Como a ocupação de uma fábrica de relógios preservou o legado do Maio de 1968

18 de junho 2023 - 12:32

Faz este domingo 50 anos que a administração da fábrica de relógios LIP em Besançon, França, anunciou despedimentos em massa. Em resposta, os trabalhadores ocuparam a fábrica, lançando uma das mais famosas tentativas de autogestão operária da história. Entrevista de Martin Greenacre a Monique Piton.

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Trabalhadores da LIP em 1974. Foto cedida por Monique Piton e publicada na Jacobin.
Trabalhadores da LIP em 1974. Foto cedida por Monique Piton e publicada na Jacobin.

Os efeitos de maio de 1968 ainda ecoavam pela França em abril de 1973, quando um renomado relojoeiro declarou falência, traçando planos para despedimentos em massa. A fábrica da LIP em Besançon, perto da fronteira com a Suíça, tornou-se o local de uma das mais famosas e mais duras lutas dos trabalhadores na história moderna da França.

A partir de 18 de junho de 1973, cerca de mil trabalhadores, incluindo seiscentas mulheres, ocuparam a sua fábrica para protestar contra o encerramente, apreendendo o stock de relógios remanescentes, montando outros e vendendo-os, com o slogan: “C’est possible, on fabrique, on vend, on se paie” (É possível, nós produzimos, nós vendemos, nós pagamo-nos, em tradução livre).

O Maio de 1968, que viu cerca de dez milhões de trabalhadores entrarem em greve, foi um momento em que as hierarquias tradicionais estavam a ser desafiadas onde quer que se encontrassem na sociedade. Em partes do movimento dos trabalhadores, isso foi articulado em torno de apelos à autogestão – a autogestão dos trabalhadores – em contraste com o regime de gestão taylorista e a falta de diálogo com os empregados que caracterizavam as fábricas em todo o país.

A 16 de maio, um dos maiores sindicatos da França, a Confederação Democrática Francesa do Trabalho (CFDT), publicou um comunicado que claramente adotava o princípio como objetivo político. Escrevia: “A monarquia industrial e administrativa deve ser substituída por estruturas democráticas baseadas na autogestão”.

O conflito na LIP capturou a imaginação na França e no exterior, pois simbolizava essas esperanças de uma nova forma de organizar o local de trabalho. A 29 de setembro de 1973, cerca de cem mil pessoas participaram numa marcha em Besançon em apoio aos trabalhadores.

Vários ativistas dentro do Partido Socialista Unificado chegaram a apresentar Charles Piaget, do CFDT, a figura mais reconhecida na luta da LIP, como a sua escolha para concorrer às eleições presidenciais de 1974. Apesar de receber o apoio de Jean-Paul Sartre, Piaget não foi escolhido para concorrer à presidência, mas mesmo assim os “bandidos” da LIP inspiraram uma geração de ativistas.

Foram expulsos da fábrica pela tropa de choque do Corpo de Segurança Republicano (CRS) em 14 de agosto, mas o movimento continuou até janeiro de 1974, quando um novo chefe foi nomeado e os trabalhadores foram progressivamente recontratados. A LIP entrou com pedido de falência pela segunda vez em abril de 1976, e a fábrica foi ocupada mais uma vez, mas a empresa foi liquidada em setembro de 1977.

Monique Piton tinha 39 anos em abril de 1973 e trabalhava como secretária de um investigador da LIP quando soube que perderia o emprego. Tornar-se-ia uma figura de proa no movimento, pressionando especialmente para que as mulheres do LIP fossem levadas tão a sério quanto os homens, que dominavam as posições de liderança nos sindicatos.

Em 1975, Piton publicou um livro sobre as suas experiências, intitulado C’est possible!, que foi republicado em 2015. Ela falou com a Jacobin no quinquagésimo aniversário de uma luta que continua a ser um símbolo de uma época em que tudo parecia possível.

Que papel as mulheres desempenharam na greve e como esse papel evoluiu?

Não devemos usar o termo “greve”, pois não parámos de trabalhar voluntariamente. Deixámos de ter patrão e não havia subsídio de desemprego na época. Ficámos brutalmente sem rendimento.

Quando no dia 18 de junho [1973] nos disseram “já não estão a receber, a partir de ontem”, começámos a lutar pelos nossos empregos, sem nos perguntar se havia algum problema entre homens e mulheres.

Algumas mulheres ofereciam-se para limpar ou descascar vegetais, aceitando esses hábitos, e as datilógrafas eram evidentemente muito úteis para datilografar folhetos. Outros, como eu, escolheram outro papel: divulgar a nossa mensagem e vender relógios por toda a França. A minha filha tinha 19 anos e eu já não estava com o meu marido – estava livre.

Houve mulheres que começaram a fazer tarefas “femininas” e foram assumindo mais responsabilidades com o passar das semanas?

Sim, as que lavavam a louça e descascavam cebolas e batatas – um dia perceberam que não era normal. Disseram às outras e todas nós protestámos para apoiá-las. Pedimos aos homens que contribuíssem mas eles não sabiam lavar a louça. Havia um que não sabia secar os talheres e guardá-los. Estava completamente perdido.

No final, algumas mulheres ficaram na cantina, mas passou a haver rotatividade. Ficavam lá por duas semanas e depois podiam sair, falar com jornalistas ou visitantes, ou participar de reuniões em Paris ou Bordéus.

Escreveu que algumas mulheres perceberam que eram capazes de coisas que nunca imaginaram. Ao ler o seu livro, temos a impressão de que a luta foi uma forma de libertação em si.

Quando uma mulher trabalhava na linha de montagem, não podia falar o dia todo, só um pouco na hora do almoço (depois ia para casa e conversava com os filhos) mas realmente não conseguia conhecer pessoas. Enquanto que durante a luta, tínhamos o dia inteiro pela frente para encontrar e conversar com as pessoas.

Muitos jornalistas chegaram e começaram a fazer perguntas. Havia mulheres que não acreditavam que tinham sido capazes de responder; diziam: “Ena, não gaguejei, não errei, disse-lhe isto ou aquilo”.

Ao ler o seu livro, fica claro que as mulheres se sentiam mais à vontade fora das estruturas dos sindicatos tradicionais. Porquê?

Percebi desde cedo que, nas reuniões sindicais, as mulheres não eram ouvidas. Uma mulher fazia uma sugestão, as pessoas sorriam-lhe e depois passavam para outra coisa. Alguns dias depois, um homem fazia a mesma sugestão e os outros exclamavam: “Ah, que boa ideia!”

Por isso senti-me melhor no Comité d’action (Comité de Ação). Foi criado antes da luta por Jean Raguenès, um trabalhador e padre dominicano que nunca nos falou sobre religião, mas foi capaz de dar confiança até às pessoas mais caladas. O Comité d’action não era anti-sindicatos, era aberto a ideias, não tinha líderes. Éramos livres para nos expressarmos completamente.

Houve comentários ou comportamentos abertamente sexistas?

Na verdade não, nunca houve nada com más intenções. Nós éramos aquelas coisinhas que eles queriam proteger. Eles gostavam de nós e sorriam para nós mas não nos ouviam.

As experiências específicas das trabalhadoras eram algo sobre o qual já tinha pensado? O termo “feminismo interseccional” não existia na época mas é claro que já estava pensando nestas questões da dupla exploração.

Alguns dirigentes masculinos censuraram-nos por protestarmos no centro da cidade, dizendo que estávamos a afastar-nos da luta pelos nossos empregos mas estávamos a participar no movimento nacional pelos direitos das mulheres. Houve um grande movimento naquela época para que o aborto fosse autorizado e para que a violação fosse reconhecida como crime e não apenas infração.

Disseram-nos que estávamos a perder o nosso tempo. O que significava que todos aqueles homens impediram que as suas mulheres protestassem. Houve algumas que desobedeceram e ainda assim foram.

Com a venda de relógios, todos tínhamos o mesmo salário de antes. No ano anterior, tinha sido inscrito no Código do Trabalho o princípio da igualdade salarial entre homens e mulheres, por trabalho igual ou de igual valor. Devo explicar: trabalhar na linha de montagem, fazer ações meticulosas e repetitivas, que te impediam de levantar a cabeça e trocar algumas palavras com a vizinha – esses trabalhos eram reservados para as mulheres. É tão cansativo e ainda mais desgastante do que transportar caixotes ou fazer furos em metal com uma máquina.

A direção da LIP não tinha respeitado esta lei. Mas durante a luta, os sindicatos deveriam ter feito essa justiça. Mas não! As mulheres recebiam o mesmo salário de antes, mesmo sendo ativas e mobilizadas na luta.

Percebeu que as mulheres na fábrica tinham mais dificuldade do que os homens?

Tínhamos percebido isso há muito tempo. Eu já tinha sido despedida de outra fábrica de relógios em Besançon porque não queria ir para a cama com o chefe.

Estava na fábrica de Kelton e estávamos a lutar no maio de 68 antes do resto da França. Já estávamos em greve há uma semana para defender as mulheres que trabalhavam numa sala sem janelas. Houve algumas que desmaiaram e foram encaminhadas para a enfermaria, tendo esse tempo descontado do salário. Estávamos em greve, então, bum, aconteceu o maio de 68 em toda a França.

Em C’est Possible, explica que em 1976, quando a fábrica foi novamente ocupada, foi proibida de distribuir o seu livro aos visitantes durante um dia aberto. Sente que os sindicatos a impediram de falar sobre os problemas das mulheres?

Absolutamente. Era suposto sermos simpáticas e quando ficávamos indignadas com alguma coisa, eles não aceitavam.

Os sindicatos eram como religiões – não queriam prejudicar-nos mas tínhamos que ficar caladas. Havia um palco num corredor e um dia levantei-me e fiz um discurso que não significou nada. Disse coisas como: “Nós, mulheres, fomos suspensas para o plano social melhorasse e os sindicatos se entendessem com o presidente da Câmra…” Depois do discurso, uma mulher disse-me: “Não entendi nada” e eu respondi: “Tens razão, não há nada para entender. Mas já que nós mulheres não somos ouvidas quando dizemos algo inteligente, então vamos falar para não dizer nada.”

Algumas mulheres lutavam para conciliar a vida de ativista com os afazeres domésticos ou com os filhos. Isso foi um tópico de discussão?

Lamento não ter abordado mais isso. Poderíamos ter criado uma creche. Havia mulheres com filhos de quatro anos ou de doze que não os podiam deixar sozinhos. Então deixavam-nos numa creche da cidade ou com os avós para que pudessem vir à Assembleia Geral [as reuniões matinais em que participavam os trabalhadores, incluindo os vários sindicatos] – às 9 horas, estava toda a gente lá. Mas se pedisses para elas virem a Lille contigo, por exemplo, não podiam por causa das crianças. O marido não iria compreender – ele poderia ficar a cuidar das crianças ao fim da tarde mas não era isso que se fazia na época.

Havia até uma mulher que era esposa de um sindicalista conhecido. Quando a fábrica foi invadida pelos CRS, veio protestar em frente à fábrica porque era agosto e, pela primeira vez, todos os seus quatro filhos estavam num acampamento de verão. Disse-nos: “Esta é a primeira vez que consigo andar sem ter uma criança nos braços”. Era dona de casa e nunca pudera nem vir às nossas Assembleias Gerais. E disse: “Estou feliz, estou livre, não posso acreditar, posso andar e virar-me, sem nada nas mãos”.

Podia falar um pouco sobre as suas interações com trabalhadores estrangeiros? Há um vídeo da época, da cineasta Carole Roussopoulos, em que descreve como as mulheres são tratadas, mas substitui a palavra “homem” por “branco” e a palavra “mulher” por “árabe”.

Em França, os homens árabes faziam os trabalhos mais difíceis e viviam desconfortavelmente em albergues. Eram desprezados pelo governo e os franceses tratavam-nos como sub-humanos. Não havia política de reunificação familiar na época.

Na fábrica, havia alguns homens árabes. Eles participaram da luta e acho que foram aceites, como as mulheres, mas nunca vi nenhum deles falar ao microfone. O vídeo foi em parte para os líderes sindicais. Eles não eram racistas; nunca ouvi uma palavra inapropriada. Mas, como acontecia com as mulheres, não nos insultavam mas também não nos ouviam.

Venderam relógios de um stock que havia quando ocuparam a fábrica. Mas também começaram a fazer relógios para vender também, não é?

Isso sempre me irritou. Foi um boato que se espalhou, mas não fizemos nenhum, não tivemos tempo. Não se pode consegue um relógio assim. Houve demonstrações de como eram feitos, assim houve relojoeiros que voltaram para as suas bancadas e visitantes e jornalistas tiraram fotos e disseram que tínhamos voltado ao trabalho, mas não era verdade.

Usávamos o slogan “Produzimos, vendemos, pagamo-nos”, o que significava apenas que era a nossa produção e que vendíamos o produto de nosso trabalho.

Quando a LIP é referida como uma experiência de autogestão, identifica-se com esse termo?

Não pode haver autogestão quando não há igualdade e como não havia igualdade para com as mulheres não podia ser autogestão. Houve um início de autogestão e toda uma luta que colocou os homens ao lado das mulheres mas o termo é excessivo.

Os dirigentes faziam perguntas e nós votávamos, mas às vezes era uma pergunta de sim ou não, e nem sempre as perguntas que queríamos.

E para ser autogestão teria de se reiniciar a produção.

Sim, reiniciámos a cantina, a limpeza, mas queríamos um patrão! Nunca quisemos fazer a fábrica funcionar. Tomámos o stock para sermos pagos, pois não tinha havido nem aviso prévio – de um dia para o outro ficámos sem nada. Todos concordámos, não houve uma única pessoa que dissesse que não deveríamos fazer isso.

Os relógios foram escondidos em lugares frescos, para que não fossem danificados. Eu não sabia onde eles estavam. Estavam escondidos em cinco locais e ninguém sabia sobre todos os cinco, de modo que, se alguém fosse preso e torturado, não poderiam denunciar todos os cinco. Conseguimos pagar-nos por quase um ano e, quando fomos recontratados, devolvemos o restante do stock.

Acha que há alguma lição que os ativistas de hoje possam tirar da vossa luta?

Nunca desistimos enquanto cada um de nós não fosse recontratado. Resistimos diante de ofertas de recontratação que teriam deixado algumas pessoas para trás.

Pudemos usar um cinema local para as nossas reuniões de assembleia de trabalhadores todas as manhãs, comunicámos uns com os outros através de cartazes na cave da igreja e fizemos uma cantina num forte dispensado pela câmara.

Tivemos o apoio de toda a França. Vendíamos relógios por toda parte e tínhamos dinheiro para nos pagar e fazer comida. Lembro que em dezembro de 1973 estava a ir para Gennevilliers, nos subúrbios de Paris, porque os trabalhadores imigrantes estavam em greve lá. Disse ao dirigente sindical da LIP, Charles Piaget, que queria dar-lhes algo, porque não recebiam, não tinham nada, e ele deu-me 3.000 francos para lhes dar.

Nunca houve um problema em termos de um homem incomodar ou assediar uma mulher. Ainda que eu resmungue sobre duas, três coisas em relação aos problemas das mulheres, lutámos todos juntos.


Martin Greenacre é um jornalista freelancer que trabalha em França.

Monique Piton é uma trabalhadora e autora francesa.

Publicado originalmente pela Jacobin.

Traduzido por Sofia Schurig para a Jacobin Brasil. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.