Tiago Baptista acordou às seis horas da manhã para estar na concentração da greve dos médicos convocada pela Federação Nacional de Médicos. O médico de família, que viajou a Lisboa desde Viana do Castelo, ouvia as intervenções dos dirigentes sindicais abrigado da chuva que a meio da concentração apanhou de surpresa as centenas de trabalhadores.
O que o preocupa, e o fez acordar tão cedo e percorrer centenas de quilómetros para estar presente nesta concentração, é o estado da Saúde. “É calamitoso”, lamenta Tiago. “Com este governo a situação está pior e abre-se um caminho para a destruição inequívoca e total do Serviço Nacional de Saúde”.
A causa dessa destruição é, na sua opinião, uma “privatização selvagem” do setor da saúde, e isso nota-se na situação dos médicos. “É paralela à situação dos enfermeiros, paralela à situação dos técnicos auxiliares de diagnóstico, dos assistentes operacionais e dos secretários clínicos. É que o desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde (SNS) passa maioritariamente pelo desinvestimento das carreiras profissionais”.
Também entre as centenas de pessoas que se juntaram à chuva, está Aires Rodrigues, membro da Comissão de Utentes da Marinha Grande. O dirigente dessa comissão foi convidado pela FNAM a vir a Lisboa falar sobre a situação dos utentes do Serviço Nacional de Saúde face aos problemas que se têm sentido nos últimos meses.
“Esta ministra representa, com este governo, uma tentativa de desmantelar e privatizar, procurando destruir uma das principais conquistas da revolução portuguesa”, comentou. “Pensamos que as mobilizações dos profissionais de saúde e dos utentes conseguirão impedir esse processo”
Sara Proença criticou também a posição da ministra da Saúde. Segundo a dirigente da FNAM, “todas as medidas da ministra vão no sentido oposto àquilo que é a preservação do SNS e a melhoria dos cuidados de saúde”.
Sara sublinha que a ministra “não consegue conversar com os médicos” e que para manter o SNS “é preciso haver médicos motivados”. “Acho que esta ministra, o seu plano futuro será mesmo acabar com o SNS e fazer com que o serviço se baseie nos privados”, comenta, concluindo que “é tudo um caminho descendente nos cuidados de saúde quando se comemora os 45 anos do SNS”.
A coordenadora do Bloco de Esquerda, que esteve presente na concentração e escutou as intervenções, concorda com essa ideia. Em declarações aos jornalistas, Mariana Mortágua defendeu que “os médicos sabem melhor do que ninguém o que está em causa no Serviço Nacional de Saúde”, sublinhando que “há uma escolha política: está-se a pagar para criar um negócio privado, mais uma área de negócio para servir interesses privados da saúde”, em vez de usar esse dinheiro para “dar aos médicos e aos profissionais de saúde aquilo de que necessitam”.
Sobre as medidas defendidas pela ministra Ana Paula Martins, a dirigente bloquista disse que “os médicos não querem mais suplementos a horas extraordinárias”, mas sim “ter carreiras, condições de trabalho, tempo de descanso”.
Primeiro dia de greve dos médicos e enfermeiros com forte adesão
Ao início da tarde, a presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) disse aos jornalistas que os números preliminares da adesão apontavam para dois terços dos médicos em greve, com vários blocos operatórios encerrados e a funcionarem apenas para as situações de urgências. Uma adesão que não surpreende a sindicalista, tendo em conta "o descontentamento dos médicos".
Joana Bordalo e Sá destacou a "uma forte adesão dos internos, que prestam trabalho, sobretudo, a nível das enfermarias", o que também demonstra "a situação de mais fragilidade" em que se encontram, "com mesmo muito, muito, muito trabalho". Estes médicos representam um terço do total de médicos no SNS.
A federação sindical reconhece que os constrangimentos se traduzem num transtorno para os utentes e afirma que “verdadeiros responsáveis são o Ministério da Saúde e Ana Paula Martins, que nada fez para travar esta situação”.
Nesta paralisação que prossegue na quarta-feira, os médicos exigem a reposição do período normal de trabalho semanal de 35 horas e a atualização da grelha salarial, a integração dos médicos internos na categoria de ingresso na carreira médica e a reposição dos 25 dias úteis de férias por ano e de cinco dias suplementares de férias se gozadas fora da época alta.
O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) convocou também uma greve nacional para terça e quarta-feira e ao final da manhã estimava uma adesão entre os 60% e os 70%. Uma adesão que também traduz o descontentamento da classe, “apesar de haver alguns enfermeiros com algumas dúvidas decorrentes daquilo que foi a manobra de diversão montada ontem [segunda-feira] à noite pelo Ministério da Saúde e alguns sindicatos de enfermagem”, criticou José Carlos Martins. O líder do SEP refere-se ao acordo subscrito pela ministra e cinco sindicatos.
“O Ministério da Saúde deve um monte de dinheiro aos enfermeiros, relativamente aos retroativos entre 2018 e 2022 e com esse dinheiro não pago, está agora a fazer uma pseudovalorização da grelha salarial”, criticou o sindicalista, acrescentando que as reivindicações do SEP passam ainda, além dos salários, pela compensação do risco, o trabalho por turnos ou a transição dos enfermeiros especialistas. O sindicato continuará a negociar com o Governo e considera essencial a existência de medidas que retenham os jovens na profissão em Portugal.