Mamadou Ba: Ministério Público “capitulou face a manipulação da extrema-direita”

20 de setembro 2023 - 18:49

O MP defendeu a aplicação de uma multa ao dirigente anti-racista por este ter escrito que Mário Machado foi uma das principais figuras do assassinato de Alcindo Monteiro. Mamadou Ba diz que não retira o que disse contra um promotor da “ideologia da morte”.

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Foto de José Manuel Teixeira, publicada na página de Facebook de Mamadou Ba.
Foto de José Manuel Teixeira, publicada na página de Facebook de Mamadou Ba.

O dirigente anti-racista Mamadou Ba criticou esta quarta-feira a decisão do Ministério Público que subscreveu a queixa apresentada pelo neo-nazi Mário Machado ao defender a aplicação de uma multa.

Mário Machado colocou uma ação em tribunal por difamação depois do dirigente do SOS Racismo ter publicado na sua conta do Twitter uma frase em que considerava Mário Machado uma das figuras principais do assassinato de Alcindo Monteiro em 1995. O então skinhead neonazi nunca escondeu, antes pelo contrário, que participou na expedição violenta que, para além de múltiplas agressões a outras pessoas, culminou neste crime. E o Supremo Tribunal tinha concluído sobre o caso pela responsabilidade coletiva dos agressores. Machado foi condenado nesse processo por cinco crimes de ofensas corporais com dolo de perigo, referindo-se ainda a “completa ausência de arrependimento”. No texto do acórdão pode ler-se: “Bem sabiam os arguidos intervenientes em cada uma das agressões a ofendidos acima descritas que os objetos que utilizaram (soqueiras, paus, botas militares e outras com biqueiras em aço, garrafas partidas, ferros) revestem características que, quando usados da forma referida, são aptos a causar lesões susceptíveis de provocar a morte aos atingidos ou colocá-los em risco de vida ou de causar uma grave ofensa à sua integridade física. E que todos iriam fazer uso desses objetos, o que queriam, conformando-se com o resultado das agressões praticadas com os mesmos”.

À saída do Juízo Local Criminal de Lisboa depois das alegações finais, Mamadou Ba reiterou a sua afirmação, vincando: “era o que faltava retirar seja o que for que já disse” e defendeu que a posição do Ministério Público confirma a sua “capitulação” “perante as manobras de manipulação da extrema-direita”. O dirigente anti-racista pensa que o MP devia “defender o interesse público” e não acompanhar a queixa do neonazi.

Pouco antes, nas suas alegações finais, tinha voltado a defender que “Mário Machado teve um papel central na promoção da violência política que esteve na origem da morte de Alcindo Monteiro e ainda continua a ter no contexto atual”. Isto porque se assume “como um combatente nacionalista, orgulhosamente filiado ao supremacismo”, uma filiação à “ideologia da morte” que “responsabiliza inequivocamente pelas consequências da promoção desta ideologia”.

Isabel Duarte, a sua advogada, citada pela Lusa, acrescenta que Mário Machado é “um nazi e um criminoso assumido” que participou naquela noite nas agressões atacando com um bastão outras pessoas. Assim, a frase escrita pelo ativista “não contém elementos longe da realidade”.

Para ela, “Mário Machado escolheu criteriosamente o seu cordeiro pascal”, sendo um julgamento “com base na banalização do mal” de um “racista assumido” que é “um perigo social”.

Entre as várias mensagens de solidariedade partilhadas nas redes sociais estava a do dirigente bloquista Fabian Figueiredo que escreve: “Mário Machado fez parte da turba neonazi q no dia 10/06/95 espalhou o terror por Lisboa e matou Alcindo Monteiro. Recentemente exibiu-se disso nesta rede social. Condenar Mamadou Ba é condenar a preservação da memória dos crimes racistas. Que a justiça nos poupe a essa vergonha. “