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Moçambique: Dezenas de pessoas continuam desaparecidas após ataque a Palma

O Guardian descreve “um cerco brutal de dias de duração e emboscadas mortais contra os fugitivos”. O ataque contra a cidade, localizada perto do campo de gás da empresa de energia francesa Total, foi reivindicado pelo Daesh. Portugal vai enviar 60 militares para Moçambique.
Transporte de deslocados. Cabo Delgado, julho de 2020. Foto de RICARDO FRANCO, EPA/Lusa.

Na passada quarta-feira, a cidade moçambicana de Palma, perto da fronteira com a Tanzânia, foi alvo de um ataque, reivindicado esta segunda-feira pelo Daesh, que matou e feriu dezenas de pessoas. O Guardian traça um relato dos acontecimentos desde o eclodir dos tiros, pelas 16h da passada quarta-feira, e domingo, altura em que uma flotilha de barcos resgatou centenas de pessoas, incluindo muitos trabalhadores estrangeiros, nas praias de Palma.

A cidade, localizada perto do campo de gás de Afungi, administrado pela empresa de energia francesa Total, enfrentou “um cerco brutal de dias de duração e emboscadas mortais contra os fugitivos”. Sobreviventes do ataque descreveram ter de se esconder, “enquanto esperavam para serem resgatados de barco”, numa cidade “onde corpos sem cabeça foram deixados caídos na estrada”.

Fontes de segurança citadas pelo Guardian afirmaram que os insurgentes se infiltraram no perímetro da cidade antes do ataque e esconderam armas na zona. A infraestrutura do governo na cidade foi atacada de maneira sistemática, com a esquadra da polícia local e a base militar invadidas e destruídas. Dois bancos foram invadidos.

Lionel Dyck, fundador da empresa de segurança privada sul-africana Dyck Advisory Group (DAG), que trabalha há cerca de um ano para a polícia e o Ministério do Interior moçambicanos no combate aos terroristas, criticou, em declarações à BBC, a falta de um plano de evacuação adequado para a cidade. Dyck fez referência à ausência de militares moçambicanos e a recusa da Total em fornecer às tripulações do helicóptero o combustível de que necessitava. Recentemente, a DAG foi acusada num relatório da Amnistia Internacional de matar civis. A empresa negou a acusação.

O ataque a Palma terá sido promovido por dois grupos, um vindo das regiões do norte de Cabo Delgado e outro oriundo da Tanzânia, num total de mais de 200 homens. Na primeira noite, os atacantes invadiram casa a casa, matando alvos específicos. Na quinta-feira, o hotel Amarula Lodge, que alberga trabalhadores estrangeiros, estava sitiado e sob ataque de morteiros e metralhadoras. Alguns dos hóspedes foram retirados pelos helicópteros do DAG, que tiveram de se retirar à noite, com pouco combustível e munição e incapazes de operar na escuridão. Muitos dos que permaneceram no hotel tentaram fugir a pé ou utilizando, para esse efeito, 17 veículos com tração nas quatro rodas. Após terem sido alvo de emboscadas, só sete veículos escaparam do cerco. E desses sete carros, sete pessoas foram mortas e várias outras ficaram feridas.

Apenas no domingo, quando as forças moçambicanas pareciam estar a ganhar o controlo da cidade novamente e os atacantes se retiraram para o mato, os barcos de resgate fretados pela Total resgataram centenas de sobreviventes, enquanto os helicópteros do DAG procuravam por dezenas de pessoas que tentaram fugir do hotel. A atenção está agora concentrada nos desaparecidos que podem ainda estar vivos e escondidos no mato.

Em comunicado, o Daesh afirmou que, durante o ataque, foram mortos mais de 55 membros das forças de segurança locais e cristãos. O número total de mortos no ataque não é claro e as informações sobre a situação permaneceram vagas. Ainda assim, as autoridades em Moçambique confirmaram a morte de sete pessoas e várias testemunhas relataram estradas e praias repletas de cadáveres.

Esta segunda-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português confirmou ao Expresso que vai enviar cerca de 60 militares para reforçar a ajuda na formação das forças especiais moçambicanas.

De acordo com a ONU, a violência dos últimos três anos na província de Cabo Delgado já resultou na morte de mais de 2.600 pessoas e em cerca de 670.000 deslocados.

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