O mistério do número de alunos sem professor continua a assombrar o Governo, que chega às eleições sem conseguir responder a uma questão simples: quantos alunos estiveram sem pelo menos um professor no início do 1º e do 2º período letivo? Depois de em novembro ter anunciado com pompa números que mostravam uma diminuição de 89% no número de alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina desde o início do ano letivo, o ministro Fernando Alexandre foi de imediato desmentido pela oposição. Dias mais tarde reconheceu ter-se baseado em números que não permitiam tirar aquela conclusão.
Para tentar acabar com as dúvidas, Fernando Alexandre prometeu uma auditoria externa para conseguir saber o número exato de alunos sem aulas, com resultados entregues em março. O prazo foi adiado para abril, alegando atrasos na contratação dos serviços, e depois novamente adiado para maio.
Segundo noticia o jornal Público esta quarta-feira, a auditoria foi encomendada por 52.750 euros à KPMG para revalidar os dados dos alunos no anterior e no atual ano letivo, assegurando a exatidão dos números a divulgar. Um dos objetivos, dizia o caderno de encargos, era “assegurar a transparência, o rigor e a eficácia” do processo.
Vários meses depois e com dezenas de milhares de euros já gastos com a auditora, o ministro da Educação diz agora à TSF que afinal “não sabemos se vamos ficar a saber” quantos alunos estiveram ou ainda estão sem professor. Em seguida, Fernando Alexandre é mais conclusivo: “Penso que não, a informação que nós temos é que não é possível contabilizar esse número de uma forma rigorosa.” A culpa, aponta o ministro em gestão e candidato da AD, é do “sistema de informação que tem muitas debilidades”.
Fenprof diz que Governo não tem interesse em divulgar números que mostram falhanço das medidas
Culpas que os professores dizem não aceitar. Para Mário Nogueira, prestes a deixar a liderança da Fenprof, se o Governo quisesse saber quantos alunos estão sem professor, "em 15 dias tinham esse levantamento”, dado que “qualquer coisa que respire dentro de uma escola é controlado por uma plataforma. Criavam com as escolas, contactavam e tinham essa informação", afirmou à TSF.
O sindicalista prefere atribuir as declarações evasivas do ministro à proximidade das eleições, pois entende que “não interessará ao Governo, muito menos ao ministro da Educação, vir confirmar que as medidas que foi tomando ao longo deste ano letivo foram absolutamente incapazes de dar a resposta necessária para resolver este problema”. A Fenprof estima que haja cerca de 30 mil alunos a quem falta pelo menos um professor.
Também Cristina Mota, da Missão Escola Pública, relaciona a falta de resultados com o momento eleitoral, prevendo que os números reais "mostrar que as medidas implementadas pelo atual Ministério da Educação não estão a surtir efeito", podendo, assim, "condicionar as eleições". E insiste que ao contrário do que diz Fernando Alexandre, as escolas dispõem de informação que permite extrair os dados necessários a fazer contas aos alunos sem professor. "Ao pedir os horários a cada escola, não só indica o professor que tem a falta, como também indica o número de alunos que comporta cada um dos horários", explica. Pelas contas deste coletivo, haverá cerca de 20 mil alunos sem pelo menos um professor.
Opinião diferente tem Filinto Lima, o presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas. Diz que não há plataformas para tratar estes dados e que é preciso recorrer “ao papel e à esferográfica, às contas e à matemática, para responder a estas questões. O que dá um trabalho imenso a cada uma das escolas”.
"É preciso investir mais nos recursos do digital ao nível do Ministério da Educação, para que possamos saber quantos alunos não têm aulas, durante quanto tempo e a que disciplinas. Neste momento, a auditoria, pelo que parece, não vai conseguir responder à pergunta que fazemos desde o ano passado", aponta Filinto Lima.