Morreu Charles Piaget, símbolo da auto-gestão da fábrica Lip

05 de novembro 2023 - 20:49

Assinalam-se este ano 50 anos da luta que colocou parte dos trabalhadores franceses a imaginar a auto-gestão. O seu mais conhecido dinamizador morreu este sábado aos 95 anos.

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Charles Piaget. Foto de Bernard Faille/Biblioteca Municipal de Besançon.
Charles Piaget. Foto de Bernard Faille/Biblioteca Municipal de Besançon.

O nome da falida fábrica de relógios de Besançon será hoje desconhecido para muitas pessoas. Mas em meados dos anos 1970, Lip foi sinónimo de luta e de solidariedade. Em 1973, depois do seu colapso financeiro, os trabalhadores pegam nas suas próprias mãos as rédeas da fábrica. Seguiu-se um movimento de apoio à experiência de auto-gestão que juntou grande parte da esquerda francesa e que atravessou fronteiras. Vivia-se a ressaca do Maio de 68. Então, colocava-se no pulso um relógio como um sinal de esperança já a contratempo.

De entre os trabalhadores, Charles Piaget, mecânico de ferramentas e dirigente local da CFDT, tornou-se talvez o mais conhecido. Chegou a ser avançado como pré-candidato às eleições presidenciais de 1974. Faleceu este sábado aos 95 anos.

A auto-gestão da Lip não nasceu no campo ideológico nem foi um plano, foi um recurso depois da deserção da gestão e face à ameaça do desemprego. A 17 de abril de 1973 precipita-se a crise com os acionistas suíços do grupo Ebauches SA, que tinham entrado no capital da empresa em 1967, a requererem falência e o chefe da empresa a demitir-se. Esta passa a estar sob administração judicial. A 12 de junho, os trabalhadores descobrem um plano de reestruturação que passaria pelo fecho da unidade de Palente, pela manutenção da atividade de montagem apenas em Besançon e com peças vindas da Suíça, o que implicaria o despedimento de perto de mil trabalhadores. Estala a revolta, os administradores são sequestrados durante algum tempo, a fábrica é ocupada e acaba por laborar pela iniciativa dos trabalhadores. Sobreviverá através da venda solidária de relógios um pouco por todo o país.

O próprio Charles contou, em entrevista à AFP no início deste ano, a propósito da evocação da passagem dos 50 anos do sucedido, que passaram “dez dias” antes de chegarem à conclusão de que “não havia outra solução senão fabricar, vender e pagar”. Tempos de hesitação, em que “nos questionámo-nos se seria possível”. Até que “os operários da linha de montagem vieram gritar connosco”, a dizer: “mas a sério, acham que era o patrão que fazia a qualidade? Acham que era o patrão que produzia? Éramos nós que fazíamos o trabalho e podemos garantir-vos que vamos produzir com qualidade”. Avançou-se. Ao semanário L’Anticapitaliste, explica: “tomámos conta da fábrica. Fazíamos auto-gestão sem o saber. Era uma ferramenta para não termos os salários cortados”.

Só que o processo não foi feito só de avanços. Em agosto de 73, Henri Giraud é nomeado mediador pelo governo. Não se chega a acordo porque os trabalhadores insistem em salvar todos os empregos. O executivo francês mandará em seguida a polícia de choque para desocupar a fábrica. Os trabalhadores instalam-se num ginásio que lhes é cedido perto da antiga fábrica. Cerca de um mês depois, a 29 de setembro, acontece uma mega-manifestação de apoio aos trabalhadores.

Uma nova figura entra em cena: Claude Neuschwander que toma conta da empresa. Militante do Partido Socialista Unificado, como Piaget, e dirigente do grupo de comunicação Publicis, acaba por conseguir entrar em acordo com os trabalhadores na primavera de 1974. A sua promessa é de ir recontratando progressivamente os trabalhadores. Mas passados dois anos há um novo pedido de falência. Outra vez, os trabalhadores tomam brevemente a responsabilidade da produção. A 12 de setembro de 1977, a empresa é encerrada. Criar-se-ão na sequência seis cooperativas que vão laborando até meados dos anos 1980. A partir de 2015, o nome Lip volta a estar inscrito em relógios produzidos em Besançon. A marca pertence agora a Jean-Luc Bernerd, da sociedade MGH, Mas a Lip que fez sonhar ao longo nos anos das 200 assembleias-gerais de trabalhadores tinha ficado definitivamente para trás.

Na entrevista à AFP, Piaget fazia o balanço de que tinha ficado “uma ideia que chateou, uma ideia subversiva”.

E não só terá chateado patrões, os seus lóbis e partidos. Ao longo do tempo, a relação com as hierarquias sindicais não foi isenta de percalços. Piaget, ao L’Anticapitaliste defende uma visão de sindicalismo que estava longe de ser dominante: “o sindicato deve trazer os seus conhecimentos, a sua experiência, mas a luta pertença a quem a faz. Nela, cada um tem os mesmos direitos, não deve prerrogativas dos quadros sindicais.

Charles, antes durante e depois da Lip

Charles Piaget nasceu a 28 de julho de 1928 em Besançon. Na infância viveu sozinho com seu pai, também ele relojoeiro, até este falecer quando tinha 15 anos, altura em que é acolhido por uma outra família de origem muito católica que o influenciará nesse sentido. Aos 18 anos, findo o ensino industrial em relojaria, começa a trabalhar na Lip como mecânico.

Desde o primeiro dia de trabalho, sindicaliza-se na CFTC. O ramo sindical da Lip deste sindicato é um dos que adere à fundação da CFDT em 1964. Antes, em 1953, torna-se representante do pessoal e parte da Comissão de Trabalhadores. Adere um ano depois à Ação Operária Católica. Nesta altura, é igualmente marcado pelo anti-colonialismo fazendo campanha contra a guerra da Argélia.

E, em 1958, tem a sua primeira experiência partidária quando se junta à UGS, União de Esquerda Socialista. Em 1960, é criado o Partido Socialista Unificado ao qual adere desde o seu início.

Com o caso Lip, torna-se conhecido do país inteiro. Recusará, contudo, sempre ser o “líder” do movimento. O documentário Les Lip, l´imagination au pouvoir, lançado em 2007, é mais uma ocasião para o ouvir dizer que “o sucesso [de um movimento sindical] é não ter mais necessidade de um líder… ou pelo menos que a sua voz só conte por um”.

O que não quer dizer que não se tenha disponibilidade para ficar à frente de outras batalhas. Com as eleições de 1974 à porta, uma minoria do PSU impulsiona a sua candidatura presidencial. Frente Comunista Revolucionária, a organização que antecedeu brevemente a Liga Comunista Revolucionária, e Aliança Marxista Revolucionária, declaram-lhe apoio. Tudo parece estar em pleno andamento quando o emblemático Jean-Paul Sartre anuncia também o seu apoio num texto publicado no Libération. Mas a direção do PSU, com Michel Rocard à cabeça, corta-lhe as pernas quando se junta à campanha de Mitterrand. Apesar de haver ainda apelos a que se candidatasse na mesma, Charles Piaget decide não contrariar o partido.

Reformado a partir de 1988, continua a ser ativista, nomeadamente na associação que organiza pessoas desempregadas e luta contra o desemprego Agir contre le chômage, criada em 1993.

O anúncio da sua morte foi tornado público pela presidente da Câmara de Besançon, Anne Vignot, eleita por uma coligação dos Verdes, nos quais milita, PCF e PS, que escreveu na rede social X que Piaget “demonstrou a toda uma sociedade que a força do coletivo, força emancipadora, é capaz de abalar os estereótipos e devolver a esperança às vítimas da injustiça social. Este homem fez da Lip uma aventura humana singular”.