-lhes mais uns tostões. A maior parte delas tornou-se encarregada de secção. Ao fim de um ano entrei de baixa com uma anemia e mais tarde saí de lá.

A Cooperativa

Entretanto, surgiu nova oportunidade de emprego numa cooperativa de consumo, na senda do idealismo de António Sérgio. Fui para lá como empregada de balcão. A cooperativa funcionava como uma sociedade: havia uma direcção, um conselho fiscal, uma assembleia geral. Comecei a ganhar gosto pela causa do cooperativismo, sentia que estava a contribuir de algum modo para beneficiar os trabalhadores associados. A maior parte eram operários da CUF, da CP, da Siderurgia, das fábricas da cortiça.



Na Inauguração da biblioteca na Cooperativa, com a Direcção, 1970.

Fui eleita para secretária da Assembleia Geral da Cooperativa. A minha participação levou a que mais tarde fosse co-fundadora de uma secção cultural e biblioteca que também dava alfabetização aos cooperantes. Era a única mulher. Era raro e mal visto uma mulher participar, porque ficaria sujeita a reuniões à noite.

Teve curta duração, pois a pide encerrou-a, apreendendo quase todos os livros.

No total, fiquei na Cooperativa durante nove anos.

A “universidade proletária”

No Ginásio Atlético Clube, que era uma colectividade de cultura e recreio com muita actividade desportiva e cultural, começou a funcionar uma escola nocturna para associados, onde vários estudantes, no turbilhão das crises académicas, entre os quais o Eduardo Pires, que veio a ser meu marido, davam aulas gratuitas do 2º ao 5º ano liceal.

O Zeca Afonso chamou-lhe “Universidade Proletária”.


Grupo de alunos e professores da escola do Ginásio Atlético Clube.

Comecei a frequentar as aulas à noite, trabalhando de dia na Cooperativa.

O Ginásio foi, não apenas uma escola de conhecimentos escolares, mas permitiu, aos que a frequentaram, uma maior capacidade crítica e de aprendizagem política e social.

Por mim, posso concluir que frequentei os lugares certos e conheci as pessoas certas!

A passagem pela prisão

No Barreiro e Moita, a PIDE ia fazendo das suas: Amigos eram presos, outros tinham que se exilar em França, como foi o caso de um meu cunhado, que, mais tarde deu nome ao Centro Cultural José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira. De lá enviava materiais como discos, livros, que eram vendidos para apoio às famílias dos presos políticos e assim comecei a participar, por influência do PCP.

Em 9 de Janeiro de 72 fizemos uma acção arriscada. Fomos, um grupo de jovens, para a praça do Barreiro vender materiais de apoio. Havia uma Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos legal, mas isso não significava que a PIDE não interferiria, principalmente numa situação deste género. E nós tínhamos consciência disso. Ao fim de meia hora de lá estarmos, surgiu a GNR. Os que tinham os materiais conseguiram fugir, assim como outros que escaparam a tempo. Os restantes foram levados para o posto da GNR do Barreiro. Eu, a Deolinda, a Leonor, a Odete, o Cabaço, o Porfírio, o Valente e o Madeira. Estivemos lá toda a tarde.

Por volta das 17h, levaram-nos para Caxias. Cada um ficou numa cela, não nos voltámos a cruzar. Era permitido um telefonema e liguei à minha irmã para explicar a situação e para dizer à mãe, então muito doente, que eu tinha ido numa excursão. Quisemos poupá-la e ela só soube da minha prisão depois do 25 de Abril.


Trabalhando na Revista SIMulher.

No primeiro dia deixaram-me na cela sem me dizerem nada. No dia seguinte, continuaram sem nada me dizer. Pouco depois do almoço, levaram-me para a sala de interrogatório. De vez em quando, abriam a porta e espreitavam. Entrou um pide na sala que começou a andar para trás e para a frente com as mãos atrás das costas. Ia olhando para mim e depois ia-se embora. Passado um bocado, entra outro, que se senta à minha frente e me diz: “Bem, então vamos lá resolver isto”. Começou por me perguntar em que é que estava metida e quem me tinha dado os materiais que andava a distribuir. Respondi-lhe que não tinha nada a dizer e que se ele precisasse de alguma informação deveria contactar a Comissão, que era legal. Ele repetia, repetia sempre a mesma coisa. Eu também. Depois de me voltarem a deixar algum tempo sozinha, vieram-me buscar quase à noite para me levarem para a cela.

Deram-me uma carne que mais parecia sola de sapato, um pedaço de pão e uma colher.

Tinha noção de que aquela prisão não ia dar em nada. Eles não tinham mais por onde pegar, mas sempre tentavam espremer para ver o que conseguiam.

A raiva dava-me força e não cheguei a sentir qualquer desânimo.


AG da UMAR.

Ao terceiro dia, quiseram que eu assinasse o auto onde, para além de constar as “actividades contra a defesa do Estado” queriam que eu dissesse quem tinha ordenado a acção. Para a mesma pergunta, a mesma resposta: nada a declarar a não ser contactar a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.

A minha preocupação era não referir o nome de ninguém.

Saí no dia 12 de Janeiro, mediante uma caução de dois mil escudos. Saíram todos.

Quando saí da prisão voltei para a Cooperativa e continuei a ter actividade política, agora com maior percepção de que estava a ser vigiada.

Fui bem recebida pela maioria das pessoas, apenas uma colega se furtava a andar comigo. Foi aí que me disseram algo que tomei como elogio, embora de cunho sexista: “És mais homem que muitos homens”.

Os Grupos Marxistas Leninistas

Na escola do Ginásio começaram a delinear-se dois grupos entre as pessoas que queriam aprender apenas para os exames e os que não se importavam de despender mais tempo para ter uma formação mais aprofundada do ponto de vista político e social, que afinal lhe daria uma maior capacidade de aprendizagem. A maioria era influenciada pelo PCP, mas alguns já estavam mais próximos dos Grupos Marxistas Leninistas.


Com Natividade Correia e Manuela Tavares, anos 90

A escola dividiu-se, embora respeitando-se entre si as opções de cada um. Uma parte no Ginásio e a outra numa república. A maior parte das pessoas com quem eu tinha mais afinidade passaram para a República. Muitos dos professores permaneceram no Ginásio mas também na república, o Eduardo, inclusive, que era um dos responsáveis pelo aluguer da casa, o Albino Lopes e o António Coelho, um dos fundadores da escola.

Em Abril de 1973, estive no III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro. Durante a romagem à campa de Mário Sacramento, a polícia de choque carregou sobre os manifestantes. Encostaram-nos contra um paredão e começaram a espancar toda a gente. Eu disse qualquer coisa à polícia e eles avançaram contra mim. O Eduardo quis proteger-me e acabou levando umas quantas bastonadas nas costas. Ainda conseguiram atingir-me na cabeça. Ao lado um jovem era atacado no joelho por um cão polícia. A polícia de choque, de bastão em riste, espumava enraivecida.

Durante o nosso namoro, o Eduardo foi preso. O Acácio Barreiros, que na altura também vivia na república, é que me foi dar a notícia.

Nunca o pude visitar na prisão, apesar dos requerimentos dele, todos indeferidos, claro.

O dia do casamento, a 8 de Setembro de 73, foi também o dia do encontro da Oposição Democrática num pavilhão de ferro-velho junto à estação de Palmela para a escolha de candidatos à Assembleia Nacional.

A PIDE tinha apertado a vigilância à casa da república e o Eduardo, para não comprometer os outros companheiros, andou às voltas durante a noite e foi ter a minha casa já de manhã. Quando a minha mãe abriu a porta, ele só lhe pediu para ela não fazer perguntas e o deixar ficar num cantinho.

A família queria fotografias do casamento, mas nem sequer arranjei fotógrafo. Nas condições em que vivíamos, com as actividades que tínhamos, nem tal nos passava pela cabeça. À tarde fomos para Palmela. O Eduardo era um dos nomes a ser proposto.

A República passou a ser também a minha morada. Continuei a trabalhar na Cooperativa, ainda que as relações lá se tenham deteriorado. Como me aproximei de um dos Grupos Marxistas Leninistas, sofri algumas pressões e fui sendo posta de parte.

A situação culminou, inclusive, num processo de despedimento ilegal que durou 5 anos.

Quando a República começou a funcionar como sede de recenseamento eleitoral e a ser constantemente vigiada pela PIDE, saímos de lá e fomos viver para um andar em Coina. O Eduardo já trabalhava na Lisnave, era professor na escola de formação.

Eu, com baixa de parto, que era de 3 meses, participava em pichagens, na distribuição de comunicados nas fábricas, a altas horas, em pares fingindo-se de namorados.

A situação apresentava-se difícil, a perseguição e controlo da PIDE aumentava. Previa-se que antes do próximo 1º de Maio haveria uma razia de prisões e muitos de nós estavam visados.

“Onde estava no 25 de Abril” (pergunta do saudoso Baptista Bastos)

Na manhã do 25 de Abril, eu e a minha cunhada, tínhamos estado a imprimir panfletos para distribuir no 1º de Maio. Na camioneta, por volta das 7h da manhã, com os panfletos enrolados em jornais dentro de um saco, começámos a ouvir na rádio o apelo das Forças Armadas. Surgiu o nome do Spínola e nós ficámos em sobressalto, sem saber a natureza do tal Movimento das Forças Armadas, seria mais à direita? Os sacos agora pesavam tanto como a nossa preocupação. Tratámos de os esconder e ficar de alerta aos acontecimentos. As notícias iam confirmando que se tratava do derrube do regime. A adesão do povo e a desobediência de permanecer em casa foi determinante.

Era o fim da PIDE, da censura, da guerra colonial! Começava a esperança!

O meu filho, na minha barriga de oito meses, já nasceria livre da pata do fascismo!


* Eulália Vaz - Nasci em Vale d’Água, na freguesia de Messejana em janeiro de 1944.

Tive várias profissões ao longo da vida: fui operária têxtil, empregada de balcão, empregada de escritório, de composição e montagem gráfica.

Fundadora da UMAR, dirigente e activista.

Representante da UMAR no Conselho Consultivo da CIDM – Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres, hoje CIG – Comissão para a Igualdade de Género.

Fundadora da revista Mulher d’Abril e SIMulher, da qual fui directora.

Autarca na Junta de Freguesia de Santa Engrácia na coligação “Por Lisboa” 93/96

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