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Morreu Maria da Conceição Moita, uma Mulher de Abril

A resistente antifascista tinha 83 anos e foi vítima de doença prolongada. Católica progressista, participou em ações contra a ditadura e a Guerra Colonial e deu apoio logístico às Brigadas Revolucionárias. Foi presa pela PIDE em dezembro de 1973. Manteve-se muito ativa em iniciativas cidadãs ao longo da sua vida.
Maria da Conceição Moita, 2007.

Maria da Conceição Moita, Xexão como era conhecida pelas pessoas amigas, nasceu a 5 de abril de 1937, em Alcanena. Por volta dos dez anos, foi viver para Lisboa com a sua avó materna e o seu irmão mais velho, que, à época, ingressou na universidade.

Conceição Moita teve uma educação cristã e assumiu-a pessoalmente “de uma maneira natural”: “Nunca me senti pressionada, era como uma respiração”. Ainda que assinalasse que a Igreja “comete erros sem explicação” e que fosse “completamente crítica em relação a muitas das suas posições e das suas práticas”, nunca a abandonou. “Já tive muitas crises, zangas profundas, mas a Igreja é um pouco a minha casa e é o lugar onde posso, com outros, viver um caminho de procura de maior fidelidade ao Evangelho de Jesus. Mas a convivência profunda com não-crentes é para mim um dado que não posso dispensar”, explicava a resistente antifascista no seu testemunho para o projeto “Mulheres de Abril”.

Ainda adolescente, integrou um movimento católico denominado “A União Noelista”. “Por cá, o movimento foi recrutando mulheres com muita qualidade humana, e que vieram a ter algum protagonismo nos planos social, cultural e eclesial. A maior parte era gente que se situava politicamente à direita, mas algumas delas começaram a aproximar-se dos movimentos progressistas. Foi por essa via que entrei na grande onda progressista católica. E foi também neste contexto que tive os primeiros contactos com as grandes bolsas de miséria que existiam em Lisboa”, lembrava Conceição Moita.

Os católicos progressistas queriam “uma Igreja mais aberta e mais atenta aos problemas do tempo, ao serviço das pessoas e do mundo, não uma Igreja fechada e aliada do regime político”. “Fomos percebendo que não chegava que cada um mudasse o seu próprio estilo de vida para haver mudança e que era fundamental uma implicação clara da parte dos cristãos na luta política”, assinalava.

A primeira ação de rua em que Maria da Conceição Moita participou foi em Fátima, num 13 de Maio. Nesse dia foram distribuídos milhares de panfletos em que se afirmava que “a mensagem de Fátima só podia fazer apelo à paz e que os católicos deviam assumir de uma maneira muito clara e muito firme a luta contra a guerra em África”.

Em dezembro de 1972, Conceição Moita esteve na organização da Vigília da Capela do Rato contra a Guerra Colonial. No dia 30, comunicou à sua comunidade, no fim da missa das 19h30, que ficaria em vigília na capela por 48 horas, para discutirem a paz. “Houve lugar a debates, à preparação de cartazes, e à elaboração de moções escritas em papel de cenário, coladas com fita-cola nas paredes. Cantou-se. Fez-se silêncio. Leram-se muitos relatos do que se passava nos campos de guerra”, recordava.

Em 1972, Conceição Moita foi contactada por Carlos Antunes, dirigente do PRP, e militante das Brigadas Revolucionárias (BR), no sentido de dar apoio logístico à luta que tinham iniciado. A sua colaboração passou “por ter uma casa arrendada em meu nome para apoio aos clandestinos e dar variadíssimas boleias”.

A 6 de dezembro de 1973 foi presa pela PIDE: “Estavam a ser presas muitas pessoas ligadas a mim e eu achei que fazia sentido sair do país. Fui à TAP, comprei um bilhete de avião e a PIDE seguiu-me. Uma ou duas horas antes de partir, estavam na minha casa para me prender”. Foi torturada, submetida a isolamento e ficou na prisão até ao 25 de Abril, um dia que, para si, representou uma “dupla libertação”. Os portões da prisão abriram-se no dia 26 de abril a horas tardias.

Momento da libertação de Maria Conceição Moita da prisão de Caxias, na noite de 26 para 27 de Abril de 1974.

A sua militância não se esgotou com a Revolução: “Logo depois realizámos ‘Assembleias de Cristãos’, onde participaram todos os católicos, também os que fazíamos oposição ao regime".

Maria da Conceição Moita num encontro internacional de cristãos, em 1974.

"Constituíram-se depois vários grupos, como os ‘Cristãos em Reflexão Permanente’ ou os ‘Cristãos pelo Socialismo’, de algum modo impulsionado por mim, mas que durou muito tempo. Houve também um grupo que fundou o jornal ‘Libertar’ que teve muita importância nos primeiros tempos da vida em liberdade, consciencializando os cristãos para se misturarem com todos os cidadãos para consolidarem a liberdade e lutarem contra o capitalismo feroz que nessa altura havia em Portugal”, relatava Conceição Moita em 2014, em entrevista à Agência Eclésia.

Maria da Conceição Moita e Nuno Teotónio Pereira em Marvão.

Conceição Moita foi educadora de Infância, tendo trabalhado na educação de adultos e na animação comunitária. Foi ainda professora de Religião e Moral em Liceus de Lisboa e no Barreiro. Trabalhou no movimento “O Ninho” com raparigas pobres que se entregavam à prostituição. Dirigiu uma secção da Casa Pia de Lisboa. Fez um Mestrado em Ciências da Educação. Nos últimos vinte anos de vida profissional, foi professora na Escola Superior de Educação de Lisboa. Estava reformada e ainda muito ativa em iniciativas cidadãs. Publicou o livro Para uma ética situada dos profissionais de educação de infância (1ª ed. - Lisboa : APEI, 2012. - 70 p. : il.), e colaborou na obra Vidas de professores, organizada por António Nóvoa, com o texto “Percursos de formação e de transformação”.

Maria da Conceição Moita, Congresso dos GDUP's.

O Esquerda.net apresenta à família e amigos de Maria da Conceição Moita as mais sentidas condolências.

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