Mamadou Ba condenado a multa por difamar neonazi Mário Machado

20 de outubro 2023 - 14:21

Ativista antirracista lamenta que o Estado tenha capitulado e que a justiça branqueie um nazi. SOS Racismo denuncia perseguição política de que Mamadou tem sido alvo e, através dele, o próprio antirracismo. Mariana Mortágua considera a sentença incompreensível.

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Mamadou Ba. Fotografia de José Manuel Teixeira.

Esta sexta-feira, pelas 11h, foi lida a sentença de Mamadou Ba, acusado de difamação e calúnia por Mário Machado por ter publicado uma frase em que se refere ao neonazi como uma das figuras principais do assassinato de Alcindo Monteiro. O ativista antirracista foi condenado a uma multa de 2400 euros.

Numa publicação nas redes sociais, Mamadou Ba reitera que “dizer que Mário Machado é uma das figuras principais do assassinato de Alcindo Monteiro é simplesmente a forma mais benigna de descrever como ele se destacou na noite de ‘caça ao preto’ pela violência com que agrediu as suas vítimas com um taco de basebol, na cabeça, até as deixar inanimadas, como aliás refere o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça”.

O ativista antirracista enfatiza que “o Ministério Público optou por estar ao lado de um triplo empreendimento de caráter político que consiste em branquear um criminoso neonazi, normalizar a extrema-direita e a violência racial e silenciar o anti-racismo”.

Sublinhando que Mário Machado “conseguiu transformar a instituição judicial num instrumento de combate político da extrema-direita contra o movimento anti-racista”, Mamadou Ba levanta preocupações sobre o precedente aberto: “Esperamos e lutaremos para que outros processos em curso nos tribunais, como o de Cláudia Simões, não tenham o mesmo desfecho”, escreve.

O dirigente do SOS Racismo garante não ceder perante o fascismo e o racismo: “Da nossa parte, mantemos tudo que dissemos e continuaremos a luta por todos os meios até as últimas consequências. Devemo-lo fazer por imperativo de consciência democrática que não nos permite ceder um milímetro que seja perante o fascismo e o racismo, mas também por dever de humanidade: salvaguardar a memoria das vítimas do racismo é a única forma de enfrentar a desumanidade da violência racial”.

SOS Racismo denuncia perseguição política

Perante “a decisão do tribunal em acompanhar a vontade de um confesso neonazi”, o Movimento SOS Racismo reiterou, em comunicado, a sua solidariedade com Mamadou Ba e denunciou “a perseguição política de que tem sido alvo e, através dele, o próprio antirracismo”.

O SOS Racismo recusa ainda “os intentos, manifestos ou ocultos, de equiparar o antirracismo ao racismo, o que não passa de um estratagema de banalizar e normalizar o racismo” e pugna pela defesa de “uma justiça impermeável a este tipo de cumplicidade e que se comprometa antes em combater o Racismo Estrutural que afeta as instituições que regem a vida das pessoas e com quem elas têm de lidar diariamente para fazer valer os seus direitos”.

O movimento antirracista lamenta ainda “a manipulação pelos meios de comunicação, no tratamento deste e de outros casos, com efeitos de lavagem da imagem do Racismo e da Extrema Direita, e dos seus atores mais reconhecidos”.

Uma sentença "incompreensível"

Na sua conta de X, anterior Twitter, Mariana Mortágua lembra que “Mário Machado, um neonazi condenado, fez parte do grupo que espalhou o terror na noite em que mataram Alcindo Monteiro”.

A coordenadora do Bloco considera incompreensível que agora Mamadou Ba “seja condenado por constatar este facto”. “Espero que em em segunda instância se anule esta decisão”, frisa.

Iniciativas de solidariedade com Mamadou Ba

O Campus da Justiça ED. B - Parque das Nações, em Lisboa, o Passeio das Virtudes, no Porto, e o Tribunal de Viseu foram palco de ações de solidariedade com Mamadou Ba e de repúdio do racismo e do neonazismo.

“Fascismo, racismo não passarão”, “Justiça para Mamadou Ba”, “Acusam um, respondemos todes”, “Verdade não é difamação”, “O antirracismo nunca matou ninguém. O racismo mata todos os dias”, “Alcindo Monteiro presente” foram algumas das palavras de ordem mobilizadas durante estas iniciativas.

Iniciativa no Porto:

Fotos de Nuno Silva.

Iniciativa em Viseu:

Fotos de Tiago Resende.

Foto de Mariana Carneiro.