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O Maio de 68 na LIP, em Besançon

A luta e ocupação da fábrica de relógios LIP, em Besançon, ficou marcada pelo Maio de 68, mas prolongou-se até aos anos 70 do século passado. Neste artigo, Charles Piaget, um dos responsáveis pela CFDT na fábrica no Maio de 68, transmite um significativo testemunho.
A luta e ocupação da fábrica de relógios LIP, em Besançon, ficou marcada pelo Maio de 68, mas prolongou-se até aos anos 70 do século passado
A luta e ocupação da fábrica de relógios LIP, em Besançon, ficou marcada pelo Maio de 68, mas prolongou-se até aos anos 70 do século passado

[Em junho de 1973, o comité de empresa da fábrica de relógios LIP, em Besançon, inteirou-se do plano da direção da empresa de requerer falência e despedir 480 dos seus 1.300 trabalhadores, metade dos quais mulheres, bem como da intenção de congelamento dos salários. Essas informações levaram a uma ocupação da fábrica e a uma experiência auto-gestionária que teve um enorme êxito e se popularizou com o slogan “É possível: fabricamos, vendemos, pagamo-nos os salários”. Em agosto desse ano, a polícia entrou na fábrica para expulsar os trabalhadores, obtendo como resposta uma onda de greves de solidariedade nas fábricas da região, marchas e manifestações que, por sua vez, levaram a confrontos com a polícia. O governo francês da época (sendo presidente Giscard d’Estaing e Chirac primeiro ministro) decidiu encerrar a LIP em outubro, a fim de evitar o contágio do sindicalismo combativo, a experiência de auto-gestão e a contaminação do “campo social e político”. Posteriormente, em 1976, já sob nova gestão, a empresa voltou a requerer falência e de novo foi ocupada pelos trabalhadores. Um ano mais tarde, na sequência da liquidação da empresa, foram constituídas seis cooperativas. O conflito da LIP foi o mais emblemático do pós1968 e despertou uma grande solidariedade, não apenas em solo Francês, mas também noutros países europeus. Fontes: “L’affaire LIP”, artigo da wikipedia, e Mikel de la Fuente, na introdução à tradução do artigo para a Revista Viento Sur]

 

De Gaulle é o poder arrogante, que decide e não negoceia, que monologa e não dialoga. A guerra da Argélia reforçou o lado policial deste poder. As manifestações são duramente reprimidas. Estes são, pois, anos difíceis para os assalariados e assalariadas e as suas organizações. O patronato faz uníssono com o estilo de De Gaulle. Por todo o lado, as relações sociais endurecem. Na LIP, as reuniões mensais obrigatórias dos comités de empresa (CE) e dos representantes dos trabalhadores (delegados do pessoal - DP) concluem-se em três quartos de hora, com respostas negativas a quase todas as petições dos assalariados e assalariadas.

Os anos De Gaulle, 1958-1968

Lembrete de algumas datas:

1962: fim dos anos de guerra na Argélia, finalmente!

1963: admiramos a coragem dos mineiros, a sua longa luta, a sua resistência à requisição. Participamos na divulgação da sua luta, e nas numerosas recolhas de apoio.

1964: na LIP, perante uma greve de duas horas pelos salários, o patrão decide o lock-out para esse dia. É a primeira vez!

1966: um militante da CGT é despedido por ter deixado uma circular sindical no gabinete do seu colega na LIP.

1967: em dezembro, é a greve da Rhodia em Besançon. Estivemos com eles de manhã e de tarde, a divulgar as suas informações, a viver um pouco o seu duro conflito no dia-a-dia.

O 1.º de Maio: a CFTC, depois a CFDT (a partir de 1964), organiza vários primeiros de Maio em salas fechadas, devido ao reduzido número de participantes. A CGT, essa mantém as manifestações de rua, seja qual for o número de participantes.

LIP

Eu trabalhava na LIP desde 1946. Em 1953 fui eleito delegado do pessoal e membro do comité de empresa. Com alguns jovens, cedo compreendemos que apenas tínhamos um poder ilusório. Só um coletivo de trabalhadores e trabalhadoras conscientes, em grande número, pode constituir uma força real. Daí o nosso empenhamento em construir este coletivo, o que se fez cultivando a unidade com a CGT e, sobretudo, através de uma modificação profunda do nosso papel de militantes.

O essencial estava noutro sítio!

Tínhamo-lo resumido num slogan: “Os 90/10. Passar 90% do nosso tempo e da nossa energia a construir uma força autónoma de assalariados e assalariadas, sindicalizados ou não. Uma força que pensa e age, um colectivo cujos membros são iguais. E 10% para o resto, o estudo dos dossiês, as relações com a direcção e com a nossa organização sindical.

Uma mudança radical relativamente ao que se passava então!

Cada luta deve ser a ocasião de concretizar tudo isto; cada luta deve permitir a emancipação de cada uma e de cada um. É tão importante como as reivindicações! Apenas lá chegaríamos em 1973, mas um passo importante foi tornado possível pelo Maio de 68.

Antes de 1968, e apesar da dureza da época, tínhamos no nosso ativo alguns avanços sociais. Isto dito, todas e todos sentíamos o peso do clima social geral. Sabíamos que, para verdadeiramente mudar a nossa sorte, as greves de algumas horas seriam insuficientes.

De repente, aparece uma luz!

No início de Maio de 68, os e as estudantes, agora em grande número, revoltam-se. Eles e elas querem ser considerados como adultos, não querem mais essas aulas magistrais sem diálogo, nem esses regulamentos da vida universitária, atrasados de várias gerações.

Elas e eles não têm nenhum complexo e respondem veementemente aos ministros, aos reitores das universidades e outros…

Seguimos todos estes acontecimentos com espanto e paixão: “Eis aqui jovens que não sabem que o poder é forte e não recua. Ousam com audácia e naturalidade, revelam-nos que é possível confrontar este poder, desequilibrá-lo, ridicularizá-lo”. A sua luta tem enorme eco, uma enorme ressonância em toda a Europa, depois no mundo, a sua luta faz escola.

Estes jovens sacodem este velho mundo!

A classe operária e as suas organizações sentem que este momento é muito importante. Toda a arrogância, o desprezo pelo povo dos últimos anos são como uma bomba ao retardador. Tudo isto é explosivo.

Segunda-feira, 13 de maio, é a greve geral: de apoio às e aos estudantes e contra a violência policial.

Estamos cheios de esperança, informamos amplamente a LIP. Só tínhamos um temor: esse medo latente de anos, seria finalmente superado?

Na LIP a greve tem grande adesão, mas há uma deceção na manifestação, perto da ponte Battant (em Besançon), pois há poucos operários e operárias presentes para além dos militantes. De repente, um clamor: “eles estão a chegar”. Uma longa manifestação de estudantes, em filas apertadas, aparece ao longo dos cais, vinda da universidade.

O Maio de 68 dos operários e das operárias começa

É verdade que havia já algumas fábricas em greve, mas o grande movimento começa a 13 de Maio, com esta manifestação. As e os estudantes invadem a Praça Jouffroy, perto da ponte Battant. É a alegria mas, ao mesmo tempo, sinto uma enorme vergonha: “Que vão eles pensar das nossas magras tropas”? Mas a confraternização foi tão calorosa que tudo ficou esquecido. Que alegria manifestarmo-nos juntos pelas ruas da cidade! Esta jornada aqueceu o nosso coração.

Nos dias seguintes soubemos que os bloqueios e as greves rebentavam um pouco por toda a França.

Na LIP, relembramos num panfleto: “Os estudantes têm boas razões para querer mudanças, nós também. É chegado o momento de intervir, já sofremos demasiado. Os salários, os longos horários, as cadências, o assédio, as desigualdades: chega!”.

Está decidido: a 20 de maio devemos, em todo o lado, entrar na luta: greve e ocupação.

No sábado anterior, o grupo CFDT LIP passa longas horas a preparar esta acção para 20 de maio. Tudo é minuciosamente refletido: o panfleto está pronto.

Encontro marcado para segunda às seis da manhã em frente da fábrica (o pessoal entra às sete horas). Vamos enfim poder pôr em prática todas as reflexões que fizemos em torno da luta participativa.

20 de Maio, 6 horas da manhã

Estamos lá todos, os primeiros, o grupo da CFDT. Espanto: os militantes da UL (União Local) da CGT barram a porta de entrada com cabos de picaretas nas mãos: “estamos em greve, não se passa!”.

É um choque. Explicamos: “Vamos distribuir um panfleto convidando todos os LIP a entrar e marcamos encontro às 8 horas no restaurante da empresa para debater a nossa participação no movimento nacional. Na LIP, queremos um voto livre, refletido, consciente dos desafios atuais”. O momento é tenso, há muita incompreensão. Felizmente, a CGT da LIP chega e tem o mesmo discurso que nós… As portas são abertas: são 6h20.

O patrão, Fred LIP, chega, rodeado de uma vintena de fiéis, de quadros e do chefe do pessoal. No entanto, normalmente, esta gente não chega ao trabalho de madrugada… Ele dirige-se a mim: “proponho-vos uma negociação imediata das vossas reivindicações”. A minha resposta: “não é hora de negociação, mas de ação. O conjunto do pessoal da LIP deve decidir participar ou não na greve geral. Ver-nos-emos mais tarde”. A direcção da LIP pensava quebrar a dinâmica da entrada na luta. Para nós, no entanto, apenas interessava pôr a luta em marcha, não passando tudo o resto de manobras de diversão.

A hora era da afirmação deste coletivo de assalariados e assalariadas e de luta!

Antes de partir, Fred LIP chama-me à parte e tira do bolso uma grande pistola automática, de treze tiros, precisa… Fico atónito com esta atitude. Respondo-lhe: “ não vejo necessidade nenhuma de uma arma nesta questão”. Mais tarde, relembrei-me da atitude dos militantes da UL à porta de entrada. A lógica deles era esta: é tão difícil dar o passo, a greve, por causa do medo, que é preciso facilitar esse gesto, de não passar a porta da fábrica, tomando a decisão em seu lugar. Mas esta lógica não é emancipadora e não leva a uma ação convicta a longo prazo. Na LIP, há anos que tínhamos adoptado outra lógica.

20 de maio, 8 horas

Todos os LIP estão no restaurante: mesas livres, cadeiras arrumadas, microfones no lugar. Um delegado da CGT, e depois um da CFDT tomam a palavra, cerca de 7/8 minutos cada um. Apresentam a situação: o contexto geral que há anos se tornou insuportável, com exemplos daqui, da LIP. Os e as estudantes demonstram claramente o profundo mal-estar desta sociedade.

Nós queríamos um verdadeiro diálogo, horários que nos permitissem viver, salários decentes e não ligados a cadências infernais. Por tudo isto, é necessária uma greve geral massiva: é o que nos propõem as organizações sindicais. O que é que vocês pensam? O microfone está preparado, mas nenhuma mão se levanta para pedir a palavra. Os quadros estão lá: o medo de se fazer notar e de ficar marcado é muito forte. Tínhamos previsto esta situação. Decidimos então fazer uma interrupção de três quartos de hora da assembleia geral.

O tempo está bonito, as portas do restaurante dão para o parque, para a relva. Juntem-se por afinidades, por oficinas, por gabinetes, e discutam entre vocês”.

O sinal dado aos delegados: impedir os quadros de se infiltrarem nos debates e que se reunam, também eles, em grupos. É uma vitória: formam-se numerosos grupos e os debates são muito animados. A AG é retomada. Explicamos como se desenrolará a votação de mão levantada: sim - entrada na luta, greve ilimitada com ocupação e presença na fábrica; não - não à greve e retoma do trabalho; abstenção - não posso ou não quero pronunciar-me sobre esta greve.

Pedimos a todas e a todos que respeitem a votação; cada uma, cada um teve tempo para reflectir e debater: é por isso um voto em plena consciência. A votação tem lugar: o resultado é massivamente pelo sim, pela greve e pela ocupação. Há alguns não e algumas abstenções, mas não há assobios nem gritos.

São 11h30. Algumas delegações sindicais de fábricas de Besançon estão lá fora e veem-nos deliberar através das grandes portas envidraçadas. Informamo-los dos resultados e prevenimos os LIP: será eleito um comité de greve, e esse comité organizará a greve e a ocupação da fábrica.

A eleição do comité de greve

Cada setor da fábrica vota por um representante (sindicalizado ou não), ou até dois, de acordo com a dimensão do setor. É a escolha dos assalariados do setor que conta, o essencial é que seja alguém capaz de representar bem o setor.

Mal somos eleitos (eu entre os outros), nós (os da CFDT) propomos dar a volta à fábrica para lembrar aos raros trabalhadores e trabalhadoras que ficaram nos seus postos de trabalho que é a greve total, e que devem conformar-se.

Em seguida, deslocamo-nos para a área da direcção. Fred LIP está lá, rodeado por uma vintena de fiéis. Anunciamos-lhes os resultados da votação e acrescentamos: “vamos ocupar a empresa, e vocês podem ficar nos vossos gabinetes com a condição de nada fazerem contra a greve e a ocupação. Caso contrário, a AG está de acordo em vos expulsar da empresa”. Ficaram pálidos e não disseram uma palavra. Acrescentámos ainda: “vamos utilizar as máquinas de escrever, as fotocopiadoras e as oficinas de carpintaria… para a nossa luta”.

Não dissemos uma palavra sobre a proposta de negociação. Era preciso mostrar que a prioridade era a luta e ser firme.

De regresso ao restaurante: um espectáculo comovente. Numerosos grupos de trabalhadores e trabalhadoras em volta das mesas redigem as suas reivindicações e assinalam o que deve mudar no seu local de trabalho.

De imediato, reunião da CFDT LIP na União Local: devemos levar a nossa ajuda aos trabalhadores das outras empresas da cidade. A UL da CFDT é animada pelos “Rhodia”: é a secção mais forte e experiente de Besançon.

No quadro negro, escrevemos os nomes das empresas cujos trabalhadores pedem apoio e, diante de cada uma, o nome do ou da militante que irá lá;

Na LIP, apenas Roland Vittot e eu respondemos a este tipo de apelo.

Leio: Piaget - fábrica de relógios YEMA, terça de manhã, e fábrica SIMONIN (fábrica de amortecedores) às 14h.

Vou de bicicleta para a YEMA e chego muito antes da hora de abertura.O patrão está lá com a gerência e os trabalhadores hesitam diante da porta de entrada. O patrão apressa-os a que entrem. Gaston, um amigo do SGEN-CFDT (sindicato do ensino) também está lá: subimos a um muro e tomamos a palavra à vez para convencer os assalariados a entrar na luta. O patrão levanta a voz, nós também… Depois de alguns minutos de incerteza, a grande maioria dos trabalhadores decide-se pela greve. Reunem-se e organizam-se. Vou-me embora, sempre na bicicleta, para a fábrica SIMONIN, no outro extremo da cidade. Aí chegado, encontro os trabalhadores reunidos numa sala. Estão em greve com ocupação e precisam de ajuda para preparar e fundamentar as suas reivindicações. Peço para ver algumas folhas de pagamento para ter uma ideia dos salários, horários e bonificações… “O que são estas retenções?.. 3 francos, 4,5 francos…?”: os trabalhadores explicam-me que são multas pela danificação de material: lâmpadas, roscas, brocas… Estou siderado: as multas foram proibidas há mais de 30 anos. Vamos ter com o patrão e o seu contabilista, mostro-lhes as folhas de pagamento, as multas: “o que vocês andam a fazer foi proibido há muito tempo, e vocês não sabem?”. Estão espantados, pensavam que era legal, bla-bla-bla… Explico: “No que diz respeito às multas, terão que reembolsar cada trabalhador afetado com retroativos de um ano, é a norma. Os delegados presentes controlarão!”. No meu íntimo, pensava: mas que delegados são estes, que não sabem e não se informam? Lembro-lhes que a UL dispõe de informações jurídicas que lhes podem ser necessárias. Estabelecemos um caderno de reivindicações e vou-me embora.

Passo pela UL. Dizem-me: “rápido, Piaget, há uma urgência, vai já para a Cheval-Frères, a fábrica de rubis para a relojoaria”. Toco à campainha: ninguém responde. Abro a porta, os dois patrões estão lá, um tem uma caçadeira e aponta-ma. Levanto os braços. Ele grita: “aqui é a minha casa, não tem nada que fazer aqui”. Está visivelmente à beira de um ataque de nervos, o irmão tenta acalmá-lo. Começo a falar, com os braços no ar: “os trabalhadores da vossa empresa pediram-me para vir aqui para formalizar as reivindicações, e por isso cá estou!”. Ele acaba por se acalmar, eu junto-me aos trabalhadores, que estão ao fundo do corredor, todos estão chocados com a evolução dos acontecimentos. Depois de um momento de espanto, elaboramos o caderno de reivindicações. Antes de me ir embora digo-lhes que relatarei à UL o que se passou e peço-lhes que façam compreender ao patrão que, à próxima ameaça, voltaremos em massa à fábrica.

Refletimos sobre este acontecimento: os patrões estão armados, é grave, posse de armas e ameaças: o que é que isto significa? Concluímos: uma pessoa de um lado (o empregador), várias centenas de pessoas do outro (os assalariados), os empregadores são mais temidos do que amados! Numa situação habitual, o desequilíbrio resolve-se com um telefonema: o empregador chama o prefeito1 se se sente ameaçado, este envia a polícia, apresenta queixa à justiça… Mas, naquele momento, há milhares de empresas ocupadas, ninguém atende o telefone, e daí o pânico de alguns patrões. Os patrões mal-amados conhecem, de alguma maneira, o pânico dos ditadores quando o povo se revolta. Então, uma arma reconforta-os… um pouco!

Maio de 68: duas semanas intensas para as e os militantes

Há que assegurar: as reuniões com os trabalhadores de várias empresas; a organização da luta na empresa; as reuniões da UL; as participações nas manifestações… e muitas outras tarefas.

Na LIP, os delegados chamam-me: “vem depressa, o patrão está enfurecido por causa de uma fotocopiadora”. Quando chego lá, ele está meio deitado sobre a fotocopiadora e clama: “é o meu bem, o meu gabinete, já não sou senhor do que é meu”. Lembro-lhe o que foi definido pelo comité de greve, que temos necessidade de usar algumas máquinas, como a fotocopiadora: “Também a pode utilizar, podemos acertar horários, vocês e nós…”. Acalma-se. Na verdade, o que ele já não suportava, ele, o patrão todo-poderoso, era ver os seus trabalhadores sem a deferência habitual: os trabalhadores e as trabalhadoras que circulam e usam ‘o seu bem’ sem mostrar submissão. Era demais para ele!

Uma negociação tem lugar na LIP

Obtivemos: uma escala móvel parcial dos salários, de acordo com o custo de vida; uma séria revisão do salário mínimo da empresa, o que diz respeito aos OS (operários especializados) e, portanto, sobretudo às mulheres; o compromisso de tornar os salários mensais de acordo com a produção, logo o mesmo salário, apesar das diferenças de desempenho (havendo, no entanto, uma escala de produção a cumprir) e permitindo, assim, reduzir a corrida à produtividade.

Especifiquemos: este acordo será revisto periodicamente, segundo o acordo nacional. Este acordo não faz parar a greve, nem a ocupação, pois só o acordo nacional poderá determinar o seu fim.

Duas pequenas histórias sobre o clima da época:

- na segunda-feira, 7 de maio, Fred Lip diz-nos: “Este domingo à tarde fui passear a pé pelo bairro com a minha mulher. Está tudo calmo: não vi nenhuma revolução”. Uma maneira de nos dizer que o país está calmo e bem longe duma revolução.

- O padeiro que vem vender o pão porta a porta no meu bairro lamenta-se, e diz à minha esposa: “os trabalhadores querem sempre mais, acabei de saber que exigem uma piscina em cada fábrica, mas onde é que isto vai parar?”.

Recebemos numerosos documentos das federações CFDT. Estamos a ler um, intitulado O que é o poder operário? Como prepará-lo?. Um de nós exclama: “Mas é o que nós praticamos na LIP há tantos anos…”.

Um desapontamento

"A fábrica aberta" será apenas em 1973...
"A fábrica aberta" será apenas em 1973...

A AG vota o encerramento da fábrica a pessoas externas. Apenas os representantes sindicais da CGT e da CFDT serão admitidos. A CFDT tinha proposto a abertura às delegações de estudantes, para se informarem e tomarem conhecimento. A CGT opôs-se e venceu neste ponto. Nunca o esqueceremos, e concretizaremos enfim a abertura das portas aquando do conflito retomado em 1973.

É claro que era necessário tomar algumas precauções, mas o que preocupava a CGT era a propaganda de ideias não conformes às suas próprias.

Na LIP, por exemplo, os mecânicos convidaram os relojoeiros e empregados a virem visitar as suas oficinas e exlicar o que faziam. Os relojoeiros fizeram o mesmo. Aprendemos a conhecer-nos melhor.

É a mesma coisa com os estudantes: porquê ter medo da troca de opiniões? É evidente que sempre aparecerão sensibilidades diferentes; os operários não manejam tão bem as ideias e preocupam-se mais com o concreto, mas é sempre benéfico partilhar.

A empresa capitalista empenha-se em dividir os trabalhadores. É do seu interesse não ter que enfrentar um bloco, mas uma multiplicidade de casos isolados. Então, os trabalhadores são divididos em três grupos (três colégios): os relojoeiros, com blusas brancas, num edifício à parte; os mecânicos, com blusas azuis, noutro edifício, e o pessoal dos escritórios noutro local ainda… Todos os contratados são levados para o seu posto de trabalho, sendo proibidos de se deslocarem para os outros locais: apenas estão autorizados a ir às casas de banho e a andae nos corredores de acesso aos vestiários e ao restaurante. Podemos ter 10 ou 15 anos de antiguidade e não conhecer nada da fábrica…

Não temos de ter medo de trocar ideias com os camponeses, os estudantes, os professores, os trabalhadores de outras fábricas: isso só pode reforçar a democracia.

Os acordos de Grenelle

Mais de 35% de aumento do salário mínimo [SMIG que se transforma em SMIC]; um aumento de mais de 10% dos salários: redução do tempo de trabalho sem perda de salário; reconhecimento da secção sindical; afixação livre nos painéis sindicais reservados aos sindicatos; hora e meia paga, por trimestre, para informar todos os trabalhadores; livre divulgação de comunicados e cartazes.

Até ao Maio de 68, os painéis de anúncios na fábrica, que eram numerosos, estavam reservados à direção da empresa. Não era reconhecido nenhum direito aos representantes dos trabalhadores, nem havia a possibilidade do direito de resposta, através dos sindicatos, às notas afixadas pela direcção.

Os trabalhadores estavam proibidos de toda a expressão escrita. Podemos afirmar que, em Besançon, fomos os únicos a considerar este novo direito como o mais importante conseguido com o Maio de 68. Construimos um painel com três metros de largura e dois de altura, bem iluminado e colocado num lugar estratégico onde todos os trabalhadores passavam quatro vezes por dia…

Aí colocámos cartazes enormes, escritos em grandes carateres com marcadores de feltro colorido e textos incisivos. Estes cartazes eram mudados frequentemente, de acordo com os acontecimentos. Os trabalhadores da LIP podiam ler as mensagens em 20/30 segundos. Uma ferramenta formidável!

Havia sempre um pequeno ajuntamento diante deste painel, e numerosos comentários.

O painel estava reservado à CFDT-CGT-CGC, mas a CGC não o utilizava. A CGT estava prisioneira da obrigação que sentia de fazer rever os textos pela sua UD [união departamental].

A CFDT ocupava mais de 80% do painel.

Graças à rede muito segura que tínhamos na fábrica, as informações importantes podiam ser divulgadas, com algumas precauções. Fred Lip nunca suportou este painel. Um dia, mandou o chefe de pessoal arrancar dois cartazes. Logo que soubemos, montámos guarda diante do painel, e prevenimos a direção de que apresentaríamos queixa. O diretor do pessoal veio rapidamente repor os cartazes. Impedimo-lo, declarando: “estamos à espera que venha o agente judicial, para que constate o sucedido”. Ficámos por ali, mas Fred Lip nunca mais tocou nos cartazes!

Quando íamos ver os delegados das outras fábricas, muito poucos levavam a sério esta nova ferramenta. Pequenos painéis ridículos, cartazes em formato A4 batidos à máquina, painéis colocados longe dos locais de passagem dos trabalhadores… Apesar das nossas chamadas de atenção, não houve mudanças significativas com o passar dos anos: um utensílio formidável desperdiçado!

O regresso ao trabalho na LIP

Surpresa: várias oficinas recusam retomar o trabalho ‘como antes’, querem mudanças adequadas a cada oficina. O patrão apela à direção do trabalho, um inspetor chega e diz-nos: “devem cooperar com o vosso empregador para resolver isso. Respeitem o acordo”. Recusa da nossa parte, de ‘cooperar com o empregador’.

Inventamos “a escola autogerida de resolução de conflitos”.

Um delegado chega a uma oficina em greve: não há cadeiras, sentamo-nos todos no chão, em círculo. “O que é que se passa? O acordo não vos agrada?”. “Não é isso, retomaremos o trabalho apenas quando as mudanças acontecerem: não aceitamos mais certos comportamentos e desigualdades”.

Então vamos em frente!

Em primeiro lugar, quem toma notas?”; “Tu, o delegado”. “Não, eu não, vocês é que querem outra coisa, portanto são vocês que vão tomar conta do problema”. Um trabalhador decide-se e pega num caderno e numa esferográfica.

Primeiro problema: as classificações a serem adotadas. Atenção, sublinha o delegado, isto não está no acordo coletivo, a direção vai-se refugiar nisso… Trata-se de um problema geral de classificações, há efetivamente algumas coisas para alterar. Mas isso só poderá fazer-se ao nível do acordo coletivo.

Segundo problema: “o chefe é arrogante, faz-nos comentários depreciativos por tudo e por nada, já não o suportamos”. “Isso compete à direção, é preciso exigir que o chefe mude de comportamento, ou então que se vá embora”.

Todas as reivindicações são elaboradas desta forma e reescritas com clareza.

Então agora é preciso negociar tudo isto: quem vai negociar? “Tu, o delegado”. “Eu vou acompanhar-vos, mas serão vocês a falar e a negociar. Então, quem?”. Depois de uma consulta, são designados três trabalhadores.

Agora, passemos em revista algumas questões prévias às negociações:

- prepararem-se moralmente. Não se deixar impressionar. Vão encontrar o diretor do pessoal e o patrão. São homens que jogam às pessoas importantes, que não se incomodam com ninharias ou reclamações insensatas… O patrão tem um gabinete enorme, cinco telefones de cores diferentes, em arco diante dele…

- Concentrarem-se no que têm no coração. É preciso falar alto e forte, mostrar determinação. Não estamos lá para tratar de questões menores. Repitam várias vezes que não continuarão a suportar esse tipo de comportamento. Atenção a não deixarem ficar por ambiguidades, antes de passar ao ponto seguinte o anterior tem que estar esclarecido.

- É preciso que haja respostas concretas.

- Ao sair, falem entre vocês para ter a certeza de que todos compreenderam a mesma coisa. Em seguida, reportem aos vossos colegas e depois reflitam juntos para decidir se ficam por aí, ou se continuam a greve.

Estão prontos, então vamos lá!

Houve seis ou oito casos deste género. Esta escola faz parte de todos os passos dados em direcção à emancipação e à luta democrática.

As repercussões do Maio de 68 na LIP

A LIP hoje, greve ativa autogestionada. Amanhã a revolução e a autogestão socialista
A LIP hoje, greve ativa autogestionada. Amanhã a revolução e a autogestão socialista

Em duas semanas, demos um enorme passo em frente. Não teria havido a LIP de 73 sem o Maio de 68! Mudámos as relações entre trabalhadores, passámos do ‘entre trabalhadores’ para o ‘entre combatentes’. Fraternidade, igualdade, atores e atrizes, e não seguidistas: cada um e cada uma deve sentir-se necessário para vencer.

Passámos de ser ‘um pião perdido entre milhares de operários’ a nomes e apelidos: saudamo-nos, fazemos gestos uns para os outros, já não éramos uma multidão anónima, conhecíamo-nos.

Tudo isto será multiplicado por 100 entre Maio de 68 e o conflito de 1973, passando pelas lutas de 1969, 1970 e 1971.

Passar das luzes de Maio de 68 ao cinzentismo do regresso é duro!

É difícil a concentração sobre o trabalho de mecânico com a cabeça cheia das imagens do Maio de 68!

Uma mulher ao serviço dos ‘esboços’, conhecida na oficina pela sua loucura pelo trabalho, com os seus recordes de 14.000 peças por dia, e que criticava o operador por não reparar a sua máquina suficientemente depressa e a fazia perder tempo… essa mulher, depois de Maio de 68, dizia às colegas: “eu estava louca, embrutecida pelo trabalho; isso acabou depois do que vivi”.

Pessoalmente, sempre gostei deste trabalho de fabrico de ferramentas aperfeiçoadas. Tenho a sorte de fazer um trabalho cativante. E, no entanto, não conseguia concentrar-me, o meu espírito estava noutro lugar. Vai demorar tempo até voltar a integrar o meu trabalho de chefe de oficina…

E depois, temos mais ou menos um sentimento de inacabado: porque parámos? O poder capitalista, logo desumano, continua lá. Mas o clima mudou: entre nós saudamo-nos, fazemos gestos, reconhecemo-nos.

O pós 68 sindical

Intervimos contra a divisão do trabalho, excessiva em demasia.

Na linha de montagem dos relógios: uma operária coloca a agulha das horas, no posto seguinte uma outra põe a dos minutos, e uma terceira a dos segundos. O ser humano tem, no entanto, a vocações de ser produtor de parte inteira: esta divisão do trabalho faz dele um robot. Trata-se da amputação do ser humano: ao longo dos anos, a pessoa transforma-se num robot. Devemos lembrar que há limites que não podem ser ultrapassados. É necessário compensar esta perda do ‘ser’ produtor por mais informação sobre o produto, as suas diversas fases até à comercialização. É preciso igualmente dispor as linhas de maneira a que os operários se vejam, possam trocar algumas palavras, alguns olhares. É preciso rodar pelos diferentes postos de trabalho. É preciso abrir o espírito de outra maneira, já que ele é diminuído durante o processo de produção. Cada uma, cada um deve sem cessar visualizar o lugar que ocupa no processo global de produção.

Pedimos às operárias da cadeia de montagem que apresentem propostas de recomposição das tarefas. A resposta delas: “Se pudéssemos montar duas agulhas em vez de uma só, já seria bom”. É a constatação de que este trabalho decomposto acaba por convencer os assalariados a limitar as suas ambições. Propomos-lhes fazerem o mostrador e as três agulhas como a primeira pequena recomposição das suas tarefas.

Salário à peça, salário por desempenho: conseguimos que o salário mensal seja fixo. A condição: que o assalariado mantenha a sua produção num intervalo de rendimento suficientemente largo, o que contribuirá para limitar esta corrida a cada vez mais produtividade.

O Maio de 68 foi um multiplicador do empenhamento, da reflexão e da solidariedade. Mas também uma frustração: o sistema permanece, com a exploração, as desigualdades, as injustiças.

Na União Local da CFDT, o Maio de 68 tornou-nos mais solidários e audaciosos na luta. Numerosos conflitos tiveram lugar e organizámos coletivamente um apoio eficaz a essas lutas.

O exemplo de Janeiro de 1972: uma associação, “Les Salins de Bregille”, cujo conselho de administração é presidido pelo presidente da CNPF (o patronato), tem como diretor um amigo deste. Uma trintena de trabalhadoras ocupam-se de crianças portadoras de diversas deficiências. Este diretor impõe sem cessar novas tarefas, não admite nenhuma observação e é muito arrogante. A criação de uma secção da CFDT enfurece-o, e multiplica as sanções. Elas querem começar uma greve contra o diretor e as sanções tomadas contra elas. A UL da CFDT confia ao grupo LIP o acompanhamento da preparação da greve. Todas as futuras disposições democráticas da luta dos LIP em 1973 estão já em ação nesta luta: um comité de apoio muito sólido, a independência total das trabalhadoras relativamente às ideias e ações propostas pelo comité de apoio. Elas refletem sozinhas e aceitam ou não as propostas: é o seu conflito, a sua responsabilidade. Seis meses de luta intensa e a vitória no final: que iniciativas, que reuniões, que manifestações para vergar o conselho de administração. Que presença, noite e dia, para a ocupação dos locais. A coragem, a perseverança destas trabalhadoras deixaram-nos muito impressionados.

Oito meses depois, era a luta da LIP 1973!

Artigo de Charles Piaget*, publicado em lesutopiques.org. Introdução e tradução para espanhol de Viento Sur.


Notas:

Tradução para português de Manuela Barreto Nunes para o esquerda.net

1 Em França, chefe de departamento ou de região (ver wikipedia).

* Em Maio de 68, Charles Piaget era um dos responsáveis pela CFDT na fábrica de relógios LIP, em Besançon; será também particularmente ativo aquando do conflito social da empresa nos anos 1970. Reformado, continua empenhado nas lutas sociais em Besançon, particularmente junto dos movimentos de desempregados e desempregadas.

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