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“Temos uma visão bastante incompleta do que está a acontecer em Cabo Delgado”

Em entrevista ao Esquerda.net, Eric Morier-Genoud, professor da Universidade de Queen’s Belfast, alerta que a situação humanitária é “grave e complexa, agravada por um surto de cólera e de Covid-19”, e “arrisca agravar-se mais”. Há ainda “receio de que haja uma expansão da guerra” para outras províncias. Por Mariana Carneiro.
Deslocados da violência armada em Cabo Delgado reunidos no campo de deslocados de Manono, Metuge, Moçambique 22 de julho de 2020. Foto de Ricardo Franco, Lusa.

Eric Morier-Genoud é autor do livro Catholicism and the Making of Politics in Central Mozambique, 1940 – 1986. Nos últimos anos, o professor da Universidade de Belfast tem-se dedicado a investigar a insurgência jihadista em Cabo Delgado, Moçambique. No ano passado, publicou o artigo “The jihadi insurgency in Mozambique: origins, nature and beginning” no Journal of Eastern African Studies.

Em entrevista ao Esquerda.net, Eric Morier-Genoud alerta que a situação humanitária é “grave e complexa, agravada por um surto de cólera e de Covid-19”, e “arrisca agravar-se mais”. Há ainda “receio de que haja uma expansão da guerra” para outras províncias, acrescenta.

A situação em Cabo Delgado permanece por controlar. Na semana passada, a empresa francesa Total, face a novos episódios de violência nas imediações, evacuou parte dos cerca de três mil trabalhadores de Afungi. O que é que já se sabe sobre os ataques que têm vindo a assolar esta província desde 2017? Quais são as suas motivações?

Os insurgentes chamam-se “Al Shabaab” e são afiliados desde 2019 ao Estado Islâmico. Eles rejeitam a sociedade secular existente e querem estabelecer uma sociedade regida pela lei islâmica, a sharia. Mais, querem estabelecer um califado; o Estado Islâmico fala de Moçambique e Congo constituírem uma província (Wilayat) do ISIS (Daesh) na África central. Mas os insurgentes também falam de um califado swahili por estabelecer na África de leste – Moçambique, Tanzânia, Quénia.

Quem são os insurgentes e de que forma, e onde, têm sido recrutados?

Os insurgentes tem origem numa seita religiosa que teve início no fim dos anos 2000. Retiraram-se da sociedade para viver no mundo deles, sob o reino da sharia. A seita cresceu em toda a província de Cabo Delgado, mas foi reprimida e radicalizou-se. Por volta de 2015 ou 2016, os líderes decidiram passar a um projeto de “jihadismo armado”, isto é: entrar em guerra para mudar a sociedade afim de estabelecer um regime de sharia. Os lideres da insurgência são os lideres da seita religiosa, principalmente Moçambicanos com alguns Tanzanianos. Inicialmente, o recrutamento era principalmente local, seja à força ou de forma voluntária. Mas, desde 2019, parece haver cada vez mais recrutamento de outras províncias do pais e de fora do pais. Há quem estime que existem atualmente entre 2.000 e 3.000 combatentes, com cada vez mais estrangeiros.

A população de Cabo Delgado está a ser alvo de ataques frequentes e o número de deslocados adensa-se. Acresce que a província regista agora um surto de cólera, o que agudiza ainda mais a crise humanitária. Pode descrever-nos a situação no terreno?

Os insurgentes estão ativos na metade costeira da província de Cabo Delgado, num território de cerca de 40.000 quilómetros quadrados. A guerra já causou meio milhão de deslocados e levou ao abandono da agricultura e da pesca em muitas partes. O que resulta numa situação humanitária grave e complexa, agravada por um surto de cólera e de Covid-19. O governo estabeleceu campos de deslocados em Cabo Delgado e nas províncias vizinhas. Organizações humanitárias, a igreja católica e organizações de solidariedade islâmicas oferecem comida e bens de primeira necessidade. Mas faltam meios, mesmo para as organizações das Nações Unidas. A situação é grave, e arrisca agravar-se mais. 

As atenções têm estado viradas para Cabo Delgado, mas este é também um problema da província de Nampula. Pode explicar-nos porquê?

Primeiro, há campos de deslocados que foram abertos na província de Nampula assim como no Niassa e na Zambézia. Portanto, a guerra já está a afetar todas estas províncias. Segundo, foram descobertas células de insurgentes nas províncias de Nampula e de Niassa. E, por isso, existe receio de que haja uma expansão da guerra para estas províncias. O comandante provincial da polícia de Niassa falou publicamente, há poucos dias, sobre a sua preocupação no que respeita ao possível alastramento da insurgência para a sua província vizinha de Cabo Delgado.

Tem sido possível garantir uma cobertura jornalística série a profunda sobre os acontecimentos?

A cobertura jornalística dos acontecimentos em Cabo Delgado está a ser extremamente difícil. Há riscos resultantes do conflito armado. Depois, não há comunicação com jornalistas por parte dos insurgentes, e o governo não facilita, quando não tenta impedir, o trabalho dos jornalistas no terreno. Significa que temos uma visão bastante incompleta do que está a acontecer e os jornalistas estão a correr riscos enormes para conseguir um mínimo de informação.

Qual tem sido a atuação do governo moçambicano para controlar a situação no Norte do país? E, na sua opinião, que outras medidas deveriam ser tomadas?

O governo moçambicano fez grande esforços para controlar a situação militar em Cabo Delgado. Os comandantes das Forças de Defesa e Segurança dizem que, graças à atuação das suas tropas, a insurgência não se expandiu além da província de Cabo Delgado. Há, no entanto, quem critique a insuficiência das medidas, e defenda que o governo precisa de lidar com a insurgência na sua dimensão social e política também. Em resposta, o governo moçambicano criou, em meados de 2019, uma Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN). Vamos ver quais são os próximos passos.

Pergunto-lhe ainda qual tem sido, e qual poderá ser, o papel da comunidade internacional?

A comunidade internacional está muito preocupada com a situação no norte de Moçambique. Por um lado, porque o jihadismo armado está a estabelecer-se na África austral pela primeira vez, e receia-se que possa expandir-se para outros países da região – já houve, inclusive, incursões na Tanzânia. Por outro lado, os ataques estão a pôr em perigo o desenvolvimento industrial das enormes reservas de gás na região, onde todos os “gigantes” da indústria estão presentes. Daqui resulta muita pressão para uma intervenção regional (através da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral - em inglês, Southern Africa Development Community, SADC)) ou internacional (de um país, de um outro, da UE ou da ONU). Presentemente, parece que, se houver, será através da SADC (provavelmente com apoio financeiro e logístico internacional). A SADC devia ter um encontro extraordinário sobre esta questão na próxima semana em Maputo, mas a situação da Covid levou a um adiamento sine die

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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