Mariana Mortágua: “Solução de estabilidade é uma maioria à esquerda”

24 de fevereiro 2024 - 0:21

Debate televisivo com líderes dos oito partidos com assento parlamentar abordou o cenário pós eleições e pôs em cima da mesa temas como a Justiça, Saúde, economia e fiscalidade. Mariana Mortágua afirmou que direita propõe baixar IRC “para concentrar riqueza, e não para produzir mais riqueza”.

PARTILHAR
Debate televisivo transmitido pela RTP 1, com os líderes dos oito partidos com assento parlamentar.

O início do debate televisivo transmitido pela RTP 1, com os líderes dos oito partidos com assento parlamentar, ficou marcado pelo protesto de ativistas climáticos.

Já na primeira parte do debate, esteve em cima da mesa o cenário pós eleições e os possíveis acordos à esquerda ou à direita.

PS e PSD trocaram acusações sobre a “confusão” das suas posições caso estes partidos não alcancem a maioria absoluta, com Pedro Nuno Santos a reiterar que não inviabilizaria um governo do PSD, e Luís Montenegro a manter o “tabu” sobre como proceder perante um governo do PS. Já André Ventura frisou que “não haverá nenhuma maioria à direita sem o Chega”, e criticou Montenegro por este não assumir que lhe estenderá a mão num cenário pós-eleitoral. Até porque, segundo avançou, o PSD foi em tempos a sua casa, e foi-lhe dada a garantia de que “o PSD governará à direita”.

Para Mariana Mortágua, não há qualquer dúvida: a “solução de estabilidade é a maioria à esquerda”, o que não passa, de forma alguma, por “repetir os erros da maioria absoluta”.

É uma maioria à esquerda, para a construção da qual Paulo Raimundo, do Partido Comunista, e Rui Tavares, do Livre, também se comprometeram, que poderá, segundo defendeu a coordenadora bloquista, “responder aos principais problemas do país”, nomeadamente permitindo baixar os preços das casas, manter os hospitais com portas abertas, ter professores para todos os alunos.

A maioria à esquerda é, acrescentou Mariana Mortágua, a governação de que o país "guarda melhor memória”.

Recurso a offshores condiciona trabalho da Justiça

Luís Montenegro esteve debaixo dos holofotes no que respeita ao debate sobre a justiça, com Pedro Nuno Santos a acusá-lo de ter dois pesos e duas medidas para avaliar os casos de António Costa e Miguel Albuquerque. Mas as críticas ao líder do PSD também vieram da direita, seja de Rui Rocha como de André Ventura.

Procurando quebrar o afunilamento da discussão a apenas estes dois casos, Mariana Mortágua afirmou que a Justiça, e o seu tempo, “devem ser sempre respeitados”, assinalando, por outro lado, que é importante que a Justiça explique “ao povo as suas diligências quando elas têm impacto na vida democrática”.

A líder bloquista fez referência à morosidade da Justiça, também no tempo que decorre entre a investigação e a acusação, apontando que, nos crimes económicos, especificamente, é importante celeridade, até para manter a “credibilidade” das instituições.

Mariana Mortágua mencionou a questão dos offshores, que dificultam o trabalho da justiça, dificultam as condenações, e criam um “regime de impunidade”. A esse respeito, lembrou as fraudes na Zona Franca da Madeira, e enfatizou que a lei portuguesa pode ter determinações sobre o acesso a offshores.

A coordenadora bloquista levantou ainda a questão do acesso à justiça, condicionado pelas custas judiciais, bem como da necessidade de reforçar os recursos e meios existentes, matérias que também foram abordadas por Paulo Raimundo e Inês Sousa Real.

Saúde: Direita quer tirar ao SNS para dar ao privado

A resposta aos problemas da Saúde abriu uma clivagem intransponível entre os partidos da direita e da esquerda, com os primeiros a defender, nas palavras de Luís Montenegro, “uma política mais amiga do setor privado”, para o qual pretendem mobilizar os recursos do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Mariana Mortágua e Paulo Raimundo convergiram inequivocamente na necessidade de valorizar salários e carreiras por forma a captar e fixar profissionais. Necessidade esta que também foi assumida por Pedro Nuno Santos, apesar de o seu partido ter sido, até aqui, intransigente na negociação com as estruturas sindicais, dificultando uma solução que responda às necessidades do país e que permita salvar o SNS.

A coordenadora do Bloco lembrou que, na apresentação do programa da Iniciativa Liberal, esteve presente alguém que lidera um dos maiores grupos de saúde privados, e que assinalou que “a saúde é um dos maiores negócios do século XXI”. Mariana Mortágua confrontou Rui Rocha com a proposta deste partido, que quer pegar no “dinheiro dos contribuintes” e dá-lo aos privados, para que estes venham buscar médicos ao SNS e agravem ainda mais o problema do acesso à saúde em Portugal.

A líder bloquista avançou ainda que a população quer ser atendida no SNS, e que o facto de 80% dos cheques de cirurgia ficar por utilizar prova isso mesmo.

Mariana Mortágua assinalou a importância de assegurar a autonomia dos hospitais para contratar profissionais, e garantir recursos para dar condições de trabalho no SNS e alargar valências, nomeadamente ao nível da saúde mental e oral.

Baixar IRC serve “para concentrar riqueza, e não para produzir mais riqueza”

Com Luís Montenegro a voltar a fazer o apanágio da descida do IRC, a coordenadora do Bloco afirmou que existe “o logro nesta campanha de que só a direita sabe fazer crescer a economia”.

Mariana Mortágua explicou que a redução do IRC “privilegia poucas empresas, entre as quais a banca, a Galp, a EDP e a grande distribuição”.

A líder bloquista apontou que, desde o 25 de Abril até à crise financeira, o IRC desceu 15 pontos percentuais, sendo que as únicas atividades que cresceram foram o imobiliário, turismo e finanças, setores que se baseiam em “baixos salários, pouco valor acrescentado, pouca produtividade”.

Segundo Mariana Mortágua, a economia portuguesa é a prova de que não é verdade que a descida do IRC faz crescer a economia. A dirigente do Bloco apontou que a direita propõe baixar o IRC “para concentrar riqueza, e não para produzir mais riqueza”.

“Querem saber como mantêm os jovens em Portugal? Experimentem uma casa que os jovens possam pagar”, realçou Mariana Mortágua.

A coordenadora bloquista afirmou ainda que produz-se mais riqueza com economia de valor acrescentado, com transição digital, com transição energética, recuperação de transportes, investigação de ponta na saúde, com investimento no setor cultural, que é “fundamental para a economia e a democracia do país”.